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   Com Zeferino Junior      

 

Entrementes, entre mentes, entre mim e ti. Entretanto, entre tantos, no entanto.......

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A crônica de uma ponte anunciada

z_junior@bol.com.br


Maquete da Ponte de Teresina

 

Tão fotografada quanto falada, a nova ponte de Teresina está agora, podem acreditar, à minha frente. Posso vê-la do meu quarto, enquanto digito.  Só desvio o olhar para teclar. Um olhar nela, outro nas teclas. Muitos podem pensar que essa informação é só aquela tentativa charmosa de emprestar ao texto um ar de protagonismo, e ao autor uma visão privilegiada que ele, na verdade, não tem.

 

Você está longe dela, diriam alguns. Essa mentira decorosa que você tenta passar como verdade é um só um clichê barato; o único lugar que você pode estar é numa sala ou quarto com uma única janela que não possibilita visão alguma, diriam outros.  

 

Juro que os nossos olhares estão em rota de colisão. Essa obra monumental para os nossos padrões citadinos não cansa de me espreitar do alto do seu corpanzil esguio que carrega braços espraiados ou estaiados, como queiram, e de sua base estendida de um lado ao outro do rio, atravessando-o sem cerimônia.

 

Estou no décimo quarto andar. O meu horizonte diminuiu diante de sua presença. O verde, até então onipresente, cede um espaço ao portentoso monumento de concreto e de vigas que promete melhorar nosso cotidiano.

 

O rio barrento, escondido pela mata, tem agora por cima de si uma coluna dorsal com todas suas vértebras. Sem tocá-lo, roubando também parte do seu horizonte que, agora, também, ficou menor, a ponte que liga zonas, que diminui distâncias, que alarga caminhos, é uma paisagem para sempre.  

 

Hoje, sinto falta não só de um naco de horizonte roubado, mas daquelas “formiguinhas” de macacão-laranja que, sob o sol inclemente, durante meses a fio, construíram o colosso, movimentando-se para lá e para cá, em cima de tratores, com picaretas, pás e perfuratriz nas mãos.

 

Escavacando o chão, sedimentando-o, aplainando-o para erguer um amontoado de ferro e cimento, esses “homens-formigas” nos presentearam  essa maravilha da engenharia. 

 

Eles sumiram junto com o naco de horizonte subtraído de mim. Agora, essa minha vizinha me espreita. Não há obstáculos entre mim e ela. Os carros a atravessam. Os pedestres, deslumbrados, a fotografam, banhando-a de flashes.

 

Ela, compenetrada, promete ficar lá, melhorando o trânsito e nossas vidas. As minhas manhãs, os meus fins-de-tarde, as minhas noites serão preenchidas pela sua onipresença. 

 

Nunca imaginei que iria escrever sobre ela, pelo menos por enquanto. Não tinha planos. Sentei para tentar vazar no papel algumas considerações sobre “O Segredo dos Seus Olhos”, filme argentino, ganhador do Oscar, que acabara de arrancar-me uma lágrima marota que, enquanto escorria lentamente pelo meu rosto, foi flagrada no seu percurso sinuoso pela minha mulher, que estava ao meu lado.

 

Mudei o intento, depois de ser consumido pela estatura da ponte. Acuado, não tive como não garatujar essas mal traçadas linhas.  Crime de “lesa-crônica”, afinal os verdadeiros cronistas e poetas já devem estar vertendo pelos poros odes à gigante de ferro e concreto.

 

Aguardarei as verdadeiras crônicas sobre a ponte. Enquanto isso, parodio Caetano: “vou ficar cego de tanto vê-la, de tanto tê-la, estrela.”  

 

Zeferino Junior - Servidor Público

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