|
Recentemente mais uma descoberta
cientifica movimentou o mundo: o
homem cria a primeira célula
bacteriana viva. Não é bem a
primeira, mas é a que apresentou
maiores sucessos de vida. Isso faz
relembrar o alvoroço que se deu em
torno da fecundação "in vitro", da
clonagem, das células-tronco. Além
do mais, remete-nos ao velho
debate: o homem está criando a
vida? O homem está brincando de
Deus?
A notícia dessa nova descoberta
veio em boa hora. O número de
doenças graves decorrentes de
deformações genéticas em células
humanas alarma a todos. A esperança
de cura para doenças ou anomalias
como câncer, paralisias, Mal de
Alzheimer, Síndrome de Down e
tantas outras está depositada
nesses avanços da ciência.
Todavia, essas descobertas
científicas colidem com a visão de
certos segmentos da sociedade,
sobretudo com a das instituições
religiosas. O manuseio do homem em
elementos naturais da vida pode ser
uma forma de desafiar Deus? Pode
ser uma forma de fugir do
inevitável fim de todos nós, que é
a morte? Será que a ciência é
contrária aos princípios
religiosos?
Quando o assunto é ciência e
religião, acredita-se comumente que
as religiões são adversas aos
avanços científicos. Como água e
óleo, essas duas formas de
conhecimento e representação das
manifestações humanas não se
misturam. Porém, isso é assim não
pela impossibilidade de encontros
da ciência e da religião, mas pelo
desconhecimento e ignorância.
Historicamente, as religiões
contribuíram muito para
aperfeiçoamento da ciência. A
religião Católica, por exemplo,
possibilitou a criação das
primeiras universidades, abrigou as
grandes obras da arquitetura e das
artes plásticas, forneceu base para
o direito moderno através do
direito canônico, deu preceitos
para a criação de direitos humanos,
promoveu a criação de conceitos
básicos da economia moderna.
É claro que essa mesma religião foi
responsável por retrocessos
científicos, por exemplo, com a
burla a questões de avanços da
astronomia no passado, e de se opor
aos estudos de célula-tronco no
presente. Mas essas duas oposições
têm motivos distintos. No passado,
o motivo era que a visão religiosa
e política não se distinguiam. No
presente, o motivo é temor às ações
humanas sem critérios morais,
éticos.
Nesse ponto vale lembrar que as
pesquisas com produtos radiativos
foram responsáveis pela criação das
bombas atômicas. Ou seja, um
esforço científico com o objetivo
de melhorar a vida das pessoas foi
transformado no instrumento bélico
mais destruidor da história. Isso
quer dizer que as descobertas
científicas não podem prescindir de
aspectos morais, este é o recado
das religiões.
Com isso, nota-se que o embate
entre ciência e religião decorre de
visões extremadas, sobretudo. A
ciência deve ser livre e avançar
porque traz benefícios à
humanidade. Por sua vez, a religião
precisa ser considerada, pois
aspectos morais podem melhorar as
descobertas da ciência, bem como o
uso delas. Logo, ciência e religião
não são contrárias.
Assim, na medida em que a ciência
avança em questões de recriação da
vida não quer dizer que o homem
esteja brincando de Deus, de
criador da vida. O que a ciência
faz nesse campo são descobertas ou
recriações sobre as formas de
reprodução da vida. O homem combina
substâncias pré-existentes para
reproduzir formas de vida, isto é,
ele não tira a vida do vazio.
O homem não está criando vida nova,
mas compreendendo melhor as formas
como a vida pode surgir. Embora se
constitua num avanço formidável, a
primeira célula bacteriana viva
sintética é apenas uma precária
forma de reprodução observada na
natureza. Do mesmo modo que a
clonagem não passa de uma
reprodução assexuada.
Os avanços da ciência não são
desafios a Deus. Entretanto, visões
extremistas de homens da ciência e
segmentos da sociedade argumentam
que essas descobertas provam a
inexistência de Deus. Essas visões
são tão prejudiciais ao avanço da
ciência quanto as visões ignorantes
de frações das religiões fechadas
ao progresso. É sempre o
radicalismo que leva aos maus usos
das descobertas científicas e dos
preceitos religiosos.
O homem não precisar querer ser
Deus para progredir na ciência.
Destarte, considerações religiosas,
morais e éticas sobre as
descobertas científicas e as
aplicações delas, em vez de
dificultarem, podem ajudar na busca
de meios para melhorar as condições
de vida humana.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
|