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Sou aficionado pela linguagem, pelo
discurso. As falas são poderosas e
capazes de mudar destinos, incutir
idéias, assombrar e desassombrar
indivíduos.
Quando elas (as falas) são
proferidas por autoridades e
representantes de ideologias,
ganham mais ainda peso e merecem
análises para que se possa extrair
algo além do seu conteúdo
explícito, facilmente verificável
pelo senso-comum.
A
fala, o discurso, que engendrou
esse texto, foi a do nobre deputado
federal Nazareno Fonteles que,
gratuitamente, tem minha simpatia
por seus atributos de franqueza e
retidão, coisa rara, raríssima, de
se encontrar em homens públicos.
Embora o deputado
desperte em mim esse sentimento de
admiração pelos atributos
prefalados, tenho grandes
restrições a alguns discursos que
ele costuma verter em sua atuação
como homem público.
O último que ouvi, que
tratava da sucessão estadual,
causou-me um certo constrangimento.
Achei reducionista e, de certa
forma, atrasado.
Entregar a um “rico” –
JVC- os destinos de um Estado que,
nos últimos anos, foi governado por
um partido ligado aos “pobres” é
uma afirmação distorcida.E os
motivos da distorção são muitos.
Talvez nem caiba nesse reduzido
texto.
Ao afirmar que como
político - e o seu partido o
ensinou isso - estava ao lado dos
pobres, e só deles, o parlamentar
em nada contribui para um debate
democrático. Primeiro porque um
país que pretende ser democrático
abraça a todos. Ricos ou pobres são
cidadãos. A riqueza não é um pecado
original. Demonizar os que detêm
patrimônio não parece ser uma opção
política, mas um traço
obscurantista,
religioso-fudamentalista. Assim
como negar legitimidade a um
empresário bem-sucedido para
governar qualquer que seja o
Estado é de uma pieguice sem
tamanho.
Já que a tentativa do
deputado inclinou-se para o senso
comum, necessário se faz invocar um
adágio popular: “Diga com quem
andas que eu te direi quem és”.
Para chegar ao poder e ajudar os
“pobres” o “Partido dos Pobres”
aliou-se ao bilionário brasileiro
José Alencar e no, Estado, ao
milionário JVC, integrantes dos
“Partidos dos Ricos”. Aliar-se aos
“ricos”, andar de braços dados,
pode. Não é pecado. É só um mal
necessário para chegar ao poder e
ajudar os depauperados?
Afirma também o
deputado que o país só cresceu e
distribuiu renda no governo
petista. Afirmação arrogante e
divorciada da realidade política do
país. Todos nós sabemos que são
dezesseis anos, pelo menos, de
avanço. Foi o Plano Real, a Lei de
Responsabilidade Fiscal, as boas
privatizações e os programas
sociais engendrados pelo governo
FHC que deram uma feição mais
moderna ao país e o preparou para
os avanços. Avanços estes bem
retomados e, talvez, melhor
operados pelo governo Lula.
Concordo - opinião
pessoal - que o Partido dos
Trabalhadores deva ter um candidato
no Estado. Não porque JVC, Wilson
Martins ou Marcelo Castro
representem a elite e, por
consectário, não teriam condições
de fazer um bom governo. Mas por
achar que José Medeiros tem mais
atributos pessoais, aptos a
torná-lo um gestor mais capacitado
do que os outros.
Só acho que esse
discurso fácil, propalado pelo
parlamentar federal, divide a
sociedade, incute preconceitos vis
no subconsciente das pessoas e
acaba não se sustentando de todos
os pontos de vista. Parece-me mais
a retomada bolorenta da divisão de
classes, tão perniciosa quanto
deletéria propugnada pelos teóricos
comunistas.
Os pobres merecem uma
proteção maior do Estado e das
insitiuições, afinal são
hipossuficentes, carecem de
políticas públicas voltadas para
sua inclusão, mormente numa
sociedade como a nossa,
marcadamente patrimonialista. Mas
tentar dividir a sociedade entre
ricos e pobres, clamando pela
salvação destes e esconjuração
daqueles parece-me pouco produtivo.
Por isso refuto como
cidadão esse discurso. E faço, por
meio desse texto, essa admoestação
ao Deputado Federal Nazareno, em
que pese a admiração que tenho
pelas suas posturas retas e francas
com as quais sempre pautou a sua
atividade pública.
Zeferino Junior - Servidor Público
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