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O objetivo é escrever sobre cidadania, democracia, políticas públicas, governos e eleições, e quiçá tantos outros temas.

Sou Alexandre Rocha, sanraimundense de coração, filho de sanraimundenses e morador por vários anos do bairro Gavião. Entretanto, agora resido em Brasília, mas não me esqueço de nossa cidade. Sempre quando posso trilho o caminho para esta terra adorável. Na Capital Federal conheci, estudei e apaixonei-me pela Ciência Política. Nessa mesma área conclui o curso de Mestrado. A Ciência Política é uma formação pouco conhecida em nossa região, por isso também tenho como propósito divulgá-la, e quem sabe despertar o interesse de pessoas por essa disciplina.

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A revolta dos urubus 

alxroch@yahoo.com.br


Essa conversa sobre os urubus não é nada nova. Lá pelos tempos de minha infância eles também tomavam as ruas e os céus de São Raimundo. Relembro-me aqui de alguns entreveros que tive com certos urubus. Vou contar a história. Ela não vai alterar os fatos tampouco espantar os urubus, mas talvez mude nosso jeito de ver as coisas.

 

Lá em casa se tinha o costume de colocar um pedaço de carne para secar ao sol, aí já da para imaginar o que acontecia: chovia de urubus. Alguém tinha que espantar a urubuzada. Sobrava para mim.

 

Era sempre a mesma lengalenga, fazendo se de despercebido eu fingia não ouvir minha mãe dizer:

 

- Meu filho vá olhar a carne, vá espantar os urubus.

 

- O que é mãe?

 

- Vá logo vigiar a carne que tá no sol.

 

- Ah não mãe, pera aí.

    - Hummmm! Minha mãe só fazia isso e o recado já estava dado. Era melhor obedecer.

Eu ficava injuriado com essa função, afinal me atrapalhava ver TV. Para tentar fazer as duas coisas ao mesmo tempo, eu ficava num pé e noutro, um pouco vendo TV e outro correndo para o quintal. Que diacho! Pior é que a urubuzada só aparecia na melhor parte do “He-man”.

 

Geralmente dava para escutar o barulho dos urubus pisando no telhado, aí eu corria para espantá-los. Porém de vez enquanto eu dançava. Os danados já tinham apanhado a carne. Não tinha mais jeito era só encarar os resmungos da mamãe e lamentar o bife perdido.

 

Isso me dava nos nervos. Dava vontade de matar aquelas aves desengonçadas. Porém percorria uma história que matar urubu dá para lá de sete anos de azar. Eu, meio supersticioso, acreditava. Inclusive tinha um amigo que arriscou, tanto que certo dia acertou uma pedrada num urubu em pleno o voo. O bicho esticou as canelas.

 

Segundo esse meu amigo, após a morte do dito urubu ele viveu os piores anos de sua infância e pré-adolescência. Era azar que não acabava mais. Verdade ou não essa história, o fato é que esse amigo era azarado. Pensa num cara azarado. Por via das dúvidas eu não matei urubu.

Todavia, certo dia bolei uma ideia. Fiz um espantalho e o colocava próximo à carne a ser vigiada. Amarrava uma corda que ia do quintal à sala, de onde eu ficava refestelado no sofá e puxando-a de vez em quanto. Isso dava a impressão de movimento ao espantalho. Funcionou por algum tempo, mas depois os urubus, que não são bobos, notaram que não passava de um boneco.

 

Passou-se o tempo, foram-se meus anos de infância e deixei São Raimundo. Contudo, nas minhas idas e vindas, lá estavam os urubus. Como quase todo matuto que vai para cidade grande, quando retorna para sua terra volta meio besta, meio metido. Passei achar estranho aquela urubuzada sobre os telhados das casas, nas ruas, revirando latas de lixo.

 

Ficava impressionado, sobretudo depois que fui morar em Brasília, onde eu não via um urubu sequer. Questionava-me: como pode ter tanto urubu em São Raimundo? Não é difícil sacar: só pode ser sujeira. Ora, esgoto a céu aberto, lixo pelas ruas, e para piorar um lixão instalado no centro da cidade. Tudo isso é um prato cheio para os urubus.

 

Os urubus faziam a festa até que a cidade passou a ter coleta regular de lixo. Melhorou muito, mas não resolveu. Os urubus não foram embora. Aliás, não dava para ir mesmo, o lixão continuava lá no mesmo lugar. Para quê urubu vai arriscar o pescoço pegando carniça em beira de estrada se tem comida farta na cidade.

 

Pelo que eu soube finalmente o lixão saiu do centro da cidade. Já não era sem tempo. Opa! Mas pelo que saiu neste Portal a urubuzada não se foi. Aqui já temos outro problema, que talvez seja falta de uma cultura de limpeza por parte de alguns cidadãos. É comum se ver lixo pelas ruas. Ademais, muitas pessoas não respeitam o horário da coleta.

 

Além da prefeitura, que é responsável pela limpeza urbana, não será também que tem muita gente precisando fazer sua parte?

 

Com a remoção do lixão do centro de São Raimundo os urubus vão procurar outro rumo. Vamos esperar porque isso vai acontecer. Nada de atirar pedras. Lembre-se: dá azar. No entanto, é fato, enquanto alguns do povo continuar jogando lixo pelas ruas (ou quem sabe deixando carnes secando ao sol), os urubus vão ficando por aí.  

Alexandre Pereira Rocha. É cientista político.

Mestre em Ciência Política (UnB)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Alexandre Rocha