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Nós, palpiteiros de plantão, que
escrevemos sobre tudo – política,
meio ambiente, futricas palacianas,
ética etc. - não podemos nos furtar
de escrevinhar sobre tragédias,
ainda mais quando elas são de
proporções épicas. Escrever sobre
elas expiam os pecados
momentaneamente.
Na filosofia antiga,
desde os estóicos, a pedra-de-toque
do pensamento dominante era de que
a natureza era harmônica e justa.
Por isso, agir de acordo com ela
era a forma de se integrar.
Seríamos, então, uma parte do
cosmo, um átomo, jungido ao todo,
afastando-se, assim, do caos. Dessa
forma, ser justo, por exemplo, era
agir em consonância com a ordem
natural.
A posteriori, com a
filosofia moderna, a idéia de
justeza e harmonia afastou-se da
“ordem natural”. A natureza, na
verdade, era hostil e precisava ser
“domada” pelos experimentos
científicos, frutos do racionalismo
e da razão. O homem passou a ser o
centro de tudo.
A hecatombe que
devastou o pobre Haiti tocou-me
profundamente e me fez rememorar as
lições acima expendidas. Uma
leitura ligeira pelo pensamento
filosófico para tentar entender a
ordem das coisas.
Pensando bem, teorias e
proposições filosóficas não têm o
condão de explicar a morte em série
de seres humanos. Não há explicação
plausível. O flagelo humano em
proporções dantescas está acima da
compreensão humana.
A aflição de observar
seres humanos errando sobre
escombros, enquanto seus pares
perecem, é inenarrável. Não
comporta descrições.
As imagens veiculadas
pelas TVs são chocantes. Um povo
que já não tinha as condições
básicas de sobrevivência, agora
sofre uma espécie de golpe final
nas suas pequeninas esperanças de
uma vida melhor.
Das poucas boas lições
que se pode tirar dessa tragédia, a
mobilização mundial para criar as
condições para ajudar os pobres
haitianos é a única coisa que nos
conforta, embora saibamos que a
reconstrução daquele diminuto país
é uma empreitada das mais difíceis.
Muitas tragédias virão.
Terremotos devastarão cidades.
Tsunamis engolirão lugares.
Furacões varrerão tudo que aparecer
pela frente. O ser humano, como uma
presa acuada, será a vítima
primeira dos desvarios da natureza.
Não resta muita coisa a
fazer. Sobrará só a disposição para
enterrar os mortos em valas comuns,
juntar os cacos do que sobrará das
construções e, para os religiosos
que resistirem, agradecer por estar
vivo e “desculpar” a fúria dos
deuses.
A existência humana, a
cada evento deste porte, afigura-se
ainda menor. Não passa de um
pequeno fragmento solto,
desprotegido e sujeito às
intempéries devastadoras, capazes
de materializar aquela passagem
bíblica: “do pó viemos, para o pó
voltaremos”.
O
Haiti é uma lição funesta e
clarividente de nossa pequenez.
Zeferino Junior - Servidor Público
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