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O tema corrupção na política não é
coisa inventada pelos políticos de
nossos dias. Há tempos ele ronda
nossa história, acho que vem desde
as primeiras caravelas que aqui
aportaram. Assim, a corrupção está
entranhada na história do Brasil ou
é a política que é naturalmente
corrupta?
A corrupção está em todo lugar,
seja no governo federal, estadual
ou municipal, bem como fora de
nosso país. Miremos no recente caso
do Distrito Federal – onde
justamente se considera que os
eleitores são mais conscientes e
instruídos – operou-se um dos
piores escândalos de corrupção do
Brasil.
A despeito disso, minha resposta
para a questão levantada é que nem
a corrupção está em nossa história,
nem a corrupção é própria do mundo
político. Não acredito que sejamos
um povo culturalmente corrupto, bem
como não considero que todos nossos
políticos são corruptos. Explico o
motivo.
Primeiro. Em nossa história tivemos
muitos casos de corrupção na
política. Tudo bem. Todavia, a
corrupção só se tornou problema
quando, de fato, o bem público se
tornou público. Até bem pouco tempo
atrás era bastante comum políticos
governarem certo município como se
fosse sua própria casa, por
exemplo. Só com a propagação dos
ideais republicanos, que o público
ficou de um lado e o privado do
outro.
Ora, a corrupção passou a ser
problema quando se tornou imoral
usar o dinheiro público para fins
privados. Isso para nós brasileiros
é coisa do início do século 20.
Antes tinha muita forma de
malversação do dinheiro público,
mas não era problema político como
é hoje. Passou a ser problema,
sobretudo, a partir de 1988,
quando, de fato, constituímos as
bases de um Estado de direto
democrático.
Segundo. A política não é terreno
fértil para aguçar o espírito
corrupto. Discordo da máxima de que
o poder político corrompe. Ao
contrário. A política é espaço para
se buscar a exaltação do bem
público, das virtudes coletivas, da
liberdade dos indivíduos. Numa
conceituação clássica, não se faz
política sozinho, mas entre
pessoas. A política nasce de nossas
relações em público, de nossa
preocupação com a coletividade.
Desse modo, se a corrupção não
é própria de nossa história, nem
é própria da política, qual é o
problema? O problema é que a
corrupção significa a
desvalorização do espaço político
público, ou seja, tudo que se
refere ao público é visto com maus
olhos, pois se trata de algo sujo,
indigno, corrupto. Antes do
dinheiro, o que a corrupção nos
toma é a dignidade de sermos
cidadãos.
Os escândalos de corrupção afastam
os verdadeiros cidadãos da cena
pública. Eles se opõem a participar
dessa imoralidade. Assim, vemos
surgir a figura do “apolítico”,
isto é, pessoa que não quer saber
da política. Hoje está na moda ser
apolítico, pois soa tão bem quanto
ser agnóstico, ateu, apartidário,
anônimo. Digamos que é “cult”.
Será o afastamento da política a
forma de se manter limpo da
sujeirada praticada no mundo
político? Acredito que não. Isso
não resolve, pois o que ocorre
apenas é o esvaziamento do espaço
público por parte dos cidadãos. Sem
cidadãos dignos e honestos, os
políticos corruptos se apropriam
facilmente da cena pública, dos
recursos públicos.
É triste. Muita coisa depende da
política. Imagine o que for. Sejam
questões de emprego, de saúde, de
segurança, de educação, de cultura,
de lazer, tudo depende de alguma
forma das relações e decisões
políticas. Portanto, não há como
sermos apolíticos, porque a
política é parte integrante da vida
moderna. Disso resulta que não há
possibilidade de nos julgarmos
apolíticos e continuar sendo
cidadãos.
Arrisco um palpite. Acredito se
participássemos mais da política
haveria menos casos de corrupção.
Há várias formas de atuar na
política, não precisa
necessariamente se candidatar a
cargo público, basta, de fato, ser
cidadão preocupado com as coisas
públicas. Isso implica zelar pela
rua, praça, escola, hospital, placa
de trânsito de sua cidade. Coisas
mínimas, como não jogar lixo no
chão são formas de cidadania, meios
de se exercer a boa política.
Não vamos entrar nessa de ser
apolítico. Deixar de se preocupar
com a política é se alienar. Na
Grécia antiga isso equivaleria a
ser “idiota”. É isso mesmo, o
apolítico é um idiota. Não podemos
nos alienar, pois a corrupção e
tantos outros problemas públicos
são problemas de todos nós, de
nossa coletividade. Por isso, não
sejamos indivíduos apolíticos, para
também não nos tornarmos numa massa
de idiotas.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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