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O objetivo é escrever sobre cidadania, democracia, políticas públicas, governos e eleições, e quiçá tantos outros temas.

Sou Alexandre Rocha, sanraimundense de coração, filho de sanraimundenses e morador por vários anos do bairro Gavião. Entretanto, agora resido em Brasília, mas não me esqueço de nossa cidade. Sempre quando posso trilho o caminho para esta terra adorável. Na Capital Federal conheci, estudei e apaixonei-me pela Ciência Política. Nessa mesma área conclui o curso de Mestrado. A Ciência Política é uma formação pouco conhecida em nossa região, por isso também tenho como propósito divulgá-la, e quem sabe despertar o interesse de pessoas por essa disciplina.

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A quem serve o espetáculo?

alxroch@yahoo.com.br


A euforia ainda não passou, mas já é hora de pesar as consequências. De fato, foi surpreendente a escolha do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas de 2016. A primeira cidade da América do Sul a albergar esse evento é brasileira. A cerimônia de escolha da sede olímpica mais parecia uma cúpula de chefes de Estados, o que não poderia deixar de ser com a presença de Obama e Lula. Assim, o que estava em jogo para alguns países era mais do que o fato de sediar uma Olimpíada, mas era a possibilidade de se firmar perante a comunidade internacional.

As Olimpíadas jamais foram eventos puramente esportivos. Antes de representam esforços de atletas, elas são rearranjos de Estados em busca de poder. Os atletas almejam a superação do corpo, os países a firmação como potência. Não é à toa que dos cinco países com maior quantidade de medalhas olímpicas, quatro tem assento no Conselho de Segurança da ONU; bem como os cinco maiores medalhistas fazem parte do G7. As olimpíadas são metáforas de guerras, tanto que só deixaram de se realizar em três ocasiões, justamente em tempos de combates reais, onde o campo de batalha deixou a ilusão dos estádios para tomar as ruas e as casas dos infortunados europeus.

Esse espetáculo de guerra consentida, depois das Olimpíadas de Pequim, ganhou definitivamente ares de ilusionismo. Vale tudo para impressionar o mundo e entrar no clube dos ricos, das nações desenvolvidas. Daí o evento chinês foi feito com requinte jamais visto. Ao fundo o braço autoritário de Mao Tsé-Tung guiou o espírito olímpico dos chineses. A finalidade era exibir ao mundo que a China tem condições de ser a nova potência que o mundo (não) deseja. A China das Olimpíadas era uma nação próspera e amistosa, a despeito dos fuzilamentos em praça pública e da opressão aos tibetanos. Enfim, os defeitos da China foram encobertos pelo espetáculo.  

Agora é a vez de o Brasil encenar a batalha. De uma hora para outra a cidade do Rio de Janeiro se tornou o Coliseu do mundo. O vídeo que propagou a cidade maravilhosa expôs o que há de melhor: as paisagens, as praias, o samba, a gente, a cultura. Ficou de fora: os morros e favelas, os traficantes, as crianças consumindo craque. Nesse drama o discurso do presidente Lula foi fundamental, porquanto foi a sátira que dissociou as palavras das coisas, a fantasia da realidade. Desse modo, o Rio de Janeiro ganhou não por ser a melhor opção, mas por ser o que melhor se apresentou no palco das ilusões.

Contudo, deixando a fantasia de lado, vale questionar: a quem serve o espetáculo? A fala de que as olimpíadas trarão melhorias de infraestrutura, de investimentos e de turismo fica ofuscada diante dos casos de corrupção em torno das obras dos Jogos Pan-Americanos. As olimpíadas servirão aos atletas brasileiros? Nem tanto, porque o investimento não será em atletas que mal têm patrocínio, mas em estruturas físicas. O espetáculo servirá, então, ao povo brasileiro? Dificilmente, pois os brasileiros reais estão preocupados é com as mazelas das escolas e dos hospitais, por exemplo.  

É inegável que sediar as Olimpíadas traz benefícios, como empregos temporários no ramo da construção civil e hoteleiro, de serviços em geral, mas, sobretudo prestígio internacional. Entretanto, afora essa pirotecnia, na verdade, no Brasil, o espetáculo servirá de imediato a certos políticos ávidos por propinas, ao cartel de empreiteiras “expertes” em superfaturar contratos, aos especuladores imobiliários. Quando a pira Olímpica se apagar, não serão eles é que terão lucrado, enquanto os milhões de brasileiros terão de arcar com pesadas cargas de impostos?      

O Brasil está deixando de confrontar dilemas reais para encenar um espetáculo internacional. Diante disso, é preciso esclarecer que as Olimpíadas não são apenas uma festa, mas um custo enorme. É preciso lembrar de que o choro de alegria do presidente e de alguns seletos ao ouvirem a escolha da cidade maravilhosa poderá silenciar o pranto de fome de muitos brasileiros espalhados por esse vasto país. É preciso desmistificar os fatos, pois as Olimpíadas não vão melhorar a situação dos brasileiros, mas, talvez alguns aspectos do cartão postal do Brasil, isto é, do Rio de Janeiro. 
  
A oportunidade de sediar as Olimpíadas indica que o Brasil caminha para entrar no clube das nações significantes no cenário internacional. Contudo, como o Brasil se mostrará ao mundo? De fachada ou realmente? Vai melhorar a vida de seus cidadãos ou fará semelhante à China que esconde suas mazelas como num passe de mágica? Essas questões não podem ser silenciadas pelo espetáculo, pois pouco adianta ostentar a pira Olímpica por alguns dias e depois só restar as cinzas da desilusão.
 

Alexandre Pereira Rocha. É cientista político.

Mestre em Ciência Política (UnB)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Alexandre Rocha