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Essa conversa sobre os urubus não é
nada nova. Lá pelos tempos de minha
infância eles também tomavam as
ruas e os céus de São Raimundo.
Relembro-me aqui de alguns
entreveros que tive com certos
urubus. Vou contar a história. Ela
não vai alterar os fatos tampouco
espantar os urubus, mas talvez mude
nosso jeito de ver as coisas.
Lá em casa se tinha o costume de
colocar um pedaço de carne para
secar ao sol, aí já da para
imaginar o que acontecia: chovia de
urubus. Alguém tinha que espantar a
urubuzada. Sobrava para mim.
Era sempre a mesma lengalenga,
fazendo se de despercebido eu
fingia não ouvir minha mãe dizer:
- Meu filho vá olhar a carne, vá
espantar os urubus.
- O que é mãe?
- Vá logo vigiar a carne que tá no
sol.
- Ah não mãe, pera aí.
Eu ficava injuriado com essa
função, afinal me atrapalhava ver
TV. Para tentar fazer as duas
coisas ao mesmo tempo, eu ficava
num pé e noutro, um pouco vendo TV
e outro correndo para o quintal.
Que diacho! Pior é que a urubuzada
só aparecia na melhor parte do “He-man”.
Geralmente dava para escutar o
barulho dos urubus pisando no
telhado, aí eu corria para
espantá-los. Porém de vez enquanto
eu dançava. Os danados já tinham
apanhado a carne. Não tinha mais
jeito era só encarar os resmungos
da mamãe e lamentar o bife perdido.
Isso me dava nos nervos. Dava
vontade de matar aquelas aves
desengonçadas. Porém percorria uma
história que matar urubu dá para lá
de sete anos de azar. Eu, meio
supersticioso, acreditava.
Inclusive tinha um amigo que
arriscou, tanto que certo dia
acertou uma pedrada num urubu em
pleno o voo. O bicho esticou as
canelas.
Segundo esse meu amigo, após a
morte do dito urubu ele viveu os
piores anos de sua infância e
pré-adolescência. Era azar que não
acabava mais. Verdade ou não essa
história, o fato é que esse amigo
era azarado. Pensa num cara
azarado. Por via das dúvidas eu não
matei urubu.
Todavia, certo dia bolei uma ideia.
Fiz um espantalho e o colocava
próximo à carne a ser vigiada.
Amarrava uma corda que ia do
quintal à sala, de onde eu ficava
refestelado no sofá e puxando-a de
vez em quanto. Isso dava a
impressão de movimento ao
espantalho. Funcionou por algum
tempo, mas depois os urubus, que
não são bobos, notaram que não
passava de um boneco.
Passou-se o tempo, foram-se meus
anos de infância e deixei São
Raimundo. Contudo, nas minhas idas
e vindas, lá estavam os urubus.
Como quase todo matuto que vai para
cidade grande, quando retorna para
sua terra volta meio besta, meio
metido. Passei achar estranho
aquela urubuzada sobre os telhados
das casas, nas ruas, revirando
latas de lixo.
Ficava impressionado, sobretudo
depois que fui morar em Brasília,
onde eu não via um urubu sequer.
Questionava-me: como pode ter tanto
urubu em São Raimundo? Não é
difícil sacar: só pode ser sujeira.
Ora, esgoto a céu aberto, lixo
pelas ruas, e para piorar um lixão
instalado no centro da cidade. Tudo
isso é um prato cheio para os
urubus.
Os urubus faziam a festa até que a
cidade passou a ter coleta regular
de lixo. Melhorou muito, mas não
resolveu. Os urubus não foram
embora. Aliás, não dava para ir
mesmo, o lixão continuava lá no
mesmo lugar. Para quê urubu vai
arriscar o pescoço pegando carniça
em beira de estrada se tem comida
farta na cidade.
Pelo que eu soube finalmente o
lixão saiu do centro da cidade. Já
não era sem tempo. Opa! Mas pelo
que saiu neste Portal a urubuzada
não se foi. Aqui já temos outro
problema, que talvez seja falta de
uma cultura de limpeza por parte de
alguns cidadãos. É comum se ver
lixo pelas ruas. Ademais, muitas
pessoas não respeitam o horário da
coleta.
Além da prefeitura, que é
responsável pela limpeza urbana,
não será também que tem muita gente
precisando fazer sua parte?
Com a
remoção do lixão do centro de São
Raimundo os urubus vão procurar
outro rumo. Vamos esperar porque
isso vai acontecer. Nada de atirar
pedras. Lembre-se: dá azar. No
entanto, é fato, enquanto alguns do
povo continuar jogando lixo pelas
ruas (ou quem sabe deixando carnes
secando ao sol), os urubus vão
ficando por aí.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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