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Lá está ela disposta na principal
avenida de São Raimundo, bem no
centro da cidade. Algumas listras
brancas sobre o asfalto irregular,
ainda meio incompreendida,
despercebida, desprezada, talvez.
Quando a avistei próximo ao Banco
do Brasil fiquei admirado. Tão
admirado que num ato espontâneo,
digo mecânico, quase levantei o
braço, mas me contive. Deveria
tê-lo feito!
Na verdade, como qualquer cidadão
sanraimundense tinha duas opções
para atravessar a avenida: esperava
os automóveis passarem ou saia
correndo entre eles. A faixa não
era ainda uma opção, mas uma
decoração. Digo isso para falar que
ela – a faixa de pedestre – não é
apenas uma figura para embelezar o
asfalto, porém um direito.
Como já disse outrora, vivo há
alguns anos em Brasília. Esta
cidade, capital de nosso país, foi
pioneira na implantação da faixa de
pedestre. Isso lá pelos anos 90.
Acompanhei esse processo. No
início, nem motoristas, nem
pedestres confiavam na faixa,
contudo com o passar do tempo o que
era apenas uma lei se tornou numa
tradição.
No começo a faixa era a lei que
obrigava os motoristas darem
passagem aos pedestres que
sinalizassem o desejo de atravessar
as vias. Foi uma revolução.
Transeuntes diante de uma faixa
apenas estendiam o braço e, pronto,
o trânsito parava. Mas nem tudo
foram flores. Muitos acidentes
aconteceram (e ainda acontecem),
pois alguns motoristas não paravam
e atropelamentos ocorriam.
Para que tais acidentes fossem
reduzidos e evitados, o governo do
Distrito Federal realizou diversas
campanhas de conscientização da
população. Agentes de trânsito
ficavam próximo às faixas dando
orientações e também penalizando os
motoristas inadvertidos. Isso
acontece até hoje. Nada obstante, o
respeito à faixa de pedestre já é
comum na Capital Federal.
É curioso. Normas de trânsito se
transformaram em traços culturais
da comunidade. Que traços são
estes? Urbanidade, cordialidade,
respeito à vida no trânsito. Mas
digo, são traços gerais, pois
acidentes acontecem o tempo todo.
Para superar essa dificuldade, é
preciso campanhas de
conscientização e, principalmente,
penalidade aos motoristas
infratores.
Na Capital Federal a lei que
institui a faixa de pedestre é
parte do cotidiano da população.
Aqui podemos dizer que a lei pegou.
Mas voltando ao caso de São
Raimundo. É meritória a iniciativa
de se adotar a faixa de pedestre.
Ademais, de organizar o trânsito de
nossa cidade. Os sanraimundenses
podem achar esquisito, mas já
passava da hora de se colocar o
assunto do trânsito em discussão.
Quão difícil era transitar pelas
ruas do centro. Carros, motos,
bicicletas, pedestres, animais
disputavam espaços de forma caótica
e desigual. Pior do que isso são os
freqüentes casos de desastres.
Quantas pessoas são vítimas de
acidentes de trânsito? Não temos
esses números, porém sabemos que
eles são preocupantes. Daí é
preciso discutir a questão do
trânsito em nossa cidade.
A faixa de pedestre pode ser boa
oportunidade para iniciar esse
debate. Ela é um direito do
cidadão, pois todos nós somos
pedestres. Contudo, para que a
faixa não seja apenas adereço,
fazem-se necessárias campanhas de
divulgação, informação e
conscientização do uso dela.
Pode-se aproveitar o gancho para
debater outros temas de trânsito,
como o uso de capacetes, cinto de
segurança, respeito aos pedestres,
limites de velocidade.
Não usei a faixa de pedestre quando
estive em São Raimundo. Prometo ser
diferente da próxima vez. Vou
estender o braço e “dar sinal de
vida”. Façam o mesmo amigos
sanraimundenses. Afinal, trata-se
de um gesto de parar o trânsito,
isso sem ser autoridade ou moça
bonita, sendo apenas cidadão.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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