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A
avenida professor João Menezes, a
mais famosa de São Raimundo, perdeu
seu inquilino mais ilustre. Há
décadas ocupando um pequeno espaço,
Tio Raimundo, como era conhecido,
não abrirá mais o seu pequeno bar,
espremido pelos comércios, pois já
não habita mais o mundo dos vivos.
Aquele bar tinha algo especial. Não
servia música, não servia
tira-gosto suculento, mas era
freqüentado por diversas gerações e
classes sociais. Tio Raimundo,
casmurro, era a atração. Aquele ar
de bom velhinho, de trabalhador
incansável, que atravessava dias e
noites, numa pontualidade
britânica, atraía os candidatos a
ébrio.
E o tempo passou.
Foram-se Boi-na-Brasa (quem se
lembra?), Xavante, Zero Grau, Razão
Social, Adega de Baco, Ponto Chic,
Cactos, Kaos. Todos sucumbiram às
crises econômicas e culturais. Tio
Raimundo resistiu, meio démodé, é
verdade, mas firme na sua forma de,
digamos, gerenciar o seu
empreendimento.
Veio a música baiana,
Tio Raimundo nunca tocou uma só;
veio a sertaneja, Tio Raimundo
nunca abriu espaço para as duplas
caipiras; veio o reggae, Tio
Raimundo ignorou solenemente a
Tribo de Jah.
O seu bar limitava-se a
um balcão de madeira, algumas
garrafas de cachaça na prateleira,
alguns limões já cortados, à espera
dos incautos beberrões, além da
cerveja bem-gelada.
Por duas oportunidades,
fui vizinho de bar do Tio Raimundo.
Quando muito jovem, ajudei meu
irmão a tocar o jurássico Xavante.
Em companhia do Neim - o do Bola de
Ouro - ajudamos a dar o golpe final
no bar que fez parte de uma época
pra lá de boêmia da cidade.
Depois, num passado
mais recente, na metade da década
de 90 (estou ficando velho!), abri,
junto com meu outro irmão, o Ponto
Chic. Por um período de mais ou
menos um ano e meio ajudamos a
badalar a já badalada noite da João
Menezes. Era um frisson só.
Enquanto a noite
explodia, mergulhada em hormônios
que saltitavam da juventude em
transe, Tio Raimundo continuava
indiferente ao rugir da vida.
Sentado na calçada do seu bar, com
as pernas cruzadas, esperava um a
um os fregueses. Quando algum
entrava, ele entrava atrás e, de
pronto, servia, sem firulas, sem
sorrisos abertos, a talagada
necessária de Caribé, a bebida mais
pedida do seu bar.
Além de resistir às
intempéries do passar do tempo, da
tecnologia, do modismo, Tio
Raimundo foi mais longe: resistiu à
própria decadência da avenida. Isso
mesmo. Enquanto o point da cidade
mudou de endereço, deixando a
avenida às escuras, estéril, sem a
presença da juventude transviada,
que um dia a habitou, o bar do Tio
Raimundo, que nem mesmo batizado
era, ficou lá, solitário como um
ser monástico.
Mas aí a “Indesejada
das Gentes”, como dizia Manuel
Bandeira, chegou e “seqüestrou” o
Tio Raimundo. O levou para outra
dimensão. Talvez os deuses
quisessem que ele “embriagasse” de
humanidade os seres celestiais, tão
puros, tão intocáveis, tão
despojados de carga mundana.
Posso até imaginar a
cena: ele chegando, no horário
aprazado, todo de branco,
levantando a porta de correr,
ajeitando as mesas, cortando os
limões, lavando os poucos copos e
sentando na porta, com as pernas
cruzadas, uma sobre a outra,
naquele balançar sereno e paciente.
Enquanto isso, seres
alados adejando sobre as nuvens,
calmos e serenos do lado de fora do
bar. Tio Raimundo, cheio de
parcimônia, a espera do primeiro
freguês por horas a fio, aguarda a
primeira venda. De repente, um anjo
magro, de asas curtas, com a
auréola enviesada, chega e se
dirige ao balcão. Com um olhar
vivo, procura alguma bebida mais
forte, cansado de suas tarefas
angelicais.
Com uma intimidade de
longa data, o ser de asas curtas,
desconfiado, olha de um lado para
outro, pede a bebida mais forte
permitida nos bares do céu: água
com gás. Tio Raimundo responde de
pronto: “só tem da torneira”.
O ser alado, frustrado,
sai endiabrado, ops!. Tio Raimundo
não perde a pose e emenda: “esse
Ziraldo não tem jeito”. Pois é, o
anjo, um pouquinho desengonçado,
era o saudoso Ziraldo, freqüentador
contumaz do bar que marcou várias
épocas das noites (in) quietas de
São Raimundo.
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Ah,
só um registro, a foto que ilustra
o texto foi enviada, via celular,
por um dos freqüentadores mais
assíduos do bar: Carlos Levi.
Consternado com a morte, enviou-me
a foto e pediu para que eu
homenageasse o seu “eterno tio”.
Zeferino Junior - Servidor Público
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