|
Outro escândalo de corrupção entra
em pauta. Os velhos mecanismos de
mensalidades a parlamentares e
caixa-dois de campanha eleitoral
voltam à tona com novos personagens
no Distrito Federal. A desfaçatez
dos corruptos ultrapassa qualquer
limite de moral, pois imagens
vergonhosas mostram desde
parlamentar escondendo dinheiro nas
vestes até outros evocando proteção
divina para o esquema de corrupção.
Atos desse tipo reforçam a falta de
moral de certos políticos e
aumentam o desencanto para com a
política. Afinal há espaço para a
moral na política?
A questão da moral na política
sempre foi controversa, porquanto
remonta clássicos, como Maquiavel.
Ao pensador florentino foi
atribuída erroneamente a máxima:
“os fins justificam os meios”.
Talvez pensando nessa fala o
governador do Distrito Federal
Roberto Arruda encontre alento,
pois se aceitou dinheiro de origem
duvidosa foi para fazer obras de
caridade. O governador agiu com
mãos maquiavélicas, mas no fundo
tinha causa nobre. Será que o
suposto fim moral eclipsa os meios
nitidamente torpes? Caso positivo,
a moral não coaduna com a política.
A cada caso de corrupção mais se
intensifica a concepção de que o
ambiente político é amoral. Nele só
sobrevive quem age com sagacidade e
está apto a aceitar certas
liberalidades e ilegalidades. Nesse
sentido Maquiavel adverte aos
candidatos a príncipes: “há grande
diferença entre como se vive e como
se deveria viver... Pois é
inevitável que um homem disposto a
ser bom em tudo fracasse entre
tantos que não são bons.”
Continua o receituário: “é preciso
que um príncipe, para se manter,
aprenda a não ser bom, e a sê-lo ou
não, segundo a necessidade”. Na
política a bondade parece ser
relativa. Tem-se aqui a
justificativa para desprezar a
moral na política? Não. Muito do
que se atribui à política a partir
de Maquiavel não passa de
oportunismos. A questão é que para
justificar a falta de moral
individual o corrupto culpa o
ambiente político. No entanto, não
é a política o seio da corrupção,
mas é o indivíduo de moral ambígua
que usa as estruturas políticas
para obter vantagens pessoais. Ou
seja, a corrupção na política é
problema público, contudo suas
raízes brotam de deficiências de
moral individual.
É triste. O corrupto não se vê
amoral, porém apenas um
profissional da política. É por
isso que o deputado distrital
Brunelli não se envergonha de
clamar por proteção divina para
trilhar pelo devasso mundo da
política. Do mesmo modo o
governador Arruda considera moral
sua atitude porque a intenção de
aceitar o dinheiro escuso era para
beneficiar os pobres. Essas são
atitudes morais? Tais pessoas são
representantes públicos, logo o
mínimo que se espera deles é que
ajam com moralidade. Afinal, se
eles são desprovidos de moral com
que autoridade irão exigir isso do
corpo funcional da maquina pública
ou mesmo da sociedade?
Para explicar o que é corrupção não
convêm emaranhados de teorias,
basta dizer que ela é a falta de
moral no trato da coisa pública.
Nada obstante, o problema da
moralidade pública é complexo e de
difícil aplicação, daí geralmente é
deixado de lado. Ademais, pouco se
fala em moral na política,
prefere-se a palavra ética. Por
quê? Ética e moral são quase
sinônimos, só que para maioria da
população uma falta ética não soa
tão desagradável quanto um desvio
moral. Nesse sentido, a expressão
ética na política serve bem para
camuflar as amoralidades de certos
políticos.
A corrupção na esfera pública não é
devastosa só pelos milhões de reais
desviados e surrupiados, é,
sobretudo, por gerar o desencanto
para com a política e a
despolitização da sociedade.
Afinal, a principal herança maldita
deixada pela corrupção é uma
sociedade desacreditada
politicamente, onde de forma
paradoxal a política é cada vez
mais habitada por políticos
profissionais e menos por cidadãos.
Esse cenário favorece a alienação
política e abre espaço para o
surgimento dos falsos moralistas e
salvadores da pátria.
A opinião de que a corrupção é
própria da política se consolida no
senso-comum. Destarte, já que a
ética da responsabilidade não guia
a ação de certos políticos, para
reverter o quadro de corrupção é
preciso tratar o problema não só
pela ótica da ilegalidade, mas,
também pelo crivo da moral. É nesse
terreno que a maioria dos cidadãos
fazem suas ponderações e é nele que
podem julgar os corruptores da
política. Enfim, vale frisar que a
corrupção no GDF é acima de tudo
questão de falta de moralidade, não
apenas problema jurídico-legal do
mundo da política.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
|