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O
tema é complexo e apaixonante. O
texto, publicado na semana passada
nesta coluna, gerou uma reação de
um “descendente de escravo”,
segundo se auto-intitulou o leitor
que o comentou. “A igualdade ama o
medíocre”, de minha lavra, causou
esse descontentamento.
Para
muitos, a minha posição é elitista,
afinal não vejo a igualdade como
valor absoluto. Assim, eu estaria
corroborando com a visão dos, como
é mesmo?: colonizadores, elite
branca e senhores de escravo etc.
Esse
discurso – colonizador e
colonizado, elite branca e
descendente de escravo etc. - é
fácil de propalar e de se incutir
nas mentes dos mais incautos. O
difícil é sair do lugar-comum e
começar a demolir as falas de quem
acredita que seremos perseguidos
até o fim dos tempos pela elite dos
descendentes dos senhores de
escravo, pelos remanescentes dos
colonizadores, pelos matadores de
índios.
Como
comentou o leitor(a),
auto-intitulado “descendente de
escravo”, uma filha de deputado tem
mais chances na vida do que uma
filha de uma doméstica porque fomos
vítimas dos colonizadores europeus
e seus descendentes que infligiram
em nós todas às desgraças do mundo.
Ele cita trechos de um livro de
Darcy Ribeiro, que por sinal eu li,
para corroborar sua tese.
Ninguém nega que a colonização
empreendida pelos portugueses
deixou uma nódoa na nossa
sociedade. A nossa elite política é
fruto, sim, dessa conjuntura. O
resultado está aí a torto e a
direito: desigualdades gritantes e
um abismo sem tamanho separando as
classes sociais.
Então o que fazer? Vamos ficar
repetindo esse mantra até o fim dos
tempos ou vamos, a exemplo de
alguns países asiáticos, olhar para
frente e investir na educação e na
tecnologia para criamos um melhor
presente e um futuro melhor?
Alguns países latino-americanos,
mergulhado no passado, governados
por caudilhos, buscam nesse passado
opressor justificativas para a
corrupção, para o personalismo,
para potencializar mais ainda as
desigualdades, enfim, confeccionam
uma série de atos arbitrários para
vender a idéia de que estão fazendo
uma revisão histórica, afastando os
opressores, os matadores de índios,
a elite branca européia. Pura
balela.
E a
igualdade? A igualdade é um valor
formidável, mas não o único que se
deva cultivar numa sociedade
plural. A liberdade e a
fraternidade são do mesmo tope.
Num
Estado democrático de Direito, a
igualdade perante a lei já é um
passo formidável para o avanço da
civilização. Isso garante grandes
conquistas. Assim, o filho do
deputado, por exemplo, tem que se
sujeitar a lei; o filho da
empregada doméstica, também.
Ah!!
diria o “afro-descendente” que me
acusou de ter uma visão elitista
perigosa: “mas ninguém cumpre a
lei. A lei no nosso país é um faz
de conta”! Só serve para os
despossuídos. Talvez. Mas a
solução não é a extinção do Estado
do Direito ou mandar às favas o
ordenamento jurídico. Não. A
solução é o aperfeiçoamento disso.
E é possível, sim. Temos leis que
são cumpridas e favorecem as
classes menos favorecidas,
efetivando uma gama de direitos
delas.
Além
disso, algumas figuras que, até
então, estavam acima da lei começam
a sofrer os rigores dela. Hoje, por
exemplo, governadores são presos e
são cassados. E olhe que são da
elite branca. Um presidente foi
deposto – da elite branca- sem que
houvesse um tiro. O governador da
Paraíba – da elite branca- foi
defenestrado do cargo. De outra
banda, um respeitado membro dos
descendentes de escravos ocupa uma
vaga no STF e muitos outros ocupam
ministérios, reitorias de
universidades, postos altos na
República, enfim.
Falta muito, claro. Os bolsões de
miséria existem em nosso país em
demasia. Muitos que vivem lá são
filhos da escravidão, da miséria e
do caráter patrimonialista desse
país. O desafio dos governantes de
hoje é criar as condições para se
erradique essa chaga social que é a
miséria, inconcebível num país que
é um dos maiores produtores de
comida do mundo.
A
tentativa de revisar o passado sob
uma única ótica, dividindo a
sociedade e acusando a ‘elite
branca’ das mazelas em que vivemos
não é uma solução, ao revés, é mais
um disparate, um engodo. O passado
obscurantista deve ser lembrado
como uma forma de não incorrermos
mais em erros como os de outrora -
e não como trampolim para cometer
mais equívocos.
Não
é com um ranço colonialista, não é
com baba escorrendo no canto da
boca, não é com um discurso
envenenado pelas teses acadêmicas
que vamos ofertar à filha da
empregada doméstica uma educação e
uma saúde dignas.
Quando pudermos oferecer uma
educação pública digna, universal,
muitas diferenças vão continuar
existindo, afinal haverá filhas de
empregadas domésticas que virarão
doutoras porque estudaram; mas
haverá outras filhas de outras
domésticas que tiveram a mesma
chance, mas que continuarão
empregadas domésticas das doutoras
que antes eram empregadas
domésticas.
Isso
vale para qualquer outra profissão.
Só usei o exemplo da doméstica para
reproduzir o que o leitor havia
exemplificado.
“A
igualdade (aquela defendida pelos
“oprimidos”) ama o medíocre” porque
não respeita a meritocracia. Porque
tenta igualar, de forma
atabalhoada, os desiguais,
afrontando assim os pilares
democráticos modernos.
Assim, a história para os que
pensam como o “descendente de
escravo” é uma construção
ininterrupta do passado, que cria
duas classes: os vitimados e os
opressores: uma visão tacanha que
quer colocar de um lado,
ancestralmente, as vítimas; do
outro, os carrascos.
Segundo essa idéia, uma porção de
melanina na pele, dependendo da
quantidade, é suficiente para
inserir o indivíduo na classe dos
vitimados, dono, então, de uma
reparação; melanina a menos, de
outro lado, classifica o indivíduo
em carrasco, ou seja, em culpado
pelos crimes que ele jamais
cometeu. Quem manda ser da “elite
branca”, diria o leitor que me
indagou.
Rever o passado, tentando projetar
nele as noções que temos, hoje, de
justiça é extremamente perigoso.
Antes dos colonizadores chegarem às
Américas, os povos que vivam aqui
escravizavam seus inimigos, quando
os venciam na guerra. Alguns -
podem assistir ao filme
Apocalipse, de Mel Gibson -
sacrificavam seus inimigos num
altar, retirando o coração deles em
vida, para, canibalisticamente,
comerem.
A
escravidão, infelizmente, foi uma
prática corriqueira no curso da
história. Europeus escravizaram
europeus, asiáticos escravizaram
asiáticos, árabes escravizaram
árabes, africanos escravizavam
africanos. Há relatos que, Zumbi, o
do Palmares, tinha seus próprios
escravos.
Por
isso, é a natureza humana que é
sórdida e não o percentual de
melanina a menos na pele, a cobiça
capitalista ou coisa que o valha
que fincam o mal entre nós. As
monstruosidades perpetradas pelos
homens não têm origem na cor da
pele ou em sua etnia.
A
luta justa dos dias atuais, do
presente, é a que propõe evitar
qualquer tipo de escravidão,
permitindo, desta feita, que os
cidadãos de hoje e os de amanhã não
sejam submetidos a essa prática tão
funesta. Isso se combate com menos
passado revanchista e mais presente
e futuro edificantes.
Não
caiamos no engodo de usar o passado
para refundarmos a barbárie e nem
utilizá-lo para cometermos justiças
históricas, submetendo os
indivíduos da elite branca, dos
descendentes dos senhores do
engenho, da elite portuguesa, que
são cidadãos de um país
democrático, a penas perpétuas, que
só servirão para dividir o país e o
torná-lo, olha só!, mais desigual.
A
pobreza não tem cor. O “olhar” do
Estado sobre seus cidadãos deve ser
daltônico. Os descendentes dos
matadores dos índios, o
descendentes dos índios, os dos
senhores de escravos, os dos
próprios escravos merecem ser
tratados sob a ótica da igualdade,
mas uma igualdade que respeita os
desiguais – nas suas
particularidades.
É a
velha máxima republicana que deve
preponderar: tratar igualmente os
iguais e desigualmente os
desiguais, nos limites exatos de
suas desigualdades.
Desta forma, o negro pobre, o
branco pobre, o amarelo pobre,
todos, sem distinção, serão
abarcados pelas políticas públicas
e o passado revanchista será
enterrado de vez, abrindo espaço
para um país com um presente e um
futuro mais dignos.
É
isso.
Zeferino Junior - Servidor Público
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