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O
presidente Lula inaugurou via
teleconferência o IFET de São
Raimundo e muitos outros sem sair
de Brasília. Graças às ferramentas
tecnológicas de hoje é possível
fazer o milagre da multiplicação de
“Lula”. Algo interessante, haja
vista que o Lula é matéria escassa
no mercado político.
Como disse o
ministro Celso Amorim: “a
demanda de Lula
é maior do que a
oferta.” Na história política
brasileira nenhum presidente
alcançou tamanha popularidade,
ainda mais no fim de um mandato, e
depois de ter passado por tantos
escândalos de corrupção na base
governista. Como explicar a
popularidade do presidente Lula?
O político Lula tem
o dom do carisma, tem a capacidade
de atrair o povo com palavras e
gestos, ou seja, tem a plástica dos
líderes populares. Em nossa
democracia de massas, o carisma é
um capital político sem igual. Mas
não basta ser bom de papo, é
preciso ter algo mais. No caso do
presidente Lula, o algo mais é sua
história particular.
O algo mais do Lula
é ter saído do interior de
Pernambuco no pau-de-arara, ter
sido operário na grande São Paulo,
ter sido líder do maior sindicato
da América Latina, ter combatido à
ditadura militar, ter concorrido a
cinco eleições presidenciais e ter
ganhado duas vezes. Enfim, não ter
desistido. Tais coisas moldaram o
perfil de um político diferenciado
com o qual povo se identifica.
Não é a toa que o
presidente dos EUA, Barack Obama,
disse que o Lula é o “cara”. Lula,
o presidente operário e de pouca
instrução, é solicitado por
inúmeras universidades para receber
o título de Doutor Honoris Causa.
Ademais, segundo especulações do
mercado político internacional
figura na lista das pessoas mais
poderosas do mundo.
Por tudo isso, Lula,
coloca-se de igual para igual com
outros líderes mundiais nas arenas
internacionais. Com o mesmo carisma
que conquistou o Brasil, ele vem
conquistando o mundo. Tanto é assim
que na última edição do fórum de
Davos, Lula recebeu a premiação de
“estadista global”sem sequer estar
lá. É Lula aqui no Brasil, é Lula
lá pelo mundo afora.
Todavia, a era do
presidente Lula está findando. Por
ora, o presidente “pop star” assume
as vestes de cabo eleitoral de sua
pretensa sucessora, a ministra
Dilma Rousseff. Até agora, a
despeito da importância e
popularidade dele, a pré-candidata
governista não alçou voo. Seu
legado na presidência talvez fique
sem continuidade.
Seja quem for o
vencedor das próximas eleições
presidenciais, o fato é que Lula
não concorrerá à presidência, não
poderá ser mais presidente, pelo
menos por algum tempo. Isso virá
uma página de nossa história
democrática, pois desde a primeira
até a última eleição direta
pós-ditadura militar lá estava o
Lula concorrendo.
Decerto, o Lula é um
dos mais importantes personagens
vivos de nossa história política.
Nada obstante, é cedo para medir o
impacto de sua passagem pela
presidência da República.
Independente de todo o prestígio
angariado no decorrer de sua
trajetória política, sobretudo à
frente da presidência, só a
história vindoura dirá se o Lula é
ou não o “cara”.
As virtudes do
presidente Lula têm de ser
exaltadas. A história presente já
está fazendo isso. Mas, temos de
ver também os vícios do político
Lula. Isso está sendo omitido. Não
se pode deixar de notar que a
pessoa do Lula – seja na pele de
político ou com a faixa de
presidente –, em vez de ter usado o
poder para transformar o Brasil,
sucumbiu à vaidade do estar no
poder.
Para entrar na
história não é preciso virar
passado, tampouco cravar uma bala
no peito como fez Getúlio Vargas.
Aliás, não foi por isso que ele se
tornou histórico, mas foi por ter
tido a ousadia de transformar o
Brasil de uma “grande fazenda” em
um país industrializado, por ter
lutado contra as estruturas
patrimonialistas, por ter sonhado
um país melhor.
É a capacidade de
lidar com as circunstâncias e as
oportunidades que fazem de
políticos comuns estadistas. Esses
são aqueles visionários que
entreveem o futuro do seu país no
contexto interno e internacional e
conseguem conduzi-lo nessa direção.
Ser estadista não é coisa a ser
recebida numa premiação, mas é algo
que só a história e a memória de um
povo podem julgar.
A despeito da
envergadura, o político Lula ainda
não é um estadista. Aliás, esse é
matéria rara no mercado político,
pois é preciso ousadia para ser
estadista. Isso faltou ao
presidente Lula, que não enfrentou
as verdadeiras bases da
desigualdade, que se rendeu à
distribuição populista e casuística
de recursos, que tantas vezes se
calou diante casos de corrupção e
de injustiças políticas.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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