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Pegando emprestada a fala de um
presidente de um país bem conhecido
nosso, uma “Terra do Nunca”, afirmo
sem delongas: Jackson não era uma
pessoa comum.
Jackson faleceu aos cinqüenta anos.
Uma vida marcada por mutações e
perturbações. Mais parecia uma
personagem saída de um conto
escrito à base de alucinógenos ou
de um livro do genial Oscar Wilde.
Foi
um ícone de um tempo, mergulhado
numa luta inglória, travada com
seus genótipos e com seus
recalques. Procurava se reencontrar
em outra efígie, distante da
negritude que lhe tomava as
origens.
A
pele negra e os cabelos crespos não
lhes “desciam” bem. Preferia uma
feição mais.. pop, embora alguns
afirmem que o embranquecimento da
cútis decorria de uma doença de
pele.
Independente disso, ele marcou uma
época. E quem marca época, quando
se vai leva um pouco dela consigo
e, por conseguinte, tira-nos um
naco de tempo que fazia parte de um
momento particular de nossas vidas.
Não
conheço, a fundo, nenhuma de suas
músicas. Lembro-me, no entanto, de
suas performances nos palcos. A
sua mistura de ritmos, a maneira de
se vestir e sua influência na
cultura dos anos oitenta o
transformaram numa figura lendária.
Jovens se refestelavam no chão, na
tentativa canhestra de imitá-lo. O
conheci mais pelos outros do que
por ele mesmo. Não comprava seus
discos e nem parava para ver seus
shows. Mas o identificava como
símbolo maior de um tempo, ao lado
de Madonna.
Incapaz de se conciliar com sua
própria imagem, Jackson não
conseguiu também gerenciar os fatos
do cotidiano que atazanaram sua
vida. Mergulhado nisso, envolveu-se
em escândalos que lhes tiraram mais
ainda o juízo e alguns milhões de
dólares.
Recebi a notícia de sua morte pela
Internet. Choquei-me no início.
Depois digeri com naturalidade.
Deitado numa maca, entubado,
adormecido, o astro pop despediu-se
de todos num silêncio sepulcral.
Uma imagem bem diferente das que
marcaram seus mega-shows.
Ele
conseguia, como poucos, harmonizar
voz e corpo. Seus passos mágicos
foram interrompidos bruscamente.
Sua voz foi calada repentinamente.
Agora, a terra o encobrirá e
tirará do seu esqueleto a pele
branca que o cobriu
“artificialmente”.
A
pele negra, “a de baixo”, talvez
aparecerá, fria, mórbida e, quem
sabe, viva: pronta para ser
fulminada pela ação moribunda dos
vermes.
Michael foi-se branco e pálido.
Viverá em nossas mentes para
sempre: branco e pálido, distante
de uma origem que,
esquizofrenicamente, tentou
esconder.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |