|
Não há como fugir da polêmica. A
excomunhão dos autores do aborto
perpetrado na adolescente que foi
estuprada pelo padrasto gerou
polêmica e “contaminou” as falas
dos articulistas e dos “formadores
de opinião”.
O direito canônico é
taxativo em relação à prática do
aborto. A violação a vida,
independente de suas
circunstâncias, é tida como
inaceitável. Destruir fetos com
potencial de vida, ainda que com
intuito de salvar outra já formada
ou preservar a higidez mental e
orgânica da genitora, é, do ponto
de vista religioso, indesculpável.
Louvamos então a adoção
de um Estado Leigo, que não permite
a ingerência desmedida de dogmas
religiosos na formatação das leis e
dos códigos legais. Como o Estado,
“governado” por homens, prende-se
ao mundano, sem percustrar, a
fundo, as questões transcendentais,
prevaleceu a ótica da razão,
felizmente.
Os “ministros da razão”
cumpriram sua missão ao agir sob o
abrigo da lei da república, criada
pelos que “militam” no mundo dos
homens; o ministro da fé cumpriu
sua missão eclesiástica e
excomungou os que desrespeitam a
lei do Altíssimo, legislador maior,
que está acima das questões
terrenas, e, por conseguinte, mais
afastado, diga-se, de nossa
precariedade imanente, embora, para
alguns, seja responsável por ela.
Pobres humanos, nós!!!
Afundados na nossa própria
mesquinhez, volta e meia nos
defrontamos com questões
conflitantes, envolvendo razão e
fé.
A brutalidade que
instigou o agressor e o provocou a
ponto de violentar uma garota é
humana, decadentemente humana; a
difícil decisão de interromper dois
projetos de vida em curso (eram
gêmeos os bebês frutos da
violência), que avançaria para o
seu fim natural ou começo, foi
humana, debilmente humana.
É no campo do “humano”
que a decisão sobre a interrupção
ou não da gravidez deveria ser
tomada. Era o leito apropriado para
a “sentença” de morte e vida. E foi
assim que foi feito, dentro das
nossas fragilidades e das nossas
contradições, tão dignas de nós
mesmos.
A autonomia da
“decisão” é o ateste de que somos
nós responsáveis pela nossa
via-crúcis. Não podemos, então,
delegar poderes, furtar-nos de
nossa missão de continuar a andar
pelos caminhos pantanosos da
trajetória humana.
Quanto à decisão do
bispo, mera subsunção do fato à Lei
Canônica, foi fácil. O “encaixe”
foi automático. Ponto. Não
ponderou. Divorciou-se das
circunstâncias, esqueceu-se de que
a tragédia humana nasceu da
escolha, lá no início, segundo sua
própria visão religiosa, da
renúncia de Adão ao Paraíso.
Preferiu, o
“primeiro-homem”, o conhecimento a
um mundo sem deformações. Com isso,
o peso das escolhas desabou nos
seus ombros e nos nossos. A partir
daí, fomos “condenados” a ser
humanos, e tudo que decorrer disso
não nos pode ser estranho.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |