Havia dito na minha primeira
coluna neste portal que, como no
portalsrn, poderia, volta e meia,
utilizar comentários sobre os
meus textos para debater com os
leitores. O intento não é
meramente desafiador, mas uma
forma que encontrei de oxigenar o
espaço da coluna, não deixando
que ela vire um monólogo insosso.
O diligente e presente leitor
Clarindo deu-me essa oportunidade
ao tecer comentários sobre a
minha última coluna – “O
silêncio, cúmplice, de Lula”.
Peço permissão aos leitores para
dissecar os comentários do Sr.
Clarindo e pontuar com
considerações o que ele
asseverou, enfaticamente, no
painel do leitor.
Reitero que aceito, sobejamente,
as manifestações contrárias ou
não à minha coluna. Aliás, até
estimulo, em nome dos valores
democráticos e dos princípios que
nos são caros num regime plural
como o nosso.
Sem mais delongas, vamos direto
ao assunto. Para ficar
esteticamente melhor, as
afirmações do leitor Clarindo
serão grafadas em vermelho, as
minhas, em preto.
“Patético esse señor Payá!!! Quem
ele pensa que é para acusar o
presidente de um país soberano,
eleito pelo voto popular, de
cumplicidade com crimes cometidos
pelo regime de Cuba??? Patético e
sacana”!
Essas primeiras afirmações não se
sustentam logicamente. Um líder
democraticamente eleito
soberanamente pelo seu povo tem o
dever de defender a democracia,
ou melhor, as democracias, afinal
vivemos numa aldeia global e
qualquer afronta aos princípios
básicos inerentes a um regime
plural e libertário deve ser
repudiada com veemência, pois
atingem, reflexamente, todos que
cultuam as liberdades e os
direitos individuais e
coletivos.
A patetada e a sacanagem do
Senhor Payá, impingidas pelo
leitor à figura do ativista,
restringiram-se a exigir de um
democrata uma manifestação em
favor da... democracia, da
liberdade de expressão, dos
direitos humanos, da
possibilidade de se divergir de
ideologias políticas.
O voto popular, um dos elementos
da democracia - não o único, é
verdade- não blinda o eleito,
tornando-o imune às críticas, ao
revés, abre a possibilidade para
que todos, menos os que promovem
o regime de exceção, possam
apontar as incongruências, as
violações perpetradas contra os
valores que informam o Estado
democrático de Direito.
O regime cubano já executou
dezessete mil pessoas e mais de
oitenta e três mil morreram
tentando sair do país. Merece ou
não uma reprimenda dos que não
compactuam com o terror?
A expressão
“quem ele pensa que é”
não é muito, digamos,
politicamente correta, caro
leitor, afinal soa meio
excludente, rotulando as pessoas
não pelos seus argumentos, mas
pela condição que ocupa na
sociedade.
O mais lógico, aliás, o lógico,
seria que o líder operário, filho
da Dona Lindu, retirante, que
lutou contra a ditadura de
direita, que fez greve de fome,
demonstrasse um mínimo de
sensibilidade e, em nota,
condenasse a prisão de
“criminosos” políticos,
repudiando qualquer violação aos
direitos humanos, em qualquer
lugar do mundo.
“O Movimento Cristão de
Libertação (queira o nobre
colunista ou não!) é um grupo
financiado com verbas
estrangeiras, com o intuito de
fazer oposição ao governo de
Cuba”.
Desde que as verbas estrangeiras
não sejam públicas, não vejo
problema algum. O que não se pode
tolerar é que dinheiro da
coletividade seja desviado em
favor de entidades privadas,
independente de sua ideologia. O
que não pode, a exemplo do que
ocorre com MST (que nem existe
legalmente), é prover de verbas
públicas um ente que promove
depredações e saques. Só para não
deixar brecha, reconheço a luta
empreendida pelos que não possuem
terra. Só acho que os mecanismos
utilizados, hoje, pelo movimento,
ou melhor, pelos seus líderes,
não são razoáveis, extrapolando
assim as balizas que delimitam o
Estado de Direito.
Não sou favorável à tortura e nem
qualquer outra forma de reação
aos opositores de qualquer regime
seja socialista ou capitalista!!!
Torço muito que ocorram mudanças
na "ilha" para um regime mais
aberto, até para que quem queira
saia... É impensável no mundo de
hoje qualquer pessoa, por mais
socialista que seja, defender a
supressão de liberdades!
Nem eu nem você nem os que
apreciam liberdades e valores
podem aceitar passivamente
violações aos direitos humanos. A
sua torcida para as mudanças em
Cuba, infelizmente, não se
realizará enquanto o regime dos
Castros fizer guarida por lá. São
décadas de violações, tortura e
crimes em nome de um socialismo.
Ou alguém pode imaginar
alternância de poder em Cuba,
liberdade de expressão e
pluripartidarismo, sob o comando
dos "Comandantes da Revolução".
Acho difícil.
“É impensável no mundo de hoje
qualquer pessoa, POR MAIS
SOCIALISTA QUE SEJA, defender a
supressão de liberdades”!
Essa sua última afirmação soou
contraditória em face de sua
idéia inicial, acabando por
reforçar o que foi afirmado no
meu texto. vejamos:
Quanto
mais
socialista
mais defensor da supressão de
liberdades?
Se eu sou um socialista moderado
eu devo defender uma supressão de
liberdades moderada (devem ser
suprimidas as liberdades a, b e
c); se eu sou um socialista mais
radical, devo defender mais
supressões de liberdades (devem
ser suprimidas as liberdades, a
b, c, d, e,f, g, h, i, j.....z).
Seria, então, inerente ao
socialista o apego ao regime de
supressão de liberdades?
Só uma conclusão, segundo a sua
lógica: em regimes socialistas ou
há parcial tolhimento de
liberdades ou ausência total
delas. Vide os regimes
socialistas implantados na China
de Mao, na URSS de Stalin, na
Cuba de Fidel, no Camboja de Pol
Pot.
Observação: nesse ponto,
atente-se, eu só usei o seu
raciocínio, queira o nobre leitor
ou não.
Mas, não tenho o direito (e
nenhum estado, governo ou
governante, por mais legítimo que
seja, tem!) de me intrometer em
assuntos de outros países!!!
Quantas vezes ouvimos algum
governante brasileiro criticar a
forma desumana, humilhante,
preconceituosa com o governo
americano trata imigrantes de
origem latina??? Foram todos
cúmplices desse regime
excludente??? ... Patético,
mister Payá!!!
A intromissão em assuntos
“interna corporis” (estritamente
ligado ao país) não deve ser,
realmente, realizada. Alguns
outros assuntos não são de
interesses só dos países, mas de
todo o mundo.
Vou lhe dar um exemplo
esclarecedor. O Irã quer varrer
Israel do mapa. Afirma,
categoricamente, que o holocausto
( o extermínio de mais de 06
milhões de Judeus) não ocorreu.
Atualmente realizou uma eleição
fraudulenta, reconhecida,
diga-se, até mesmo pelos Aiatolás.
Os que se opuseram à fraude, que
se manifestaram nas ruas, estão
sendo presos e torturados. A
política nuclear do Irã caminha
para a bomba atômica. Advinha
onde ele pretende lançar essa
bomba?
Mas, segundo o nosso presidente,
não se deve se meter em assuntos
internos. A propósito, ele
classificou as manifestações dos
iranianos, que redundaram em
mortes e prisões, numa simples
disputa de torcidas de um “FLA-FLU”.
Quer dizer: para fazer chacotas
pode se intrometer, para condenar
violações, não.
Antes de terminar, as críticas
aos governos americanos,
ingleses, escoceses etc. todos
capitalistas, podem ser feitas
livremente nos meios de
comunicação desses países e de
qualquer lugar do mundo. Aliás,
eu mesmo já condenei, num texto,
as violações aos direitos humanos
perpetradas pelos americanos na
prisão de Guantânamo. Ou seja,
todos os países têm problemas com
direitos humanos. A diferença
está em não permitir que vozes se
levantem ou que os culpados por
essas violações sejam punidos com
rigor por um judiciário livre.
Bom, Clarindo e leitores,
perdoem-me pelo tom. Só acho que
discussões desse tipo não podem
ser insossas, despidas de
afirmações mais contundentes.
Reconheço sua opinião e, digo
mais, ela ajudou a todos que se
dispuseram a ler esse portal,
afinal o debate foi travado num
leito democrático, com respeito
aos contendores e ao público.
É isso.