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Iraniana condenada
Quem
labuta com a escrita - e faz disso
uma atividade corriqueira - é
atravessado, volta e meia, por
assuntos que martelam a
consciência.
Como
um fantasma, o assunto paira sobre
sua cabeça. Sem folgas.
Você
quer pensar em algo diferente, numa
guloseima, por exemplo, mas o fato
fica preso em sua mente. E lá, ele
“inferniza” sua vida, cobrando de
você uma atitude.
Você
acorda e se olha no espelho e o que
você ver é a imagem do fato, da
notícia. Nos momentos de silêncio:
um corte, um barulho, quebra sua
introspecção, atropela seu
raciocínio e o sacode.
Sacode-se a cabeça, lava-se o
rosto. Mas as frases feitas invadem
você. O “rosto” do fato assoma-se à
sua frente. E o incômodo persiste.
Você não se livra fácil da alma que
pena em seus pensamentos.
É o
caso da iraniana que foi condenada
à morte por ter, supostamente,
cometido adultério. Não é só a
condenação que choca, mas a maneira
pela qual ela vai ser executada:
por apedrejamento.
Resolvi, intimamente, que não iria
manifestar-me, afinal remoer o fato
é tão doloroso quanto saber de sua
existência. A cada linha escrita, a
indignação aumenta. E o mundo,
nesse mundão de meu Deus,
aproxima-se de um vale de lágrimas,
uma procissão de monstruosidades.
“Nas
condenações por apedrejamento no
Irã, as mulheres são enterradas até
o busto e homens atiram pedras
pequenas o bastante para não matar
rapidamente. No caso dos homens,
eles são enterrados até a cintura,
com os braços livres para que
possam se defender”. Quer relato
mais nefasto do que esse?
Sabemos que há países democráticos
que adotam a pena de morte. Poucos,
mas há. Até mesmo nos EUA, uma
democracia consolidada, modelo para
todo o Ocidente, há possibilidade
de um cidadão ser executado,
depois, evidente, de um processo
legal, garantido o direito de
defesa com todo o seu aparato
constitucional.
Mesmo assim, nunca entendi bem como
o Estado, ente político conformado
por teorias iluministas,
aperfeiçoado pelo avanço do
constitucionalismo, presta-se ao
papel de conduzir a execução de um
dos seus cidadãos, embora essa
cidadania esteja, digamos,
“compurscada” por um ato infame.
Se a
idéia que deu origem ao Estado é um
contrato entabulado entre o
indivíduo o ente político, como
pode um contratante outorgar ao
outro o poder de lhe ceifar a vida,
que é o seu bem maior? Socorra-me
Alexandre Rocha!
Por
isso, não concordo com a pena de
morte, nem nas democracias nem nas
ditaduras. Nós, cidadãos comuns,
indivíduos dotados de sentimentos
dos mais diversos, podemos bradar,
incutir-se de um sentimento de
vingança e de monstruosidade, mas o
ente político não pode se valer
dessa fúria, dessa ignomínia.
Nas
democracias, pelo menos há uma
possibilidade, em tese, de uma
defesa justa, fiscalizada pela
imprensa, pelos outros poderes,
pelos próprios cidadãos. E a
imprensa, em regra, é impiedosa com
os governantes, principalmente
nestes casos.
E há
a possibilidade, também, em seu
leito próprio, que a legislação
avance, permitindo que seja banida
do ordenamento jurídico uma norma
nefasta como essa.
Nas
ditaduras, comandadas por loucos do
naipe do presidente iraniano, não
há essa possibilidade. Não há
crítica possível, não há
fiscalização, não há possibilidade
de mudança, aliás, há, para pior:
quem contestar estará dando o
primeiro passo para ser executado.
A
crítica teve que vir de fora, por
meio da rede mundial de
computadores. Uma corrente
solicitou que o governo brasileiro,
amicíssimo do ditador, interviesse.
No início, o nosso Líder Maior
disse não. Como ele mesmo pontuou:
“aí seria avacalhar. Todo país tem
sua lei e deve ser respeitada”.
Depois, forçado a se manifestar,
ofereceu exílio, de boca, pois,
segundo ele, se a iraniana incomoda
o seu amigo ditador, ele a recebe.
Tudo em nome de sua amizade com o
tirano louco.
Mas,
deixemos as boçalidades do governo
brasileiro de lado. O que ainda me
constrange é a possibilidade do
apedrejamento. Fico a imaginar o
sofrimento.
O
melhor que se faz, neste momento, é
silenciar. Tapar os ouvidos para
não ouvir os sons das pedras que
irão macerar o rosto da Iraniana.
As minhas míseras palavras são só
um desabafo de quem vive
“assombrado” pela possibilidade de,
em pleno século XXI, vivenciar
tamanha barbárie.
Zeferino Junior - Servidor Público
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