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Não
costumo fugir do debate. Quem
acompanha a coluna desde o início
sabe disso. Sempre me envolvi nas
refregas, nas contendas e nos
embates que aqui se travaram
durante esse longo tempo que
escrevo neste portal.
O tema é polêmico? Lá estou eu
emitindo minha opinião. Quando não
vem a polêmica eu mesmo a crio com
alguns temas que resolvo abordar.
Mas tudo, ressalte-se, com algum
nível de civilidade. Os meus
“ataques e golpes” são todos acima
da linha da cintura. Eu prefiro
assim. E meus poucos leitores,
acredito eu, também.
As provocações sempre existem. Vem
um “cara-pálida”, por exemplo, no
mural do leitor com o intento de me
ofender e escreve: “e
aí lorde-democrata não vai dizer
nada sobre a atitude do prefeito em
processar o portal”.
Chego até visualizar o momento em
que ele tirou as quatro patas do
chão e teclou.
A ironia é ruim. Lorde, segundo o
Aurélio, quer dizer:
“Homem que
vive com ostentação; título
honorífico inglês".
Democrata,
alguém que
acredita num regime em que os
princípios e as liberdades
individuais são inegociáveis.
Se queria me ironizar, perdeu a piada.
Lorde eu não sou, mas democrata
pode apostar que sou. E dos bons.
Tanto é que ainda pego a suposta
ironia e a utilizo como mote para o
texto da semana.
Mas, voltando ao tema principal, vou tecer
algumas considerações. E adianto
que não concordo com a atitude do
prefeito ou de qualquer outro
governo que resolva processar meios
de comunicação sem antes esgotar
todas as possibilidades de diálogo.
Uma ressalva antes de prosseguir com o
texto. A Imprensa não é livre para
ofender ou caluniar ninguém. Deve
ser responsável. A honra e a
integridade das pessoas precisam
ser preservadas e, jamais, podem
ser alvo de ataques inverídicos ou
calúnias.
As matérias veiculadas neste portal que deram
ensejo às ações judiciais,
parece-me que não extrapolavam esse
limite, embora tenham exposto,
segundo o autor da ação, imagens
que não correspondiam com os
fatos.
Só acho, no entanto, que há um meio muito mais
eficaz e polido para confrontar as
informações. E esse meio, tenho
certeza, estava ao alcance do autor
da ação. Era só pedir o direito de
resposta e, numa longa nota,
colocar as razões que entendiam
necessárias para elucidar os
fatos. Caso não atendido, aí sim
caberia uma ação judicial com todas
as repercussões legais.
Ao invés de uma truculência judicial, teríamos um
baita de uma reportagem sobre os
avanços da cidade. Fotos seriam
expostas com um bom texto ao lado e
o que parecia uma nota contra os
atos do governo, na verdade, seria
uma oportunidade única para
mostrar, por exemplo, que o
envelopamento do lixão está sendo
um sucesso. Enfim. Por falta de
sensibilidade perdem-se grandes
oportunidades.
Particularmente, concluo, de antemão, sem entrar
no mérito do pedido da prefeitura,
que o ato foi desproporcional,
irrazoável e que, do ponto de vista
político, um desastre. Eu, como
assessor jurídico, não orientaria a
proceder assim; como assessor
político então....nem se fala.
É preciso levar em conta uma porção de coisas
antes de tomar uma atitude como
essa. Esse portal, na campanha, foi
fundamental para o atual prefeito
chegar aonde chegou. Ainda que não
fosse declaradamente eleitor dele,
mas abrigou textos meus, do
Alexandre Rocha e muitos
comentários de leitores anônimos
que não concordavam com a nefasta
gestão anterior.
Não se pode esquecer os fatos, os acontecimentos
e as pessoas que contribuíram
sobremaneira para que o grupo
anterior fosse apeado do poder.
Na verdade, eu acho que falta ao governo atual
malícia e jogo de cintura e uma
boa dose de política, no sentido
astuto da palavra. Na política,
“apanha-se” sorrindo. E o
“contra-ataque” deve ser na medida
exata. É do jogo. Sem isso, as
disputas se embrutecem e só quem
perde é o governo de então.
A luta de boxe
pode servir como uma metáfora para
essa situação. O indício da derrota
do boxeador dá sinais quando ele
começa a ter raiva do adversário.
Com raiva, ele perde a concentração
e a frieza. Resultado: tenta
arrancar, com uma mordida, a orelha
do adversário, como fez o Tyson.
O Nocaute vem logo em seguida. Ou por um golpe
certeiro do adversário ou pela
desclassificação por ter infringido
as regras decorosas do jogo.
Note-se, também, que os espectadores quando
assistem a um confronto em que se
digladiam um time de futebol mais
forte do que o outro, geralmente se
torce pelo mais fraco. Temos certa
predileção por aqueles que estão em
desvantagem. Uma espécie de senso
de justiça e piedade nos invade e,
então, torcemos para “Davi” e não
para o “Golias”.
A prefeitura, neste caso, é o poder encarnado, é
a força, é o Leviatã – o monstro
que materializa o ente político. O
portal, ao revés, é um meio de
comunicação conduzido por uma única
pessoa. Respondam rápido, para quem
torceríamos?
A Democracia tem seu preço. Um deles é uma
imprensa livre que, muitas vezes,
extrapola do seu dever de informar
e acaba atingindo um ou outro. Isso
é fato. Mas o mesmo regime que
permite essa liberdade, às vezes
acima da medida, oferece o
contraponto e os mecanismos aptos a
contrastar e até mesmo a revidar.
Ninguém sai impune.
É preciso fechar o
raciocínio com uma constatação.
O presidente americano Obama, recentemente,
citou uma frase antiga de outro
presidente americano, que define
bem o que eu penso. E ela deve
servir de reflexão para todos,
principalmente para os que foram
alçados à condição de homem
público:
“Prefiro
jornais sem um governo a governos
sem jornais”.
Ou seja, a imprensa, com todos os
seus pecados, que não são poucos,
deve ser encarada como um elemento
necessário no jogo político. Não
acima do bem e do mal, evidente.
Mas um componente fundamental para
o amadurecimento da democracia.
Por isso, discordo da
atitude da atual gestão. Pecou em
diversos aspectos, principalmente
no político.
Ninguém ver com bons olhos algumas
atitudes, ainda que legítimas,
afinal exercer o poder não deixa de
ser, na sua essência, uma
demonstração de arrogância.
É preferível encarar o poder como um estágio e
não como uma morada. Assim teremos
claro o papel de cada um no
processo democrático. As
instituições permanecerão. Os
homens que as criam perecerão.
Nada mais saudável do que
perceber isso, nada mais salutar do
que propagar essa máxima.
É isso.
Zeferino Junior - Servidor Público |