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Tão
fotografada quanto falada, a nova
ponte de Teresina está agora, podem
acreditar, à minha frente. Posso
vê-la do meu quarto, enquanto
digito. Só desvio o olhar para
teclar. Um olhar nela, outro nas
teclas. Muitos podem pensar que
essa informação é só aquela
tentativa charmosa de emprestar ao
texto um ar de protagonismo, e ao
autor uma visão privilegiada que
ele, na verdade, não tem.
Você
está longe dela, diriam alguns.
Essa mentira decorosa que você
tenta passar como verdade é um só
um clichê barato; o único lugar que
você pode estar é numa sala ou
quarto com uma única janela que não
possibilita visão alguma, diriam
outros.
Juro
que os nossos olhares estão em rota
de colisão. Essa obra monumental
para os nossos padrões citadinos
não cansa de me espreitar do alto
do seu corpanzil esguio que carrega
braços espraiados ou estaiados,
como queiram, e de sua base
estendida de um lado ao outro do
rio, atravessando-o sem cerimônia.
Estou no décimo quarto andar. O meu
horizonte diminuiu diante de sua
presença. O verde, até então
onipresente, cede um espaço ao
portentoso monumento de concreto e
de vigas que promete melhorar nosso
cotidiano.
O
rio barrento, escondido pela mata,
tem agora por cima de si uma coluna
dorsal com todas suas vértebras.
Sem tocá-lo, roubando também parte
do seu horizonte que, agora,
também, ficou menor, a ponte que
liga zonas, que diminui distâncias,
que alarga caminhos, é uma paisagem
para sempre.
Hoje, sinto falta não só de um naco
de horizonte roubado, mas daquelas
“formiguinhas” de macacão-laranja
que, sob o sol inclemente, durante
meses a fio, construíram o colosso,
movimentando-se para lá e para cá,
em cima de tratores, com picaretas,
pás e perfuratriz nas mãos.
Escavacando o chão, sedimentando-o,
aplainando-o para erguer um
amontoado de ferro e cimento, esses
“homens-formigas” nos presentearam
essa maravilha da engenharia.
Eles
sumiram junto com o naco de
horizonte subtraído de mim. Agora,
essa minha vizinha me espreita. Não
há obstáculos entre mim e ela. Os
carros a atravessam. Os pedestres,
deslumbrados, a fotografam,
banhando-a de flashes.
Ela,
compenetrada, promete ficar lá,
melhorando o trânsito e nossas
vidas. As minhas manhãs, os meus
fins-de-tarde, as minhas noites
serão preenchidas pela sua
onipresença.
Nunca imaginei que iria escrever
sobre ela, pelo menos por enquanto.
Não tinha planos. Sentei para
tentar vazar no papel algumas
considerações sobre “O Segredo dos
Seus Olhos”, filme argentino,
ganhador do Oscar, que acabara de
arrancar-me uma lágrima marota que,
enquanto escorria lentamente pelo
meu rosto, foi flagrada no seu
percurso sinuoso pela minha mulher,
que estava ao meu lado.
Mudei o intento, depois de ser
consumido pela estatura da ponte.
Acuado, não tive como não garatujar
essas mal traçadas linhas. Crime
de “lesa-crônica”, afinal os
verdadeiros cronistas e poetas já
devem estar vertendo pelos poros
odes à gigante de ferro e concreto.
Aguardarei as verdadeiras crônicas
sobre a ponte. Enquanto isso,
parodio Caetano: “vou ficar cego de
tanto vê-la, de tanto tê-la,
estrela.”
Zeferino Junior - Servidor Público
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