|
Foto: Joaquim Neto |
|
 |
|
| Seu
Petronílio e Dona Bila em sua
casa (S.R.Nonato) |
|
O
acesso é de chão batido e de cor
pardacenta. Em volta, carrapichos e
“unhas-de-gato”. A visão que se
apresenta após uma breve viagem do
centro de São Raimundo Nonato à
localidade Baixão da Guiomar, na
periferia da cidade, é o retrato do
“Brasil Real”, em oposição ao
“Brasil oficial”.
Quando os casebres se entremostram
pelas frestas deixadas pela
vegetação esturricada, com suas
portas e janelas, empenadas pela
ação do tempo, percebe-se uma
correria geral. Crianças saltam dos
escaninhos da vila e, com sorrisos
reveladores, apresentam-se com
olhares desconfiados e assustados
aos visitantes.
Logo, logo, o patriarca é
comunicado que há gente nova na
redondeza. De uma casa mais
afastada e não menos simples, a
figura alta e esguia se assoma à
porta de sua residência, e, em
marcha serpenteada, desloca-se, com
vagar, em direção a mim.
Só o
sorriso estampado no rosto quebra o
ar compenetrado do ambiente. Os
dentes, que um dia completavam o
sorriso, já não existem mais; a
pele, marcada pelo tempo, não
esconde os enfretamentos; as
roupas, que quase não mais se
seguram, esganadas por um cinto
improvisado, cobrem o corpo
franzino, mas hígido, do
ex-combatente; o chapéu “coroa” e
empresta o ar do personagem, que um
dia – embora pertencente ao Brasil
Real – reforçou as fileiras do
Brasil Oficial, liderado pelas
forças do governo ditatorial de
então.
Embora com a vista anuviada,
decorrente de uma catarata, seu
Petronílio nos saúda com alegria,
depois que seu neto – Edmilson -
informa que é o Júnior, filho da
“cumade Zi”, que veio visitá-lo
para conhecer um pouco da história
do nosso povo.
As
cadeiras de macarrão surrado são
oferecidas. Pergunto, inicialmente,
sobre a idade e a saúde. Sem
titubear, o personagem aponta com
firmeza: “noventa e três anos”.
Queixas: nenhuma. Aliás, apenas
uma: não poder mais, em razão da
idade, cavalgar e atirar de rifle,
combatendo os “insurgentes” que um
dia queriam “acabar com o mundo”.
E, a
partir daí, com o fogo crepitando
dos olhos, conta os detalhes da
batalha sangrenta que enfrentou na
década de 1937, ao lado das tropas
do governo para conter a ânsia dos
revoltosos de um movimento cunhado
de Pau-de-Colher.
O
sobrevivente do “Movimento
Pau-de-Colher’ ou “Guerra dos
Caceteiros” – “guerrilha ocorrida
nas cercanias de São Raimundo
Nonato, conta saudosamente sobre os
acontecimentos dessa batalha que
ceifou vidas e que não é contada
nos livros de nossa história.
Com
uma memória privilegiada, o
ex-combatente relata os fatos
minundentemente. Os dias na mata, a
fome, o sofrimento, a sede e os
embates ocorridos dias após dias,
são relatados com vigor e regozijo,
dignos de quem se sente órfão de um
tempo que, segundo ele, era bom.
Entre risadas e compenetramento,
Seu Petronílio ajuda a atravessar o
fim da tarde e prenunciar a noite.
Suas histórias, contadas a vários
visitantes, são repetidas como se
fossem inéditas. E ele não cansa de
contar peripécias que o tornaram um
lendário morador da vila.
Dona
“Bila”, companheira inseparável de
décadas, ajudava, volta e meia, a
lembrar de um ou outro fato. Sem
interrompê-lo, só se manifestando
nos momentos de cansaço do velho
guerreiro, dizia, ao contrário
dele, que a vida, hoje, é melhor.
E, com galhardia, aponta para o
aparelho celular recém recebido,
como presente, de sua filha que
mora na capital do “Brasil
oficial”.
Quando a escuridão já tomava conta
do lugar, pois as poucas luzes não
conseguiam arrefecê-la, resolvi
partir.
Seu
Petronílio, convicto de sua
importância, estendeu sua mão
calejada e desejou-me boa sorte,
contando, no entanto, com minha
volta algum dia para detalhar-me
mais sobre os causos que
conformaram aquele acontecimento
belicoso.
Ao
me afastar, deixei para trás um
pedaço bem-contado da história de
enfrentamento entre os brasis,
convicto de que o produto dessa
peleja só agigantou mais ainda o
fosso que separa as elites do povo,
e que os brasis, que um dia se
encontraram num campo de batalha,
agora se escondem um do outro,
fartos e refratários, prometendo a
não se reencontrarem tão cedo, a
não ser, novamente, num campo de
batalha.
Caso
acontecesse esse “reencontro”
improvável, acredito eu que esse
campo de batalha, estaria, de novo,
“coalhado de petonílios”.
Zeferino Junior - Servidor Público |