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A euforia ainda não passou, mas já
é hora de pesar as consequências.
De fato, foi surpreendente a
escolha do Rio de Janeiro para sede
das Olimpíadas de 2016. A primeira
cidade da América do Sul a albergar
esse evento é brasileira. A
cerimônia de escolha da sede
olímpica mais parecia uma cúpula de
chefes de Estados, o que não
poderia deixar de ser com a
presença de Obama e Lula. Assim, o
que estava em jogo para alguns
países era mais do que o fato de
sediar uma Olimpíada, mas era a
possibilidade de se firmar perante
a comunidade internacional.
As Olimpíadas jamais foram eventos
puramente esportivos. Antes de
representam esforços de atletas,
elas são rearranjos de Estados em
busca de poder. Os atletas almejam
a superação do corpo, os países a
firmação como potência. Não é à toa
que dos cinco países com maior
quantidade de medalhas olímpicas,
quatro tem assento no Conselho de
Segurança da ONU; bem como os cinco
maiores medalhistas fazem parte do
G7. As olimpíadas são metáforas de
guerras, tanto que só deixaram de
se realizar em três ocasiões,
justamente em tempos de combates
reais, onde o campo de batalha
deixou a ilusão dos estádios para
tomar as ruas e as casas dos
infortunados europeus.
Esse espetáculo de guerra
consentida, depois das Olimpíadas
de Pequim, ganhou definitivamente
ares de ilusionismo. Vale tudo para
impressionar o mundo e entrar no
clube dos ricos, das nações
desenvolvidas. Daí o evento chinês
foi feito com requinte jamais
visto. Ao fundo o braço autoritário
de Mao Tsé-Tung guiou o espírito
olímpico dos chineses. A finalidade
era exibir ao mundo que a China tem
condições de ser a nova potência
que o mundo (não) deseja. A China
das Olimpíadas era uma nação
próspera e amistosa, a despeito dos
fuzilamentos em praça pública e da
opressão aos tibetanos. Enfim, os
defeitos da China foram encobertos
pelo espetáculo.
Agora é a vez de o Brasil encenar a
batalha. De uma hora para outra a
cidade do Rio de Janeiro se tornou
o Coliseu do mundo. O vídeo que
propagou a cidade maravilhosa expôs
o que há de melhor: as paisagens,
as praias, o samba, a gente, a
cultura. Ficou de fora: os morros e
favelas, os traficantes, as
crianças consumindo craque. Nesse
drama o discurso do presidente Lula
foi fundamental, porquanto foi a
sátira que dissociou as palavras
das coisas, a fantasia da
realidade. Desse modo, o Rio de
Janeiro ganhou não por ser a melhor
opção, mas por ser o que melhor se
apresentou no palco das ilusões.
Contudo, deixando a fantasia de
lado, vale questionar: a quem serve
o espetáculo? A fala de que as
olimpíadas trarão melhorias de
infraestrutura, de investimentos e
de turismo fica ofuscada diante dos
casos de corrupção em torno das
obras dos Jogos Pan-Americanos. As
olimpíadas servirão aos atletas
brasileiros? Nem tanto, porque o
investimento não será em atletas
que mal têm patrocínio, mas em
estruturas físicas. O espetáculo
servirá, então, ao povo brasileiro?
Dificilmente, pois os brasileiros
reais estão preocupados é com as
mazelas das escolas e dos
hospitais, por exemplo.
É inegável que sediar as Olimpíadas
traz benefícios, como empregos
temporários no ramo da construção
civil e hoteleiro, de serviços em
geral, mas, sobretudo prestígio
internacional. Entretanto, afora
essa pirotecnia, na verdade, no
Brasil, o espetáculo servirá de
imediato a certos políticos ávidos
por propinas, ao cartel de
empreiteiras “expertes” em
superfaturar contratos, aos
especuladores imobiliários. Quando
a pira Olímpica se apagar, não
serão eles é que terão lucrado,
enquanto os milhões de brasileiros
terão de arcar com pesadas cargas
de impostos?
O Brasil está deixando de
confrontar dilemas reais para
encenar um espetáculo
internacional. Diante disso, é
preciso esclarecer que as
Olimpíadas não são apenas uma
festa, mas um custo enorme. É
preciso lembrar de que o choro de
alegria do presidente e de alguns
seletos ao ouvirem a escolha da
cidade maravilhosa poderá silenciar
o pranto de fome de muitos
brasileiros espalhados por esse
vasto país. É preciso desmistificar
os fatos, pois as Olimpíadas não
vão melhorar a situação dos
brasileiros, mas, talvez alguns
aspectos do cartão postal do
Brasil, isto é, do Rio de Janeiro.
A oportunidade de sediar as
Olimpíadas indica que o Brasil
caminha para entrar no clube das
nações significantes no cenário
internacional. Contudo, como o
Brasil se mostrará ao mundo? De
fachada ou realmente? Vai melhorar
a vida de seus cidadãos ou fará
semelhante à China que esconde suas
mazelas como num passe de mágica?
Essas questões não podem ser
silenciadas pelo espetáculo, pois
pouco adianta ostentar a pira
Olímpica por alguns dias e depois
só restar as cinzas da desilusão.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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