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Vocês já sabem que a
minha relação com os leitores é
assim meio que turbulenta. Sou alvo
de elogios e críticas. Equilibro-me
entre esses dois vetores que animam
minha coluna. Pode não ser a melhor
coluna do portal, mas, certamente,
é a que dá mais voz aos leitores.
O texto sobre o
técnico Dunga inflamou ânimos e
provocou alguns, em especial os que
consideraram meu texto
impertinente, medíocre, velho ou
qualquer coisa que o valha. Resolvi
então, como de praxe, respondê-los
naquele velho bate-papo que, ao
invés, de assentar os ânimos,
exaltam-nos mais ainda. É do jogo.
E eu gosto.
Então vamos ao
debate, inspirados em duas
campanhas institucionais muito
parecidas veiculadas na mídia: a do
governo Lula – que combate o Crack
e a do Dunga – que combate o
craque.
“Deixa de ter cabeça
da ''globo'', tenha seu próprio
pensamento, acho que deve dar uma
refletida sobre seu senso de
justiça, mais é mal de quem vive de
criticar e nunca ter feito nada
para mudar coisa alguma. Fica com
Deus! Abraços”
A partir de agora,
vou perseguir um pensamento para
chamar de meu. O que você me
sugere? Um pensamento SBT, RECORD,
BAND? Nunca imaginei que existiam
essas figuras ideológicas. Vou me
esforçar para me livrar da
demoníaca cabeça “globo”. É um
pensamento que me atormenta na
penumbra da noite, ameaçando-me.
Ouço até o “plim, plim” ressoar em
meus ouvidos, madrugada a fora.
E que negócio é esse
de que eu nunca ter feito nada para
mudar coisa alguma? Peraí, amigão.
Já fiz, sim. Vou lhe contar uma
história.
Antes de torcer para
o Pé-do-Morro futebol clube,
acompanhava o Força Unida do
Outro-Lado-do-Tanque. Quase fui
dirigente do clube, acredita! Uma
vez influenciei a escalação do
time. Por conta disso, ganhamos do
time da Lagoa-de-Fora, numa final
cheia de emoções.
Sugeri que o
meia-esquerda Batata fosse
substituído pelo o meia-direita
Burruchagas (não sei se ele ainda
joga, mas era de uma garra
incrível). Por conta disso, aos
quarenta e quatro do segundo tempo,
de cabeça, o substituto deu a
vitória ao Força-Unida. O seu
Manoel do Boi, presidente de honra
do Força Unida, até hoje, me
agradece. Quando vou lá, sou
tratado como rei. Não falta caribé
e galinha caipira gorda. Portanto,
fiz, sim, alguma coisa para mudar
as coisas.
Sobre o meu senso de
justiça, continuo achando que o
dunga está em campanha contra o
craque.
Fica com Deus
também.
“Por que não cobram
a ida do Rodriguinho também,o que
era do Santo Andre?foi artilheiro
do paulista,fez mais gols que o
Neymar. Você acha q eles que tem
apenas 2 meses que vem jogando como
titular ia pegar a vaga de quem
passou 3 anos e meio trabalhando
para estar lá?Me diga mais uma
coisa,o que foi que o Ronaldinho
fez na seleção de 8 anos pra cá?e o
Adriano?todos tiveram suas
chances,eles não souberam segurar.”
Olha só que boa
opinião. Também levaria Rodriguinho
junto com os “Meninos da Vila”.
Aliás, levaria quase todo time do
Santos mais o Ronaldinho gaúcho. Ia
ser um espetáculo. O Adriano eu não
levaria para o desgosto do Flávio,
aquele que me chamou de velho no
comentário abaixo. Aliás, cá para
nós, levar o Cleberson, reserva do
inconstante Flamengo, é de um mau
gosto e tanto. Pena que o Pet não é
brasileiro. Levaria ele de olhos
fechados para a alegria do Flávio,
fanático torcedor do Flamengo e que
não gosta das novelas atuais.
“Medíocre é esse seu
texto, nunca o conheci como jogador
nem se quer como técnico,você
apenas demonstra que é pessoa sem
personalidade e incapaz de ter seu
próprio pensamento. Agora me diga:
quem faltou na seleção?Neymar?Ganso?Adriano?Ronaldinho
Gaúcho?..pois bem,os dois primeiros
nunca foram chamados e testados com
a amarelinha,fizeram a festa no
paulista porque só pegaram
aleijado.”
Meu amigo, você
perdeu uma oportunidade única de me
conhecer como jogador. Pergunte ao
Flávio, aquele que me chamou de
velho, como eu me comportava como
jogador. Olha só minha carreira:
comecei por um time chamado, que
ironia!, Santos. As camisas eram do
Luquinhas – hoje grande mestre em
história e doutorando em Maquiavel.
Eu era um jogador
clássico, tipo o Boiadeiro, aquele
que jogou no Guarani e no Vasco:
toque refinado e visão
privilegiada.
Depois de ganharmos
vários campeonatos, as camisas não
agüentaram mais e, puídas,
desapareceram. Bom. O que eu fiz:
montei o meu time. Isso mesmo. Não
contente em ser apenas jogador,
parti para a cartolagem. Eu era, na
verdade, cartola-jogador. O nome do
time: “Clube de Regatas Central”,
embora a gente não conhecesse um
par de remos e muito menos uma
canoa. De regatas, só conhecíamos
as camisetas da Hering.
Depois de um começo
difícil, tornamo-nos um time
campeão. Ainda me lembro das
primeiras formações.
De dar inveja ao
mestre Dunga, aquele que combate o
craque, o time era esse:
Dió-do-seu-Zezé-da-dona-Cléia era o
goleiro. Gostava de usar uma camisa
com o nome do ex-goleiro do
Flamengo, o argentino Ubaldo
Matildo Filliol.
Almir e Petrônio -
ex-animador dos comícios do Pe.
Herculano - nas laterais. Esses
dois eram da escola de futebol da
Milonga.
Eu, - conhecido como
o líbero italiano Baresi - na zaga
em companhia do zagueiro Mauro
Medão – meu querido primo
Arquimedes – ( o apelido é em
alusão ao Mauro Galvão, então
zagueiro do botafogo da época).
Meio de campo:
Rômulo do Arsênio (eficientíssimo),
Murilo, irmão do Neim, filho da
dona Silvinha e habilidoso como o
Edilson, o capetinha, fazia a
dupla com o veloz Jackson, também
da escola de futebol da Milonga.
No ataque: o genial
Zé Nilson (irmão do Paulo da
Farmácia) e o velho e goleador
Satiro, filho da Solimar do Zé
Luiz. Este era parecido com o
gaúcho, aquele goleador do
Flamengo. E, por final, Roninha do
Outro-Lado-do-Tanque, que era um
velocista, como o Robson Caetano,
fechava o ataque dos sonhos.
Tínhamos, ainda, na
reserva, Bicudim da Rádio Cultura,
na lateral e Bitoso do Adailton e
seu Netim, filho do seu Teim,
goleador do SARANO, time de futebol
de São Raimundo das décadas
passadas.
Pois bem, caro
leitor, se você não conhecia a
minha trajetória futebolística,
acaba de conhecer. Que coisa boa.
Sabe agora que fui cartola,
jogador, treinador, e promovi
vários talentos do centro e da
periferia da cidade.
Mereço ou não um
título na Câmara Municipal de
promotor de talentos
futebolísticos? Vou pedir para o
meu primo Laércio que faça um
requerimento nesse sentido.
“Caro Junin,
concordo com você quando disseste
que o futebol está burocratizado,
roubado, capitalizado e etc. Agora,
você talvez inocentemente não se
deu conta que estás ficando velho,
e nesta fase coisas que eram
maravilhosas não vemos mais graça.
Quem não se lembra da novela Roque
Santeiro que parou o país, e hoje
dissemos q as novelas não prestam,
pois é, é que estamos perdendo a
graça.reflita.”
Oh, meu amigo
Flávio, meu centroavante certeiro.
Vou refletir sobre a minha velhice
sempre. A cada cabelo branco que
insista em pulular em minha fronte,
vou lembrar-me de você. Vou pensar
que um dia gostávamos de Roque
Santeiro, de Sinhá Moça, de Que Rei
sou Eu? Dos trapalhões, do Túnel do
Tempo, do Balão Mágico, do Tamarino
( campo de futebol próximo do
colégio das irmãs), onde íamos toda
vez que éramos expulsos da quadra
do colégio das irmãs. Prometo que
vou refletir sobre o seu
questionamento.
Encerro por aqui,
após a sentença do meu amigo
Flávio, curvado, enrugado, com
dores lombares, fadigas nas pernas,
osteoporose em alta, visão opaca e
um sentimento de inaptidão, fruto
de lembranças pesadas tão
distantes, tão caras, tão límpidas.
Fico a imaginar agora aquela poesia
de Cecília – não a Cecília O. da
Costa –, que foi nossa professora
no colégio das irmãs, mas a
Meireles, que um dia disse olhando
para o espelho:
eu não tinha este
rosto de hoje,
Assim calmo, assim
triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
em que espelho ficou perdida a
minha face?
Zeferino Junior - Servidor Público
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