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O
futebol foi, para mim, uma paixão
duradoura. Desde a tenra idade, o
esporte bretão encantava-me.
Acompanhava atentamente o mundo da
bola, com lupa. Conhecia de cor e
salteado as escalações dos grandes
clubes e seleções. Sabia a origem e
a trajetória de cada jogador, as
suas manias, as suas limitações, o
seu brilhantismo.
De
um tempo para cá, perdi,
dramaticamente, o interesse pelo
esporte. Isso ocorreu devido ao
rumo que ele tomou. Pouco a pouco,
o que era feito com magia, beleza e
refinamento cedeu lugar à
burocracia, à apatia e à
melancolia.
Os
jogadores viraram estrelas,
mega-astros, seres impolutos,
símbolos do marketing, verdadeiros
empresários de si mesmos, rodeados
pelas hienas famintas dos
negociadores de plantão.
Assim, fez-se a escuridão no
planeta-futebol. Os lucros e o
resultado é que seriam, doravante,
a força motriz do esporte.
Malabarismo com a bola: nunca - é
falta de respeito com o adversário;
uma gracinha, uma pedalada, um
gesto irônico: crime de
lesa-futebol.
Assim, a graça e a leveza
construídas com toques mágicos
foram condenadas pelos burocratas
da bola, pelos “funcionários
públicos” do futebol. Jogar agora:
só com carimbo, máquina de
datilografia, carbono e relógio de
ponto.
A
frustração criou em mim um certo
azedume, que se traduziu em repulsa
à seleção brasileira, desde há
muito. Dirigida por cartolas
suspeitos, envolvidos em negociatas
idem, a seleção canarinho nunca
mais ostentou o brilho de outrora.
O arrepio da pele e o brilho nos
olhos, quando ela entrava em campo,
já não se depositam mais em mim,
como dantes.
Com
outros olhos, comecei a apenas
apreciar, com denodo, o balé do
futebol, fosse quem fosse o
protagonista da dança
futebolística. Camisa, flâmula,
hino, nada me atrai mais. Só quero
beleza, balé e magia.
O
distintivo pode ter as cores
francesas, africanas ou até mesmo
do Pé-do-Morro futebol clube, time
do interior de São Raimundo Nonato.
O
meu olhar é só para o bom e o belo.
Foi assim que o time do Santos, com
seus “diabinhos de branco”,
encantou-me, tirou-me da apatia.
Inventando espaços e passos, danças
e fricotes, Neymar com sua
impressionante rapidez e
inteligência, aliada à sua
impressionante eficiência, cobriu
de beleza o futebol brasileiro.
O
majestoso Ganso, por seu turno, com
uma postura de dândi inglês, que
mais parece entrar em campo para
tomar o chá das cinco, em plena era
vitoriana, carrega a bola colada
aos pés, numa intimidade pouco
vista nos dias atuais.
Sem
olhar para ela, sabe que a comanda,
não se preocupa com a ausência
temporária da pelota. Sabe que ela
vai voltar para que ele passe nela,
novamente, um verniz que borbulha
dos seus pés mágicos.
Sem
rugas, redonda, amaciada, a bola
volta ao campo, imantada,
agradecida por ter sido tão
bem-tratada pelo seu artesão mais
genial.
Eles
estão fora da Copa do Mundo. Dunga
preferiu a transpiração ao talento.
As trevas à luz. A rudez ao
refinamento. A derrota da magia à
vitória (ou derrota) da
mediocridade. As sombras projetadas
na “caverna de Platão” ao brilho da
luz, que ilumina a vida fora dela.
Capaz de sufocar a beleza e
antecipar a derrota amarga do
talento, ainda que vença o
campeonato de ponta a ponta, a
mediocridade viveu seus melhores
dias, sob a batuta do nosso técnico
raivoso, rude e medíocre.
Zeferino Junior - Servidor Público
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