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O objetivo é escrever sobre cidadania, democracia, políticas públicas, governos e eleições, e quiçá tantos outros temas.

Sou Alexandre Rocha, sanraimundense de coração, filho de sanraimundenses e morador por vários anos do bairro Gavião. Entretanto, agora resido em Brasília, mas não me esqueço de nossa cidade. Sempre quando posso trilho o caminho para esta terra adorável. Na Capital Federal conheci, estudei e apaixonei-me pela Ciência Política. Nessa mesma área conclui o curso de Mestrado. A Ciência Política é uma formação pouco conhecida em nossa região, por isso também tenho como propósito divulgá-la, e quem sabe despertar o interesse de pessoas por essa disciplina.

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Cidadania sem lixo, liberdade sem luxo 

alxroch@yahoo.com.br


O meu último artigo gerou polêmica. De um lado, certo internauta argumentou que sujar a rua não é prova de falta de cidadania, mas um ato honroso de gerar emprego para garis, catadores de papel, de latinhas. De outro lado, vários internautas argumentaram que é uma tremenda falta de respeito sair deliberadamente sujando as ruas.

 

Para contribuir com esse importante debate travado entre os internautas, vou acrescentar breves noções sobre liberdade, que muito tem a ver com cidadania. Ser cidadão é ser livre. Peço licença, mas vou ter de misturar um pouco temas teóricos e coisas corriqueiras.

 

Para os gregos a cidadania era um bem inestimável, pois “a plena realização do homem se fazia na sua participação integral na vida social e política.” Mas, mesmo na Grécia antiga, só alguns tinham o status de cidadão. Assim ficavam de fora escravos, mulheres, estrangeiros.  O cidadão, portanto, era aquele que tinha a liberdade de participar do trato dos assuntos públicos.

 

Passaram-se os anos e as sociedades ficaram mais complexas. A noção de cidadania também mudou, sobretudo a partir do século XIX, com a evolução dos direitos. Por isso hoje se entende que a cidadania é “uma condição que em princípio repousa sobre os indivíduos e que implica igualdade de direitos e obrigações, liberdades e constrangimentos, poderes e responsabilidades.”

 

Como se vê a cidadania hoje é mais abrangente. Mas seja no mundo antigo ou atualmente, ser cidadão é ser livre. Entretanto, será que ser cidadão é ter liberdade irrestrita? Por ser cidadão e pagar impostos, tenho o direito de fazer o que bem entender, inclusive de jogar lixo na rua? Acredito que pensar nessas questões nos ajuda a trazer contribuições para o debate sobre jogar ou não lixo na rua.

 

A cidadania no Brasil está construção, pois até pouco tempo atrás vivíamos num regime autoritário, com escassos direitos civis, políticos e sociais. Ora, até bem pouco tempo as mulheres não votavam, nem os analfabetos. Enfim, uma parcela considerável de brasileiros não tinha a liberdade de participar dos assuntos públicos.

 

Com a democracia as coisas mudaram. A liberdade foi garantida legalmente para os brasileiros e a cidadania deixou de ser privilégio de alguns. É claro que tudo isso é o que está na lei, mas nem sempre é o que acontece na realidade. Não obstante, o que importa é que conquistamos a liberdade de ser cidadão.

 

Todavia, hoje muito se confundi o que é liberdade. Esquece-se que a liberdade do indivíduo é dentro da condição de cidadão. Isso quer dizer que mesmo a liberdade está sujeita a limites, a regras, a obrigações, a constrangimentos. Daí se conclui que liberdade não é libertinagem.

 

Eis um problema. Por termos vividos um passado autoritário, hoje se acha que não pode haver óbices à liberdade. Assim, a democracia, a liberdade, a cidadania são vistas só pelo lado dos direitos e se esquece das obrigações. É triste. Hoje se tem a liberdade de participar da vida pública, mas se prefere a libertinagem de romper regras, valores, respeitos. Pior. Prefere-se a “liberdade” de jogar lixo na rua.

 

Paulo Freire ensinava: “a minha liberdade acaba quando acaba a liberdade do outro.” Isso significa que devemos ser livres, mas a liberdade não nos dá o direito de fazer tudo, porque isso prejudica outras pessoas. Há limites e desprezá-los não é liberdade, mas só libertinagem de não se importar com os outros, com a sociedade, com a cidade.

 

Volto ao meu exemplo rasteiro. A cidadania consiste no gesto de não jogar papel na rua. Ademais, no gesto de respeitar os sinais e placas, respeitar as pessoas mais velhas e especiais, saber dizer obrigado, desculpe, por favor...  Quando fazemos livremente tais coisas estamos respeitando o espaço dos outros, estamos vivendo a cidadania, estamos atuando politicamente.

 

Desse modo, ao evitarmos jogar lixo na rua estamos dignificando o trabalho do gari, em vez de lhe privarmos do pão de cada dia. Não sujar deliberadamente a rua é respeitar o gari, é reconhecer a nobreza de seu trabalho e contribuir com ele para a limpeza da cidade. Isso é sim prova de cidadania, pois é saber que vivemos em sociedade e que a cidade é nossa casa coletiva.  

 

A cidadania significa “reciprocidade de direitos e deveres entre a comunidade política e o indivíduo. Temos o direito de viver numa cidade limpa, mas temos o dever de evitar sujá-la. Nossa liberdade de cidadão, portanto, consiste em saber viver entre direitos e deveres, mas certamente é melhor isso do que a libertinagem.  
 

Alexandre Pereira Rocha. É cientista político.

Mestre em Ciência Política (UnB)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Alexandre Rocha