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   Com Zeferino Junior      

 

Entrementes, entre mentes, entre mim e ti. Entretanto, entre tantos, no entanto.......

Caros leitores-internautas, "ocuparei" este espaço pra falar e "provocar" vocês sobre política, cultura e direito.

 

 
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Tio Raimundo e seu bar eterno

z_junior@bol.com.br


 

A avenida professor João Menezes, a mais famosa de São Raimundo, perdeu seu inquilino mais ilustre. Há décadas ocupando um pequeno espaço, Tio Raimundo, como era conhecido, não abrirá mais o seu pequeno bar, espremido pelos comércios, pois já não habita mais o mundo dos vivos.

 

Aquele bar tinha algo especial. Não servia música, não servia tira-gosto suculento, mas era freqüentado por diversas gerações e classes sociais. Tio Raimundo, casmurro, era a atração. Aquele ar de bom velhinho, de trabalhador incansável, que atravessava dias e noites, numa pontualidade britânica, atraía os candidatos a ébrio.

 

            E o tempo passou. Foram-se Boi-na-Brasa (quem se lembra?), Xavante, Zero Grau, Razão Social, Adega de Baco, Ponto Chic, Cactos, Kaos. Todos sucumbiram às crises econômicas e culturais. Tio Raimundo resistiu, meio démodé, é verdade, mas firme na sua forma de, digamos, gerenciar o seu empreendimento.

 

            Veio a música baiana, Tio Raimundo nunca tocou uma só; veio a sertaneja, Tio Raimundo nunca abriu espaço para as duplas caipiras; veio o reggae, Tio Raimundo ignorou solenemente a Tribo de Jah.   

 

            O seu bar limitava-se a um balcão de madeira, algumas garrafas de cachaça na prateleira, alguns limões já cortados, à espera dos incautos beberrões, além da cerveja bem-gelada.

 

            Por duas oportunidades, fui vizinho de bar do Tio Raimundo. Quando muito jovem, ajudei meu irmão a tocar o jurássico Xavante. Em companhia do Neim - o do Bola de Ouro - ajudamos a dar o golpe final no bar que fez parte de uma época pra lá de boêmia da cidade.

 

            Depois, num passado mais recente, na metade da década de 90 (estou ficando velho!), abri, junto com meu outro irmão, o Ponto Chic. Por um período de mais ou menos um ano e meio ajudamos a badalar a já badalada noite da João Menezes. Era um frisson só.

 

            Enquanto a noite explodia, mergulhada em hormônios que saltitavam da juventude em transe, Tio Raimundo continuava indiferente ao rugir da vida. Sentado na calçada do seu bar, com as pernas cruzadas, esperava um a um os fregueses. Quando algum entrava, ele entrava atrás e, de pronto, servia, sem firulas, sem sorrisos abertos, a talagada necessária de Caribé, a bebida mais pedida do seu bar.

 

            Além de resistir às intempéries do passar do tempo, da tecnologia, do modismo, Tio Raimundo foi mais longe: resistiu à própria decadência da avenida. Isso mesmo. Enquanto o point da cidade mudou de endereço, deixando a avenida às escuras, estéril, sem a presença da juventude transviada, que um dia a habitou, o bar do Tio Raimundo, que nem mesmo batizado era, ficou lá, solitário como um ser monástico.  

 

            Mas aí a “Indesejada das Gentes”, como dizia Manuel Bandeira, chegou e “seqüestrou” o Tio Raimundo. O levou para outra dimensão. Talvez os deuses quisessem que ele “embriagasse” de humanidade os seres celestiais, tão puros, tão intocáveis, tão despojados de carga mundana.

 

            Posso até imaginar a cena: ele chegando, no horário aprazado, todo de branco, levantando a porta de correr, ajeitando as mesas, cortando os limões, lavando os poucos copos e sentando na porta, com as pernas cruzadas, uma sobre a outra, naquele balançar sereno e paciente.

 

            Enquanto isso, seres alados adejando sobre as nuvens, calmos e serenos do lado de fora do bar. Tio Raimundo, cheio de parcimônia, a espera do primeiro freguês por horas a fio, aguarda a primeira venda. De repente, um anjo magro, de asas curtas, com a auréola enviesada, chega e se dirige ao balcão. Com um olhar vivo, procura alguma bebida mais forte, cansado de suas tarefas angelicais.

 

            Com uma intimidade de longa data, o ser de asas curtas, desconfiado, olha de um lado para outro, pede a bebida mais forte permitida nos bares do céu: água com gás. Tio Raimundo responde de pronto: “só tem da torneira”.

 

            O ser alado, frustrado, sai endiabrado, ops!. Tio Raimundo não perde a pose e emenda: “esse Ziraldo não tem jeito”. Pois é, o anjo, um pouquinho desengonçado, era o saudoso Ziraldo, freqüentador contumaz do bar que marcou várias épocas das noites (in) quietas de São Raimundo.

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Ah, só um registro, a foto que ilustra o texto foi enviada, via celular, por um dos freqüentadores mais assíduos do bar: Carlos Levi. Consternado com a morte, enviou-me a foto e pediu para que eu homenageasse o seu “eterno tio”. 

 

Zeferino Junior - Servidor Público

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