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O
homem se distanciou de seus
ancestrais primatas não só pelo
fato de pensar sistematicamente,
mas também pelo ato de ficar em pé,
de andar sobre duas pernas. Pode
não parecer, mas a verticalidade
humana marcou uma passagem enorme
na escala evolutiva. Não é exagero,
portanto, dizer que o andar humano
na vertical é uma das
características que o difere de
outros animais. Nada obstante,
entre os humanos a despeito da
importância do ato de ficar em pé,
o que os distingue uns dos outros é
a ação de sentar.
O
andar é o que nos move, entretanto
o sentar é o que nos identifica. O
ato de andar é uma ação que procura
um lugar, e, geralmente, um lugar
para se sentar. Isso é tão
relevante que a posição das pessoas
em qualquer sociedade se define
pelo lugar onde elas sentam. Andar
pelas cidades, ruas, praças, enfim,
por aí é quase coletivo, porém se
sentar em certas localidades é só
para quem pode. Nesse sentido, os
lugares do sentar têm valores que
ultrapassam a cognição simbólica.
Com efeito, as cadeiras têm valor,
a despeito de quem nelas se sentam.
O
movimento das pessoas pode ser em
busca de outras pessoas, de
lugares, de empregos, de bens, de
saberes, mas tudo não passa de uma
busca incansável por cadeiras.
Afinal, é da cadeira que a pessoa
pode ou tem condição de se sentar
que ela se relaciona com outras
pessoas. Por isso, ao se sentar
numa certa cadeira qualquer pessoa
corre o risco de se transformar.
Destarte, do trono real ao banco
dos réus as pessoas mudam seus
discursos e ações conforme o
dimensionamento das cadeiras em que
estão sentadas.
Há
cadeiras de todo tipo, umas são
cobiçadas, outras deixadas de lado.
Daí as cadeiras agem através de
pessoas as quais fazem de tudo para
possuí-las ou repudiá-las. Nelas,
decerto, estão implícitos e
explícitos o que a pessoa é ou
deixa de ser. Exemplos para falar
do poderio das cadeiras não faltam.
A cadeira do presidente da
República é diferente da cadeira do
“barnabé”, a do professor da do
aluno, a do empresário da dos
empregados. O objeto cadeira é o
mesmo, todavia há inúmeras
distinções semânticas entre essas
cadeiras.
Cada
cadeira tem o seu valor. É esse
valor que as pessoas almejam. Isso
é compreendido desde cedo. Na mais
tenra idade uma das primeiras ações
que os pais esperam dos filhos é
poder se sentar. Daí logo vêm as
cadeirinhas para isso ou para
aquilo. A criança aprende onde pode
se sentar e quem senta em tal
lugar, ou seja, de quem são as
cadeiras. A cadeira do pai ou da
mãe está reservada à ponta da mesa,
a do irmão mais velho de tal lado,
a das visitas à disposição. Assim,
desde os primeiros sentares se
define quem é quem.
E o
processo de socialização dos homens
sobre a importância das cadeiras
continua vida afora. Nas escolas e
nas universidades, isto é, nos
lugares dos saberes as cadeiras
estão por todos os lados, vão das
cátedras dos doutores às
carteirinhas dos estudantes. O
saber geralmente se adquire
sentado. Todavia, nem todos têm
condição de se sentar numa cadeira
de escola, tampouco na de uma
universidade, pois elas são
contadas e só os mais aptos ou
afortunados terão o privilégio de
ocupá-las.
Por
certo, é nas ocupações laborais que
as cadeiras mais ganham altivez,
que mais discriminam pessoas.
Geralmente nos empregos de posições
elevadas e dignificantes as pessoas
trabalham bem sentadas, ao passo
que naqueles considerados menos
nobres ou mesmo desprezíveis,
trabalham em pé. No mercado de
trabalho a remuneração das pessoas
vai subindo conforme o conforto das
cadeiras que ocupam. Ademais, do
patrão ao subordinado as cadeiras
definem posições de mando e
obediência.
Seja
qual for o tempo, o lugar e o
espaço as cadeiras apontam os que
mandam. Não importa qual o regime
político, se é democracia ou
ditadura. Pouco importa também a
religião, se é cristão ou judeu. Em
qualquer desses exemplos, as
primeiras cadeiras representam
lugares de “status” e privilégios,
mas, sobretudo, de acomodo dos que
de fato têm o poder de mandar. A
valoração das cadeiras não é apenas
metáfora, pois os tronos dos reis,
as cadeiras dos presidentes, as dos
líderes religiosos são coisas reais
e bem diferentes dos bancos dos
súditos, dos cidadãos, dos fiéis.
Enfim, sentado em minha cadeira
escrevi este texto não para
criticar as cadeiras, mas o valor
exorbitante que as pessoas atribuem
a algumas delas. Sei muito bem que
a depender do lugar onde o leitor
esteja sentado talvez não concorde
comigo. Mas independente disso,
saiba que na luta pelos melhores
lugares, a dança das cadeiras vai
continuar tomando o inconsciente e
formando o consciente das
pessoas.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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