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As
polêmicas, vez por outra, borbulham
nesse portal. Eu provoco algumas.
Isso é saudável porque “desperta” e
nos tira da condição passiva que,
normalmente, adotamos em nossas
vidas.
Algumas visões de mundo - de tão
propaladas, de tão fácil
assimilação - costumam seduzir as
pessoas. O discurso está pronto e
acabado. Na escola aprendemos
assim. Na tevê, também. No seio
familiar, idem. E assim, ao longo
do tempo, as falas vão se
cristalizando, fossilizando-se, até
o ponto de serem irremovíveis das
mentes das pessoas.
De
repente, alguém diz: “epa!!, não é
bem assim”.
A
partir daí o mundo desmorona para
os defensores de algumas teses
unânimes. E aí aquela velha frase
reverbera em alto e bom som,
oriunda da boca deles “ quem você
pensa que é?”.
Como
ousa a discordar, por exemplo, de
que os negros são vitimas de uma
sociedade excludente,
patrimonialista e elitista,
governada até hoje pelos descentes
dessa elite. Ou que os índios, de
uma pureza panteísta, os
bom-selvagens de Rousseau, não
foram dizimados até perto do
extermínio pelos colonizadores. E
por aí vai.
Essa
reação (deles) é tão
desproporcional que, na maioria das
vezes, beira a impostura
intelectual. Aí é preciso fazer um
longo intróito afirmando,
reafirmando, que se reconhece que
houve, sim, isso e que não se podem
negar todos esses infortúnios que
se abateram sobre a nossa sociedade
ao longo dos séculos.
Não
sou um negacionista. Coloco isso
claramente nos textos. Repito
insistentemente. Mas eles não se
contentam. A cada frase, por mim
escrita, parece que estrangula a
úlcera deles. E aí, rangendo os
dentes, com foice e martelo na mão,
condenam-me às profundezas,
alcunhando-me de direitista,
insensível, burguês, e por aí vai.
Confesso que meus textos possuem
uma carga de ironia e contundência.
Não poderia ser diferente. Esta - a
contundência - deve marcar o texto
da primeira à última linha, sob
pena de algum tipo de recuo
entremostrar titubeio; aquela - a
ironia -, para mim, é a alma do
texto. Aprendi, com deficiência,
evidente, com Machado de Assis.
Seus textos são recheados de
tiradas irônicas que dão aquele
toque de genialidade, marca de sua
obra.
A
minha visão sobre o passado, podem
acreditar, é, praticamente, a mesma
dessa turma que me contesta,
guardadas imensas proporções. As
lições que eu tiro disso é que são
largamente diferentes.
Creio que devamos usar os erros do
passado para criar um novo presente
e um futuro mais digno, e não para
reescrever a história e apenar ou
privilegiar quem descende desta ou
daquela casta.
Eu
entendo, por exemplo, que
implantação das cotas raciais é um
dos maiores erros que a sociedade
brasileira está incorrendo. No afã
de fazer uma reparação, vamos criar
um sentimento de racialismo numa
sociedade que se orgulha de ser
mestiça.
Com
o mapeamento do genoma,
descobrimos, por exemplo, que o
conjunto de genes que imprimem uma
cor mais escura a um indivíduo é
tão pequeno que é incapaz de
caracterizar uma raça.
É
possível que se encontre mais
semelhanças genéticas entre um
alemão da gema e um negro africano
do que entre os próprios negros ou
entre os próprios alemães.
Entenderam?
Cachorros têm raças; humanos, não.
Os ascendentes dos europeus e dos
pigmeus da África Central, ou dos
índios pré-colombianos e dos
colonizadores, que aportaram por
aqui há quinhentos anos, são os
mesmos.
Há
um ou dois anos, dois estudantes
gêmeos concorreram ao vestibular
pelo sistema de cotas da
Universidade de Brasília. Um foi
considerado negro, o outro, não.
Isso é só uma das inúmeras
evidências que estraçalham a tese
dos cotistas.
Então, nobre escriba, você afirma
que não há preconceito no Brasil?
Claro que não afirmo. Há, sim, em
toda esquina. Somos
preconceituosos. Mas isso não é
institucionalizado. Isso não é
política de Estado ou de
organizações da sociedade civil.
Experimentem uma coisa: convoquem
pelos meios de comunicação de todo
o país uma passeata invocando o
racismo, o direito dos brancos a
isso ou aquilo, repudiando a raça
negra. Sabe quem vai aparecer:
alguns bêbados e uma penca de
neonazistas, doidos para esfolar um
negro, um homossexual e um
nordestino.
Além
disso, implantada essa idéia,
criaríamos dentro da própria
comunidade negra segregação. Uma
parte, beneficiada pelas cotas,
ascenderia aos postos mais altos;
outra parte, não estimulada pelo
estímulo, ficaria na mesma.
Resultado: segregada duas vezes,
muitos membros da “raça” negra
ficariam mais distantes dos brancos
da elite e dos negros da nova
elite.
“Então, qual é a saída cara
pálida”? : investimento maciço na
educação de base, implantando a
meritocracia para alunos e
professores. Ah! é preciso algo
emergencial, uma proteção mais
rápida e urgente. Bom, então
estabeleça cotas baseadas na faixa
de renda da população.
Dessa forma, pretos, brancos e
amarelos pobres teriam condições de
chegar ao ensino público
universitário. E já que a maioria
dos miseráveis pertence à “raça”
negra, seriam eles os maiores
beneficiados. Acho que é uma
solução simples e eficiente.
Gilberto Freyre, um dos maiores
intelectuais desse país, legou-nos
obras memoráveis. Uma delas, “Casa
Grande e Senzala”, é um clássico.
Lá ele reconhece a violência da
elite branca, dos senhores de
escravo, mas entende que houve, em
vários casos, congraçamento entre
as negras e os senhores nas
relações íntimas que travaram ora
na senzala, ora na Casa Grande.
Essa
tese revolta os marxistas
tupiniquins. O intelectual
pernambucano é chicotado sem pena
no pelourinho dos esquerdistas por
conta disso. Para estes, a nossa
sociedade foi fundada pelo “Estupro
Original”. Todos os rebentos
concebidos pelas negras escravas ou
ex-escravas em congresso com os
coronéis brancos são frutos da
violência.
Claro que houve uma grande leva de
violência perpetrada pelos senhores
de escravos. Não foi pouca. E isso
choca qualquer um. Mas havia
relações “normais” entre colonos
pobres e negras, por exemplo. Ou
até mesmo entre coronéis e
escravas, enfim. A grande
miscigenação- quase cinqüenta por
cento dos brasileiros são mestiços
- de nosso povo e documentos da
época revelam isso.
Utilizei o exemplo do Gilberto
Freire para reforçar que há uma
resistência gigante empreendida
pelos revisionistas, cotistas,
contra os que pensam diferente,
principalmente os que, como eu,
expressa em público e assume os
riscos de ser tachado de
reacionário ou coisa que o valha.
Na
semana passada, o mural de recados
desse portal foi palco das
discussões. Alguns, anônimos,
desceram a ripa em mim. Outros,
não-anônimos, saíram em minha
defesa. E aí se estabeleceu outra
discussão: os anônimos estão
legitimados a criticar?
Evidente que eu gostaria que todos
se identificassem. É muito bom
saber com quem você está debatendo.
Fico numa posição incômoda e alguns
internautas, que fazem questão de
se identificar, não aceitam a
máscara dos outros.
A
minha situação não permite, no
entanto, que eu ignore os debates,
ainda que contra os “sem-nome”.
Tenho que enfrentá-los dentro da
civilidade. Aos que se identificam,
sempre agradeço de forma lacônica,
para não transparecer soberba.
E
assim construímos esse espaço,
abarcando a todos, sem
revanchismos, sem segregação, sem
rancores ancestrais e com muita
disposição para encarar o passado,
o presente e projetar um futuro sem
cor, sem rancor e, em síntese, sem
quaisquer preconceitos.
Zeferino Junior - Servidor Público
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