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Os cineastas foram melhores
– talvez por trabalhar com imagens
e seus efeitos - numa tradição- ou
talvez desejo, sabe-se lá! -
atávica nossa de pensar o futuro: a
destruição em massa, o esvaziamento
do planeta em decorrência de
catástrofes.
Os
livros religiosos fartam-se com os
prognósticos mais sombrios. Chamas.
Chamas. Morte. São as “estacas” das
religiões modernas. O fim virar
para salvar. É o recomeço.
E
todo recomeço exige, primeiro, a
perda, a desgraça, a punição.
Depois, a mansidão, a contemplação
perene, a levitação. Tudo alvo,
branco. Sem penumbras.
Sem
o mal personificado em tragédias
não nos diferenciaríamos. Sem ele,
o mal personificado, acho eu, não
haveria hierarquia e, por
conseqüência, puros e impuros. O
que seria de nós?
Pois
bem. A gripe suína veio. Os porcos,
que um dia já serviram, segundo uma
passagem bíblica, de abrigo para os
demônios, agora trazem o vírus
letal. São os hospedeiros da
destruição, novamente.
Depois das aves, das vacas, dos
macacos, agora os porcos.
Porcaria!!
Enquanto a medicina avança sem
medida, propiciando descobertas que
nos levarão a uma vida longeva, as
novas pragas prometem destruir a
raça humana. Não ficará nenhum ser
humano para contar a história.
A
visão que se avizinha é aquela
prenunciada pelas religiões e pelos
cineastas: destruição, medo e o
fim, inevitavelmente. Ao que
parece, a nossa solidão imanente
forja esses sonhos apocalípticos.
No fundo, bem no fundo, parece que
a idéia nos atrai e nos reconforta.
Parece não haver um presente
confortável, até por que o futuro
já perdeu o seu charme, afinal a
tecnologia já o antecipou
sobremaneira.
A
aviária veio e não nos levou. A
“louca”, com as vacas, veio e não
conseguiu nos alienar. O Ebola veio
e não nos sangrou até o fim. A
suína chega por meio de espirros e
assoados e parece não nos vencer.
Escaparemos?!!
Será
que mais essa “praga” não será
capaz de nos tirar da solidão
abissal que nos esmaga desde
sempre? Resistiremos aos espirros
virulentos que, inicialmente,
saíram dos descendentes dos
Astecas?
Desconfio que viveremos a
contemplar mais e mais auroras. A
solidão, “essa pantera”, nos
acompanhará e nos humanizará por
muito tempo, embora insistamos em
cortejar o fim, como forma de nos
despirmos de nossas angústias e de
nos animarmos a buscar um sentido
para essa travessia que, na maioria
das vezes, parece tão
desnecessária, tão vazia.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |