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A
política é mesmo um campo estranho.
Personagens com um passado nada
ilibado, de um histórico corrupto,
de uma hora para outra pousam com
ares moralistas. Não sei com que
cara eles conseguem fazer isso, mas
é impressionante a capacidade de
adaptabilidade e sedução deles. É
muita cara-de-pau!
A
principal imagem da classe política
vem do legislativo, sobretudo do
Congresso Nacional. É fato o quanto
esta instituição basilar da
democracia tem sua imagem arranhada
no senso comum brasileiro. Tudo em
virtude dos sucessivos escândalos
de corrupção envolvendo
parlamentares. Mas mesmo assim, o
que se vê é que isso pouco importa.
Tanto faz para os políticos, pois o
que vale mesmo é a mantença do
poder.
A
escolha dos parlamentares que
compõem as mesas diretivas do
Congresso nos trouxe o curioso caso
do deputado dono de um castelo de
mais 25 milhões de reais. Apesar
dos indícios de enriquecimento
ilícito e do bafafá da imprensa, o
dono, o deputado Edmar Moreira, tem
tudo para rumar impunemente para o
seu castelo. Mas isso é fichinha
quando comparado à escolha do
ex-presidente da República,
Fernando Collor, para o comando da
comissão de infraestrutura do
Senado.
O
ex-presidente cassado por ter
institucionalizado a corrupção na
República brasileira, após
restituir seus direitos políticos,
volta à cena como senador. Isso,
por si só, já é revoltante. Porém,
como se não bastasse, agora ele foi
eleito por seus pares para presidir
a comissão que avalia as obras do
governo, como as do PAC, por
exemplo. É cômico. Não é trágico.
Um corrupto de carteirinha tem a
incumbência de fiscalizar, de
exigir o fiel cumprimento dos
recursos públicos.
Tudo
isso foi possível graças à
orquestração de outro senador
corrupto que há pouco tempo teve a
cara e o nome estampados nos
principais jornais e revistas do
país. É o senador Renan Calheiros.
Aquele das aventuras amorosas
custeadas com o dinheiro público.
Ele saiu dos holofotes, mas não
deixou de reinar. Ele não só
emplacou o Collor, mas antes disso,
já tinha articulado a eleição do
senador José Sarney para presidir o
Congresso. Bem ele, a fina casta da
oligarquia política.
Esses são alguns casos, entre
muitos outros, de políticos – que
apesar do passado corrompido (e do
presente) –, reassumem a dianteira
da política brasileira tendo à mão
o bastião da moralidade. É triste.
Tantos e tantos casos de corrupção
que não dão em nada. Escândalos que
foram exaustivamente explorados e
inflados pela imprensa, mas pouco
investigados pela polícia e
Ministério Público, e muito menos
punido pelo Judiciário. Pior. Muito
menos importância foi dada por
parte do povo, dos eleitores, que
continuamente reelege políticos
corruptos.
Como
isso é possível? Paira na cultura
brasileira a ideia de que a
política é corrupta. Não tem jeito.
Daí para maioria dos eleitores é
indiferente em quem se vota. Tudo é
farinha do mesmo saco. Por outro
lado, a classe política está se
lixando para o que é dito ao seu
respeito. A política, nestes
termos, só pode ser um campo
estranho. Parece mais um campo de
exceção, onde a moral e a virtude
são enviesadas. Ou seja, uma terra
imaginária, onde nem sempre o que é
de fato é, e o que não é pode ser.
Assim é a política. Não. Esta é
política à brasileira criada pela
esperteza de alguns e sustentada
pela ignorância de muitos. Os donos
do poder, não por acaso os
políticos corruptos, criaram a
política da exceção, onde o povo –
em sua maioria, alheio à vida
política –, é engabelado pelos
discursos polidos. Será? Nem
sempre. Na verdade, há um conluio.
O povo finge que acredita, desde
que tenha algo em troca. E os
políticos fazem de conta que visam
o bem comum, mas só pensam em si.
Esta é a lei da vantagem coletiva,
na qual o individualismo impera em
quaisquer circunstâncias.
A
política não é ruim. O problema não
é ela, mas as pessoas que a
desvirtuam. De um lado pelos
políticos que não se importam pela
pecha de corruptos. De outro, pelo
povo que se aliena completamente
dos assuntos públicos. Destarte, se
há políticos corruptos com
lustrosos caras-de-pau por aí, é
porque também há aqueles do povo
que passam óleo de peroba nas caras
deles.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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