.:":.Portal Sanraimundense.:":. - Entretenimento e Informação.

 

.

 

   Com Zeferino Junior      

 

Entrementes, entre mentes, entre mim e ti. Entretanto, entre tantos, no entanto.......

Caros leitores-internautas, "ocuparei" este espaço pra falar e "provocar" vocês sobre política, cultura e direito.

 

 
Últimas Matérias
"A igualdade ama o medíocre"
Um ato, várias reações
Leitor x colunista: um debate frutífero
A fala do Nazareno
O silêncio, cúmplice, de Lula

Passado, melanina e revanchismo

z_junior@bol.com.br


Irmãos gêmeos

 

O tema é complexo e apaixonante. O texto, publicado na semana passada nesta coluna, gerou uma reação de um “descendente de escravo”, segundo se auto-intitulou o leitor que o comentou.  “A igualdade ama o medíocre”, de minha lavra, causou esse descontentamento.

 

Para muitos, a minha posição é elitista, afinal não vejo a igualdade como valor absoluto. Assim, eu estaria corroborando com a visão dos, como é mesmo?:  colonizadores, elite branca e senhores de escravo etc.

 

Esse discurso – colonizador e colonizado, elite branca e descendente de escravo etc. - é fácil de propalar e de se incutir nas mentes dos mais incautos. O difícil é sair do lugar-comum e começar a demolir as falas de quem acredita que seremos perseguidos até o fim dos tempos pela elite dos descendentes dos senhores de escravo, pelos remanescentes dos colonizadores, pelos matadores de índios.

 

Como comentou o leitor(a), auto-intitulado “descendente de escravo”, uma filha de deputado tem mais chances na vida do que uma filha de uma doméstica porque fomos vítimas dos colonizadores europeus e seus descendentes que infligiram em nós todas às desgraças do mundo. Ele cita trechos de um livro de Darcy Ribeiro, que por sinal eu li, para corroborar sua tese.

 

Ninguém nega que a colonização empreendida pelos portugueses deixou uma nódoa na nossa sociedade. A nossa elite política é fruto, sim, dessa conjuntura. O resultado está aí a torto e a direito: desigualdades gritantes e um abismo sem tamanho separando as classes sociais.

 

Então o que fazer? Vamos ficar repetindo esse mantra até o fim dos tempos ou vamos, a exemplo de alguns países asiáticos, olhar para frente e investir na educação e na tecnologia para criamos um melhor presente e um futuro melhor?

 

Alguns países latino-americanos, mergulhado no passado, governados por caudilhos, buscam nesse passado opressor justificativas para a corrupção, para o personalismo, para potencializar mais ainda as desigualdades, enfim, confeccionam uma série de atos arbitrários para vender a idéia de que estão fazendo uma revisão histórica, afastando os opressores, os matadores de índios, a elite branca européia. Pura balela.

 

E a igualdade? A igualdade é um valor formidável, mas não o único que se deva cultivar numa sociedade plural. A liberdade e a fraternidade são do mesmo tope.

 

Num Estado democrático de Direito, a igualdade perante a lei já é um passo formidável para o avanço da civilização. Isso garante grandes conquistas. Assim, o filho do deputado, por exemplo, tem que se sujeitar a lei; o filho da empregada doméstica, também.

 

Ah!! diria o “afro-descendente” que me acusou de ter uma visão elitista perigosa: “mas ninguém cumpre a lei. A lei no nosso país é um faz de conta”! Só serve para os despossuídos.  Talvez. Mas a solução não é a extinção do Estado do Direito ou mandar às favas o ordenamento jurídico. Não. A solução é o aperfeiçoamento disso. E é possível, sim. Temos leis que são cumpridas e favorecem as classes menos favorecidas, efetivando uma gama de direitos delas.

 

Além disso, algumas figuras que, até então, estavam acima da lei começam a sofrer os rigores dela. Hoje, por exemplo, governadores são presos e são cassados. E olhe que são da elite branca. Um presidente foi deposto – da elite branca- sem que houvesse um tiro. O governador da Paraíba – da elite branca- foi defenestrado do cargo. De outra banda, um respeitado membro dos descendentes de escravos ocupa uma vaga no STF e muitos outros ocupam ministérios, reitorias de universidades, postos altos na República, enfim.

 

Falta muito, claro. Os bolsões de miséria existem em nosso país em demasia. Muitos que vivem lá são filhos da escravidão, da miséria e do caráter patrimonialista desse país. O desafio dos governantes de hoje é criar as condições para se erradique essa chaga social que é a miséria, inconcebível num país que é um dos maiores produtores de comida do mundo.  

 

A tentativa de revisar o passado sob uma única ótica, dividindo a sociedade e acusando a ‘elite branca’ das mazelas em que vivemos não é uma solução, ao revés, é mais um disparate, um engodo.  O passado obscurantista deve ser lembrado como uma forma de não incorrermos mais em erros como os de outrora - e não como trampolim para cometer mais equívocos.

 

Não é com um ranço colonialista, não é com baba escorrendo no canto da boca, não é com um discurso envenenado pelas teses acadêmicas que vamos ofertar à filha da empregada doméstica uma educação e uma saúde dignas.

 

Quando pudermos oferecer uma educação pública digna, universal, muitas  diferenças vão continuar existindo, afinal haverá filhas de empregadas domésticas que virarão doutoras porque estudaram; mas haverá outras filhas de outras domésticas que tiveram a mesma chance, mas que continuarão empregadas domésticas das doutoras que antes eram empregadas domésticas.

 

Isso vale para qualquer outra profissão. Só usei o exemplo da doméstica para reproduzir o que o leitor havia exemplificado.

 

“A igualdade (aquela defendida pelos “oprimidos”) ama o medíocre” porque não respeita a meritocracia. Porque tenta igualar, de forma atabalhoada, os desiguais, afrontando assim os pilares democráticos modernos.

 

Assim, a história para os que pensam como o “descendente de escravo” é uma construção ininterrupta do passado, que cria duas classes: os vitimados e os opressores: uma visão tacanha que quer colocar de um lado, ancestralmente, as vítimas; do outro, os carrascos.

 

Segundo essa idéia, uma porção de melanina na pele, dependendo da quantidade, é suficiente para inserir o indivíduo na classe dos vitimados, dono, então, de uma reparação; melanina a menos, de outro lado, classifica o indivíduo em carrasco, ou seja, em culpado pelos  crimes que ele jamais cometeu. Quem manda ser da “elite branca”, diria o leitor que me indagou.

 

 

Rever o passado, tentando projetar nele as noções que temos, hoje, de justiça é extremamente perigoso.

 

Antes dos colonizadores chegarem às Américas, os povos que vivam aqui escravizavam seus inimigos, quando os venciam na guerra. Alguns -  podem assistir ao filme Apocalipse, de Mel Gibson - sacrificavam seus inimigos num altar, retirando o coração deles em vida, para, canibalisticamente, comerem.

 

A escravidão, infelizmente, foi uma prática corriqueira no curso da história. Europeus escravizaram europeus, asiáticos escravizaram asiáticos, árabes escravizaram árabes, africanos escravizavam africanos. Há relatos que, Zumbi, o do Palmares, tinha seus próprios escravos.

 

Por isso, é a natureza humana que é sórdida e não o percentual de melanina a menos na pele, a cobiça capitalista ou coisa que o valha que fincam o mal entre nós. As monstruosidades perpetradas pelos homens não têm origem na cor da pele ou em sua etnia.

 

A luta justa dos dias atuais, do presente, é a que propõe evitar qualquer tipo de escravidão, permitindo, desta feita, que os cidadãos de hoje e os de amanhã não sejam submetidos a essa prática tão funesta.  Isso se combate com menos passado revanchista e mais presente e futuro edificantes.  

 

Não caiamos no engodo de usar o passado para refundarmos a barbárie e nem utilizá-lo para cometermos justiças históricas, submetendo os indivíduos da elite branca, dos descendentes dos senhores do engenho, da elite portuguesa, que são cidadãos de um país democrático, a penas perpétuas, que só servirão para dividir o país e o torná-lo, olha só!, mais desigual.  

 

A pobreza não tem cor.  O “olhar” do Estado sobre seus cidadãos deve ser daltônico. Os descendentes dos matadores dos índios, o descendentes dos índios, os dos senhores de escravos, os dos próprios escravos merecem ser tratados sob a ótica da igualdade, mas uma igualdade que respeita os desiguais – nas suas particularidades.

 

É a velha máxima republicana que deve preponderar: tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, nos limites exatos de suas desigualdades.

 

Desta forma, o negro pobre, o branco pobre, o amarelo pobre, todos, sem distinção, serão abarcados pelas políticas públicas e o passado revanchista será enterrado de vez, abrindo espaço para um país com um presente e um futuro mais dignos.

 

É isso.              

Zeferino Junior - Servidor Público

  Página Inicial | Comente esta matéria | Imprimir | Painel de Notícias | Topo

Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Zeferino Junior