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A
festa pagã que nos envolve,
arremessando-nos nas “avenidas”
ardidas em chamas, que crepitam
sentimentos volúveis e despertam a
nossa concupiscência, começou e
terminou em mais uma edição.
Não
sei se a idade que corre seqüestrou
um pouco da minha disposição e me
infligiu um ar melancólico que me
assalta as diabruras da juventude:
o carnaval já não me apetece tanto.
Seios à mostra, pernas, pernas,
bundas e bundas, tudo em seus
lugares plasticamente
acondicionados. Morena cor. Loira
com cor. Suor ao desvario
escorrendo pelo corpo
lipoesculturado. Nem uma banha a
mais, muitas a menos. E sorrisos
que se confundem com lágrimas de
êxtase, eis a paisagem que nos
“assombra” quatro dias do mês de
fevereiro.
Todo
esse cenário pecaminoso ( ahh!! um
pecadilho nunca é demais) e nada
do
frenesi abrigar-se no meu corpo
cascudo.
Quando vejo as morenas trocando os
passos freneticamente em cima de um
salto esguio, rio. Rio de saudade
ou melancolia;
Quando vejo a juventude empunhando,
numa mão uma cerveja, na outra um
abadá, rio. Rio de inveja ou temor,
pelas suas vidas e pela minha;
Quando vejo o espírito de manada
“descer o morro”, trocar beijos
lascivos, com sobras de língua
encontrando sobras de outras
línguas, rio. Rio de riso mesmo,
aplaudindo o despojamento e o
rebaixamento das convenções e do
amor romântico, pelo menos
temporariamente.
É
assim que, ultimamente, o carnaval
começa para mim: meio vazio de
sentido, provocador de riso bobo,
parecido com soluço (como dizia
Renato Russo numa de suas canções)
e reavivador de lembranças que,
pelo passar ininterrupto do tempo,
empoeiram-se, atacadas pelos fungos
e pelas teias de aranha.
Ah!! Os velhos carnavais de
antanho em São Raimundo Nonato!!
Penso eu com meu riso preso e
caduco, acorrentado pelas rugas que
pululam como foliãs, lantejouladas,
brilhosas, viçosas, em meu cenho.
Enquanto “as comportas se abrem”,
com o carnaval desaguando libido,
pulsando tentações e provocando
contatos carnais e sensuais,
recolho-me sem riso. Corro, corro
do movimento em busca de mansidão,
fechando portas, esperando as
avenidas asfálticas que não
abrigarão foliões, abrirem-se para
mim, solitárias, pedindo a minha
passagem lenta, morosa, séria,
encurvada.
Vou
esperar a quarta-feira de cinzas
para afastar meu riso medonho,
indisfarçável, transmudando-o em
riso risível, daqueles que a gente
esboça sem esforço, como se fosse
natural.
Aí
sim, o carnaval terá passado por
mim, taciturno, claudicante, sem
serpentinas e sem viços.
Mas,
no próximo, prometo, caro e festivo
leitor. Libertar-me-ei dos grilhões
que me acorrentam e me jogarei na
avenida, sem melancolia, vívido do
espírito carnavalesco que um dia
aportou em mim. Aí sim, não haverá
mais textos melancólicos na
quarta-feira de cinzas, e sim uma
brutal ressaca que falará por mim,
com soluços.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |