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O objetivo é escrever sobre cidadania, democracia, políticas públicas, governos e eleições, e quiçá tantos outros temas.

Sou Alexandre Rocha, sanraimundense de coração, filho de sanraimundenses e morador por vários anos do bairro Gavião. Entretanto, agora resido em Brasília, mas não me esqueço de nossa cidade. Sempre quando posso trilho o caminho para esta terra adorável. Na Capital Federal conheci, estudei e apaixonei-me pela Ciência Política. Nessa mesma área conclui o curso de Mestrado. A Ciência Política é uma formação pouco conhecida em nossa região, por isso também tenho como propósito divulgá-la, e quem sabe despertar o interesse de pessoas por essa disciplina.

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Metáfora das Cadeiras

alxroch@yahoo.com.br


O homem se distanciou de seus ancestrais primatas não só pelo fato de pensar sistematicamente, mas também pelo ato de ficar em pé, de andar sobre duas pernas. Pode não parecer, mas a verticalidade humana marcou uma passagem enorme na escala evolutiva. Não é exagero, portanto, dizer que o andar humano na vertical é uma das características que o difere de outros animais. Nada obstante, entre os humanos a despeito da importância do ato de ficar em pé, o que os distingue uns dos outros é a ação de sentar.

O andar é o que nos move, entretanto o sentar é o que nos identifica. O ato de andar é uma ação que procura um lugar, e, geralmente, um lugar para se sentar. Isso é tão relevante que a posição das pessoas em qualquer sociedade se define pelo lugar onde elas sentam. Andar pelas cidades, ruas, praças, enfim, por aí é quase coletivo, porém se sentar em certas localidades é só para quem pode. Nesse sentido, os lugares do sentar têm valores que ultrapassam a cognição simbólica. Com efeito, as cadeiras têm valor, a despeito de quem nelas se sentam.

O movimento das pessoas pode ser em busca de outras pessoas, de lugares, de empregos, de bens, de saberes, mas tudo não passa de uma busca incansável por cadeiras. Afinal, é da cadeira que a pessoa pode ou tem condição de se sentar que ela se relaciona com outras pessoas. Por isso, ao se sentar numa certa cadeira qualquer pessoa corre o risco de se transformar. Destarte, do trono real ao banco dos réus as pessoas mudam seus discursos e ações conforme o dimensionamento das cadeiras em que estão sentadas.

Há cadeiras de todo tipo, umas são cobiçadas, outras deixadas de lado. Daí as cadeiras agem através de pessoas as quais fazem de tudo para possuí-las ou repudiá-las. Nelas, decerto, estão implícitos e explícitos o que a pessoa é ou deixa de ser. Exemplos para falar do poderio das cadeiras não faltam. A cadeira do presidente da República é diferente da cadeira do “barnabé”, a do professor da do aluno, a do empresário da dos empregados. O objeto cadeira é o mesmo, todavia há inúmeras distinções semânticas entre essas cadeiras.

Cada cadeira tem o seu valor. É esse valor que as pessoas almejam. Isso é compreendido desde cedo. Na mais tenra idade uma das primeiras ações que os pais esperam dos filhos é poder se sentar. Daí logo vêm as cadeirinhas para isso ou para aquilo. A criança aprende onde pode se sentar e quem senta em tal lugar, ou seja, de quem são as cadeiras. A cadeira do pai ou da mãe está reservada à ponta da mesa, a do irmão mais velho de tal lado, a das visitas à disposição. Assim, desde os primeiros sentares se define quem é quem.

E o processo de socialização dos homens sobre a importância das cadeiras continua vida afora. Nas escolas e nas universidades, isto é, nos lugares dos saberes as cadeiras estão por todos os lados, vão das cátedras dos doutores às carteirinhas dos estudantes. O saber geralmente se adquire sentado. Todavia, nem todos têm condição de se sentar numa cadeira de escola, tampouco na de uma universidade, pois elas são contadas e só os mais aptos ou afortunados terão o privilégio de ocupá-las.

Por certo, é nas ocupações laborais que as cadeiras mais ganham altivez, que mais discriminam pessoas. Geralmente nos empregos de posições elevadas e dignificantes as pessoas trabalham bem sentadas, ao passo que naqueles considerados menos nobres ou mesmo desprezíveis, trabalham em pé. No mercado de trabalho a remuneração das pessoas vai subindo conforme o conforto das cadeiras que ocupam. Ademais, do patrão ao subordinado as cadeiras definem posições de mando e obediência.

Seja qual for o tempo, o lugar e o espaço as cadeiras apontam os que mandam. Não importa qual o regime político, se é democracia ou ditadura. Pouco importa também a religião, se é cristão ou judeu. Em qualquer desses exemplos, as primeiras cadeiras representam lugares de “status” e privilégios, mas, sobretudo, de acomodo dos que de fato têm o poder de mandar. A valoração das cadeiras não é apenas metáfora, pois os tronos dos reis, as cadeiras dos presidentes, as dos líderes religiosos são coisas reais e bem diferentes dos bancos dos súditos, dos cidadãos, dos fiéis.

Enfim, sentado em minha cadeira escrevi este texto não para criticar as cadeiras, mas o valor exorbitante que as pessoas atribuem a algumas delas. Sei muito bem que a depender do lugar onde o leitor esteja sentado talvez não concorde comigo. Mas independente disso, saiba que na luta pelos melhores lugares, a dança das cadeiras vai continuar tomando o inconsciente e formando o consciente das pessoas.     

 

Alexandre Pereira Rocha. É cientista político.

Mestre em Ciência Política (UnB)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Alexandre Rocha