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Há
textos, para quem escreve
regularmente, que você diz: “esse
eu queria ter escrito”.
Nunca me arrisquei a rascunhar nada
sobre o espetáculo deprimente que
pauta o mundo da moda e nos força a
reconhecer estilo e beleza em
modelos encarceradas pela ditadura
da magreza.
Não
acompanho as “obras” dos
estilistas, principalmente daqueles
mais estilizados, perdoem-me o
truísmo. Não dou conta nem dos meus
assuntos favoritos, quanto mais dos
que não me apetecem.
Sempre que vejo aquela “arrumação”,
como diz o bom piauiense quando se
depara com uma “marmota” (outra
expressão típica piauiense),
sobe-me à boca uma “ânsia análoga a
ânsia que escapa da boca de um
cardíaco”, conforme se expressou o
bom paraibano Augusto dos Anjos, em
sua “Psicologia de um Vencido”.
Aquelas mulheres seriíssimas,
aborrecidas, mal-humoradas, às
vezes com uns óculos maiores do que
o rosto, caminhando “pé-sobre-pé”,
quase em desabalada carreira,
ostentando um corpo em processo de
desaparecimento, despertam-me
piedade.
João
Pereira Coutinho, articulista da
Folha de São Paulo, vazou num texto
formidável o que eu havia sentido
de há muito, mas não materializei
nas minhas “crônicas” superficiais
do cotidiano.
Ele,
mais ligeiro e capaz, foi no ponto:
“Espetáculo
admirável:...dizer que as modelos
são magras é, se me permitem, um
eufemismo. Magro sou eu. As modelos
são esqueletos mórbidos com a pele
dramaticamente colada aos ossos. Só
faltam as moscas a rodear estes
cadáveres adiados. Ou os abutres”
O nobre articulista
deu um sugestivo nome ao seu texto:
“Homens que não gostam de
mulheres”. E mandou ver: “Basta
regressar à foto e perguntar, com
honestidade possível, se existe
algum homem na Terra que sinta
genuína atração por mulheres que
são espectros de mulheres.”
Encerra
com maestria o que começou com
extrema destreza: “Qualquer homem
que goste de mulheres, confrontado
com estas mulheres, não sente a
vontade inevitável de as despir.
Pelo contrário: sente o pudor
paternalista e humanitário de as
vestir. De as nutrir. E, em certos
casos, de mandar chamar o
cangalheiro. O que existe é um meio
dominado por agências ou criadores
que não gostam de mulheres... que
desfiguram e ridicularizam as
mulheres porque abominam nelas tudo
aquilo que é deliciosamente sensual
e feminino”
Era
dessa forma que queria escrever.
Faltaram-me os dotes necessários.
Coutinho veio ao meu socorro.
Zeferino Junior - Servidor Público
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