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Um corpo esquálido, “bronzeado”
pelos intrépidos raios do sol de
nossa capital, vestido numa calça
rota, vagava, até um dia desses,
pelas avenidas da cidade.
O
seu sorriso amalucado, que tomava
sua face sulcada pela fome, já não
faz parte de uma paisagem à qual me
acostumei nos últimos dias.
Descalço e desvalido, o ser que
“sujava” a paisagem da planejada
capital foi recolhido. Confinado em
algum manicômio ou porão, o homem
sem nome, sem teto, sem camisa,
deve estar a errar pelos corredores
de algum “hospital” ou “casa de
loucos”.
Lembrei, de imediato, de “O bicho”
de Manuel Bandeira. A diferença é
que ele nunca comia e não habitava
os monturos que serviam de
banquetes para o “farto” e nefasto
ritual de alimentação pútrida,
promovido pelo “bicho-homem” de
Bandeira.
Parecia imune à fome e à sede. Nem
mesmo a quentura do chão era capaz
de afastar os seus pés rachados do
asfalto em chamas.
Ele
ria sempre. Aquele misto de riso e
melancolia parecia invadir-me como
um punhal afiado. Mais afiada,
ainda, e ferina era a indiferença
dos que passavam sempre por ele.
Como se já fizesse parte da
paisagem, o esmolento já não
assustava mais: incorporou-se em
definitivo ao caos urbano.
Os
vidros levantados dos carros já não
era mais para se proteger “dele”.
Não oferecia mais riscos. Era só um
incômodo que atrapalhava o olhar de
quem fitava outras paisagens.
Não
senti falta dele, é verdade. Senti
um certo alívio por não vê-lo mais
na contramão, atrapalhando o
trânsito e incomodando meu
universo. As flores recém plantada
na Frei Serafim já podem ser vistas
na sua inteireza.
Aquele rosto aflito, assemelhado à
imagem pintada em “O Grito”, famoso
quadro expressionista do norueguês
Edward Munch, que, como ninguém,
materializou a angústia e o
desespero existencial do ser
humano, me assalta, vez em quando.
Em “flashs”,
vez por outra, aquele rosto me
devora. Para mim, a qualquer
momento, do nada, aquela efígie
voltará a fazer parte das avenidas
asfálticas de Teresina.
Vivo
sobressaltado. A minha pequenez e
minha indiferença vão sofrer um
duro golpe se “ele” voltar. O meu
mundinho pequeno, medíocre, vive
com medo de ser “seqüestrado” por
aquele rosto que foi recolhido e
que agora deve estar a sorrir e a
“assombrar” os que estão ao seu
redor.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |