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Grande Caros
leitores, estou de férias, como já
havia comentado com vocês. Mas deu
vontade de rascunhar alguma coisa e
acabei produzindo o texto que vai
abaixo. Tornou-se oportuno o
rascunho ora redigido, uma vez que
houve mudanças no governo local e é
hora de comentários. O texto serve
a esse propósito. Volto,
regularmente, em fevereiro.

Um fio de ouro,
1885 – As Parcas
(Cloto,
Láquesis, Átropos)
tecendo os fios da vida.
Herculano: Átropos!?
Um
ano de governo. Tempo para reflexão
e análises. Tempo para deitar os
olhos sobre o que aconteceu nos
primeiros trezentos e sessenta e
cinco dias do governo petista em
São Raimundo Nonato.
A
análise do atual governo, que veio
cheio de boas expectativas e que
prometeu melhores dias ao povo de
São Raimundo, deve ser enfocada em
diversos pontos.
Não
é novidade que a realidade, no
setor público, costuma atropelar as
boas intenções. Sabemos que o
dia-a-dia da administração pública
é acachapante e que, como uma
espécie de moagem de cana, tritura
idéias e despedaça sonhos.
As
questões orçamentárias, oscilantes
por natureza, não permitem grandes
estripulias. O FPM em um mês é
rechonchudo; no outro é esquálido.
A economia mundial e suas
oscilações, de que todos os países
são esquizofrenicamente
dependentes, acaba trazendo
incertezas diuturnas a todos,
mormente aos gestores públicos.
Entendo que, por falta de
convivência no dia-a-dia, não posso
emitir nenhum juízo de valor sobre
o cotidiano da cidade - iluminação,
limpeza, ordenamento do trânsito,
enfim. Cabe aos moradores essa
análise. As reclamações são muitas
e sempre existirão. Até mesmo em
Teresina, cidade governada por um
prefeito com mais de 80% de
aprovação, os reclamos são
constantes.
O
que eu pretendo tratar aqui, no
entanto, é da dificuldade dos laços
políticos da atual gestão. O
diálogo que deveria estar sendo
travado entre o governo e os
grupos, o governo e a população.
É
do conhecimento de todos que
governar é, acima de tudo,
dialogar. Um bom diálogo abre
caminhos e encontra soluções para
os problemas considerados
insolúveis.
Parece ser, sem dúvida, o grande
problema do governo. O colunista
Alexandre Rocha, no seu último
texto, tratou bem sobre isso. In
loco, pois o mesmo visitou a cidade
recentemente, percebeu a
dificuldade e vazou em seu texto,
muito bem escrito, diga-se, a
necessidade de um aperfeiçoamento
nesse quesito.
Um
passo gigante foi dado pelo gestor
nessa virada de ano. Vai ser
colunista do Portalsrn. É uma
atitude louvável. Assim, poderá,
semanalmente, debater, colocar suas
idéias e interagir com a população
como nunca antes nesta cidade. Um
espaço formidável que, bem
administrado, pode render belos
frutos no que tange à proximidade
entre ele a população.
Com
relação aos laços com as
lideranças, os grupos e os
partidos, a situação não é nada
boa. A começar pelo partido em que
o prefeito está filiado.
Hostis, um ao outro, o PT de São
Raimundo e o Padre não costumam
falar a mesma língua. Aqui há
culpas recíprocas. O PT municipal é
frágil. Incapaz de fomentar boas
discussões, o Partido dos
Trabalhadores local acaba se
reduzindo a grupelhos que brigam
por espaço sem, no entanto, avançar
um milímetro em questões maiores.
Mas, embora ostente essa
fragilidade, deveria estar próximo
de um governo comandado por um dos
seus filiados. Até porque os outros
partidos – PSB, PCDOB, PDT, PMDB
etc – não são capazes, também, de
conduzir boas discussões, ao
contrário.
O
gestor atual também se furta ao
debate, é preciso que se diga.
Deveria estar mais aberto e pronto
a resolver, pessoalmente, arestas
que, porventura, surjam na relação
entre ele e os grupos. Essa
relutância com o PT não é de hoje.
O PT costuma apontar que o nosso
gestor morre de amores é pelo PSB,
partido que ele ajudou a fundar em
São Raimundo. E, por isso, não se
importa com o fortalecimento do
partido do qual é filiado.
Essa discussão estéril
prejudica os dois: o PT, por não
conseguir ganhar projeção, nem
mesmo num espaço governado por um
dos seus; o prefeito, por não poder
contar, no meio municipal, com uma
legenda que, quer queira quer não,
é um partido que teve dois
vereadores - Laércio e Ronaldo –
com uma votação nada desprezível.
O
prefeito já provou, nas últimas
eleições, que é um grande maestro
das massas populares. Com sua
oratória, com sua capacidade
impressionante e, às vezes,
hipinotizante, de guiar multidões,
o nosso gestor diferencia-se.
Acredito que não houve, ainda, na
política sãoraimundense quem o
superasse nesse quesito.
O
grande sociólogo Max Webber já
tratou bem disso com suas teorias
sobre o “Líder Carismático”. Vou
deixar para o nosso cientista
político, Alexandre, pincelar sobre
essa obra. É mais a “praia” dele.
Aqui fica o registro como forma de
tentar entender a figura política
do nosso prefeito.
No
dia-a-dia, no entanto, acaba
passando a idéia de taciturno,
casmurro, só para usar duas
expressões cunhadas pelo genial
Machado de Assis. Ou seja, não se
abre e dificulta a aproximação de
muitos que poderiam contribuir com
ele.
No Direito,
há uma expressão clássica, que
costuma ser usada costumeiramente:
“quem pode
o mais, pode o menos”.
Traduzindo
para o nosso caso:
quem pode
conduzir multidões, pode conduzir
indivíduos.
Não é mesmo!! Se eu posso vocalizar
mensagens a milhares de pessoas com
proficiência, posso, com menor
esforço, incutir idéias num pequeno
grupo.
Por
isso, às vezes, não consigo
entender a dificuldade do prefeito
em se relacionar com os grupos.
Tenho certeza que se ele abrisse o
diálogo, chamando pra si a
responsabilidade das conversas,
sempre pronto a compreender as
dificuldades de cada agremiação,
certamente teríamos grandes
avanços.
Ressalte-se que esse tipo de ação
não deve ser delegada a ninguém. É
intransferível. Não cabe “a” ou “b”
legitimar-se a falar em nome do
gestor. Ele, com sua capacidade de
diálogo, deve assumir a dianteira
das conversas sem mais demora.
O
ano entra com esse desafio para o
prefeito. Os laços devem ser
refeitos, apertados, sob pena de
comprometer um projeto duradouro de
reconstrução da cidade. Não é coisa
do outro mundo. E, para falar a
verdade, é uma forma saudável e
agradável de reconstruir amizades e
amainar as agruras que costumam
acometer o dia-a-dia de uma
administração.
Aqui
prefeito, só para nós, sem alarde,
quer dar continuidade a um projeto
político-administrativo longevo?:
Dê prioridade, também, a pequenas
obras estruturantes – calçamento,
iluminação, higiene, embelezamento
- reforce o diálogo com a
população, com visitas periódicas
às obras, ao comércio local, aos
líderes comunitários, aos bairros
mais pobres, valorize o servidor
público com ações que levantem a
auto-estima, converse tête-à-tête
com os líderes de todos os
partidos, sejam eles de quaisquer
agremiações, seja aberto às
críticas, entendendo-as como uma
forma de complemento, como já dizia
Dom Hélder Câmara, ande a pé pela
cidade para que todos percebam uma
proximidade umbilical entre o
senhor e os problemas que
importunam o povo.
Garanto-lhe, caro prefeito, que com
essas pequenas ações os fantasmas
políticos do passado que nos
assombraram por tanto tempo não nos
perturbarão tão cedo. Ficarão
relegados a uma espécie de limbo,
digno das almas atormentadas que
arrastam correntes e que vivem
conectadas com o mundo dos vivos
apenas por um tênue fio de um
novelo que precisa ser desenrolado
e, ao fim, cortado.
Na mitologia
grega há a figura das três Parcas
(seres mitológicos que conduzem
nosso destino por meio de fios)
Elas não param de fiar, dia e
noite.
Cloto,
faz girar o fio do destino dos
homens, tecendo os dias;
Láquesis,
puxa e enrola o fio tecido,
calculando o seu cumprimento e
determinando o nosso destino;
Átropos, implacável, corta o fio da
vida, determinando a partida, o
fim.
Mais
do que administrar e reestruturar a
cidade, o povo de São Raimundo
sonha com o fim de uma era. Quer
uma cidade melhor, evidente, mas
quer, também, que como Átropos, o
atual gestor, por meio de ações
políticas e administrativas,
“corte” de vez o fio que sustenta,
ainda, um passado que insiste em se
dependurar na esperança do
renascimento, renascimento este que
representará a morte de todas as
expectativas de uma cidade melhor.
Zeferino Junior - Servidor Público
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