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Acendo uma luz amarela toda vez que
me deparo com unanimidades. Quando
ouço o alarido das ruas, da
imprensa, dos comentaristas de
plantão, faço uma inflexão, ponho o
pé no freio.
Não
digo que não possa vir a aderir a
alguma dessas unanimidades. Não
descarto. É difícil, porém, essa
adesão. Aquela frase – “A
unanimidade é burra” - dita por
Nelson Rodrigues, “O anjo
pornográfico”, ressoa em meus
ouvidos diuturnamente. Sinto cheiro
de tapeação, de embuste, quando
avisto, ao longe, a fumaça do
unânime.
A
imprensa brasileira e do mundo, os
intelectuais e sub-intelectuais, os
comentaristas, os amigos, os
vizinhos, o taxista, o lavador de
carro, o operário, todos,
absolutamente todos, comemoram o
acordo entabulado entre o
presidente Lula e o tirano
iraniano de nome impronunciável.
A
cena foi apoteótica: segurando
pastas pretas, em clima de
rega-bofe, num tom juvenil e
burlesco, as mãos do presidente
Lula, do diplomata Celso Amorim e
do tirano de nome impronunciável,
acenaram, freneticamente, com o
acordo de não proliferação de armas
atômicas.
O
mundo havia tentado, é verdade. Mas
ninguém havia conseguido dissuadir
o governo iraniano do intento. Aí
chega o pacifista, o humanista, o
homem que prefere a paz e não a
guerra, que se solidariza com as
vítimas da política mundial e numa
manobra, à la Gandhi, consegue um
acordo.
Paro
um pouco. Reflito. E me faço uma
pergunta óbvia: é possível
acreditar numa tirania que nega os
horrores do Holocausto, que
extermina opositores, que demoniza
homossexuais e persegue mulheres?
Um
relato que li recentemente espanca,
sem trocadilhos, todas as minhas
dúvidas sobre a índole do governo
iraniano.
Um
jovem chamado Moshen, de 25 anos,
foi preso pela milícia iraniana no
dia 05 de agosto do ano passado
durante os protestos contra a posse
do tirano de nome impronunciável,
que fraudou as eleições. Fraude
essa reconhecida até mesmo pelos
Aiatolás. O jovem rebelde passou 28
dias preso sob os “cuidados” da
República Iraniana.
Transferido para uma prisão chamada
Evin, espécie de “Bastilha
Iraniana”, o jovem ficou algemado,
encapuzado e obrigado ao silêncio,
assim como todos os presos que
estão encarcerados nessa prisão.
Dias depois foi transferido para
outro calabouço, qualhado de
traficantes e cafetões.
Espancado em nome do “Deus
misericordioso e compadecido”, um
dos policiais, em certo momento,
disse para o outro: “engravide-o”.
Outro policial perguntou ao jovem:
“Você quer de volta o seu voto”?
Segundo o relato, todos os dias os
presos são espancados, violentados.
Moshen, três semanas depois, foi
jogado numa beira de estrada.
Quando encontrou sua família, o
jovem pediu que o levasse a um
médico que não o conhecesse.
Logo
após as fraudulentas eleições e dos
protestos, Lula falou: “por
enquanto, é só apenas alguma coisa
entre flamenguistas e vascaínos”.
Antes de acreditar no acordo vou
perguntar ao iraniano para que time
ele torce no Brasil. Eu sou
flamenguista. Mas se ele for
vascaíno, eu adiro na hora: prefiro
carregar a Cruz de Malta no peito a
ser carregado em uma cruz segurada
pelas mãos que abanaram as pastas
vazias de um acordo mentiroso e
protelatório.
Zeferino Junior - Servidor Público
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