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   Com Zeferino Junior      

 

Entrementes, entre mentes, entre mim e ti. Entretanto, entre tantos, no entanto.......

Caros leitores-internautas, "ocuparei" este espaço pra falar e "provocar" vocês sobre política, cultura e direito.

 

 
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 Democracia: ora rosa, ora repolho

z_junior@bol.com.br


                   

Para: Zeferino Junior

Zeferino, leio sempre seus artigos,os quais enriquece muito meu ponto de vista sobre a política e me faz refletir sobre os meus direitos e deveres como cidadã, eleitora. Gostaria muito que vc desse seu ponto de vista sobre democracia, até que ponto ela é realmente a voz rouca e frágil do povo brasileiro? pois me pergunto se vale apena agora ter título de eleitor

 Enviada por: Emiliana
 Cidade: Cornonel Jose Dias

 

 

“O idealista percebe que uma rosa é mais cheirosa do que um repolho e logo conclui que ela é também mais nutritiva”.

 

Emiliana, essa afirmação é de um jornalista americano. Trouxe para o texto da semana com o intuito de atender o seu pedido, qual seja falar um pouco do regime democrático e da sua (des) ilusão com “ele”.

 

E que diabos têm a ver rosa cheirosa, repolho e nutrientes com um regime que se diz libertário e apto a nos trazer o “melhor dos mundos”?

 

A idéia, Emiliana, é apontar pra você um aspecto interessante que deve ser levado em conta quando nos deparamos com a Democracia, seus benefícios e entraves.

 

Já afirmaram, com propriedade, que é o pior dos regimes, salvo todos os outros. Ou seja, entre a ditadura ou qualquer outro regime que se proponha, a democracia é, de longe, a melhor das conquistas.

 

Veja bem. O que às vezes nos acomete é uma sensação ruim de que o regime democrático não parece ser tão generoso assim, como apregoam por aí. E, a bem da verdade, tem seu lado cruel.

 

O problema é que muitas vezes somos idealistas demais. O idealismo costuma embotar a realidade. Realmente, a nossa democracia precisa de reparos, que não são poucos, mas os reparos não caem do céu. Precisam ser construídos paulatinamente.  

 

O idealista pensa que é possível viver num mundo próximo da perfeição; que a política pode engendrar um mundo melhor, sem as disparidades, sem as desigualdades. Por isso, cheira a rosa perfumada e lhe “empresta” nutrientes. O repolho, sem cheiro, é desprezado, embora seja o verdadeiro detentor dos nutrientes.

 

Quem acompanha política e se debruça sobre ela, sabe que as instituições humanas são falhas e que qualquer tentativa de aperfeiçoá-las demanda tempo, consciência e um esforço sobre-humano. E ainda assim, ao final, elas ainda terão imperfeições. 

 

A Democracia é isso. É uma construção. Pouco a pouco vamos construindo-a, numa lentidão que desanima e nos enche de interrogações, como a que você externou no seu pedagógico comentário postado no portal.

 

O voto é só uma das manifestações da democracia. Um dos mais importantes é verdade, mas é só um elemento. A Democracia, em verdade, é uma soma de elementos. É a vontade da maioria, mas com respeito às minorias; é um Estado de Direito com limitações legislativas; é a independência entre os poderes, com equilíbrio entre um e outro.

 

Parece sedutor, cara leitora, achar que a vontade do povo deve ser respeitada sempre, afinal é ele o detentor da soberania. É preciso ter cuidado com isso. Às vezes, é preciso proteger o povo dele mesmo. Explico.

 

Imagine a seguinte proposição: o Congresso Nacional resolve convocar um plebiscito com a seguinte questão: não é permitido aos homossexuais e aos negros trocarem carícias em público.

 

Vamos supor que aprove essa questão. Formalmente, está tudo dentro da lei. A Constituição prevê a figura do plebiscito, o Congresso Nacional tem competência para convocar referendos e plebiscitos e o povo, soberano, é legitimado, pode se manifestar.

 

O exemplo é esdrúxulo, de propósito. Tire essa questão e coloque outras: o fim do Senado, o Aborto, a Pena de Morte, o fim da Câmara, enfim.

 

Perceba o quão é perigoso deixar ao talante do povo questões importantes da vida nacional. É preciso frear o ímpeto de todos nós. Claro que dá vontade de “chutar o pau da barraca”, afinal está tudo tão bagunçado e não vemos uma luz no fim do túnel. Mas é preciso cautela.

 

Sabe por que a proposição acima – proibir homossexuais e negros de trocar carícias em local público –, e outras do mesmo naipe, jamais poderão ser levadas para o povo decidir? Porque há um princípio que é maior do que qualquer regramento, que qualquer lei, e que está acima das questões formais da legalidade, sendo a base da civilização ocidental: a dignidade humana.

 

O exemplo de Coronel José Dias é interessante no que diz respeito às questões levantadas. Acompanho de perto o drama que a cidade está vivendo. Não tenho competência – leia-se: propriedade – para apontar se este gestor é melhor do que aquele. Acho que vocês que estão perto e as pessoas que, mesmo longe, conhecem a realidade daí podem apontar quem é melhor ou pior. Eu me interesso pela situação porque a cidade de Coronel é “filha” de São Raimundo e conheço muita gente que lá vive.

 

O fato de a justiça ter decidido pela saída do atual gestor e o ingresso do segundo colocado no seu lugar não representa um ato atentatório à Democracia? Afinal, o povo não escolheu legitimamente o seu representante?

 

A manifestação do Judiciário foi democrática porque se deu nos limites estabelecidos pelo Legislativo, por meio de seus representantes também eleitos pelo povo. Neste contexto há previsão legal para o Judiciário, caso entenda que há provas robustas, “deslegitimar” o pretenso candidato que supostamente cometeu ilícitos. Os juízes do caso entenderam que o atual prefeito não reunia as condições legais para conduzir os destinos dos Coronelinos, pois cometeu irregularidades.

 

Foi justa, a decisão? Não sei. A imperfeição, como foi dito acima, faz parte de nossas criações e manifestações, infelizmente ou felizmente, sei lá. O importante é identificar que não houve, no caso concreto, nenhuma ofensa, em tese, à dignidade da pessoa humana ou qualquer outro ato atentatório aos princípios cardeais da Constituição. 

 

 Pense um pouco comigo. Antes, os políticos fraudavam a vontade popular, corrompiam e nada acontecia. Tudo era abafado. Hoje, apesar das distorções, há uma barreira levantada pelo Judiciário que não permite tanta devassidão. Dificilmente alguém é afastado do cargo sem que haja um catatau de provas. Não sei se foi o caso de Coronel José Dias. É possível que num ou noutro caso haja injustiça, mas a regra é que se afaste somente os que corrompem e são corrompidos.

 

Asseguro, no entanto, que se houver uma vigilância cidadã todo e qualquer gestor que assumir a prefeitura, seja ela de Coronel ou de qualquer outro município, terá sérios problemas com o Judiciário e os órgãos de controle de contas, podendo, dessa forma, ser responsabilizado e, até, despojado do poder. Isso é um avanço democrático, embora tímido. Ou seja, o gestor que vai assumir os destinos da cidade, caso cometa irregularidades, vai ser apeado do poder.

 

Todo esse arrazoado, cara Emiliana, é só uma tentativa de lhe dizer que, apesar dos pesares, a Democracia é o que de melhor o gênio humano inventou. E o bom é que nós, os cidadãos comuns, podemos ajudar a aperfeiçoar o sistema, mesmo que de forma tímida.

 

Uma dica: aprenda a ser um pouco mais pragmática, menos idealista, sem esquecer, é claro, princípios como a moralidade, a probidade e o senso de coletividade. Aprenda a cheirar “a rosa”, sorver seu perfume, mas não tateá-la demais, afinal ela tem espinhos pontiagudos; em contrapartida, aprenda a contemplar o ‘ repolho’, olhá-lo com parcimônia e consideração, sempre atenta ao seu grandioso poder nutritivo.

 

A Democracia é assim: um pouco rosa, um pouco repolho.

 

 Por isso é necessário perceber que há momentos em que, embora algumas manifestações democráticas não exalem o aroma libertário, devem ser compreendidas como nutritivas e visionárias.   

 

É isso.

Zeferino Júnior – Servidor Público

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