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A
crise econômica se aprofunda. O
perigo de uma depressão
semelhante à da década de 1930
aterroriza países dos quatro cantos
do planeta. Bancos e empresas estão
falindo. O desemprego aumenta
vertiginosamente. O dinheiro não
circula, perde liquidez. Por mais
que se adotem os receituários
anticrise, os mercados não se
estabilizam. Em virtude disso, as
soluções para a crise estão sendo
cada vez menos econômicas e, cada
vez mais políticas.
Os
economistas, sobretudo os da
linhagem neoliberal e da Escola de
Chicago, estão frustrados e
escondidos nas suas alcovas ou
cátedras. Não foram capazes de
diagnosticar uma crise de proporção
tão avassaladora. As instituições
de doutrinação econômica, como o
Fundo Monetário Internacional (FMI)
e as agências de “rating” estão
desmoralizadas. Afinal, de pouco
adiantam se são incapazes de
antever os solavancos da economia.
Será
que era impossível prever a atual
crise econômica? Não. Esta crise é
sistêmica e, como uma grave doença,
já emitia sinais de que alguma
coisa estava errada. Mas não foi
por falta de avisos que os
mercados foram parar na UTI e hoje
respiram graças aos aportes
financeiros de cofres públicos.
Economistas, analistas financeiros,
acadêmicos, jornalistas, além de
diversas instituições
altermundialistas já prenunciavam o
perigo da bancarrota dos mercados.
Só que não lhes deram ouvidos.
Aliás, qualquer análise contrária à
autonomia da economia, à
auto-regulação dos mercados, ao
livre comércio, ao capitalismo
especulativo, era logo taxada de
retrograda e considerada visões de
socialistas ressentidos. A verdade
é que eclipsados pela especulação
financeira e pelo lucro fácil,
magnatas do capital não respeitaram
elementos mínimos de conduta
econômica. Em vez de liberalismo,
eles praticaram libertinagem na
esfera financeira. Pior. Muitos com
o aval de governos e de
tradicionais instituições
econômicas.
O
resultado é conhecido por todos. As
bases da principal economia
mundial, a dos Estados Unidos,
estavam corroídas. Milhões de
dólares em créditos podres,
empresas e bancos com balanços
maquiados, pilhas de hipotecas sem
valor, tudo fazia parte de uma
ciranda financeira sustentada
apenas pela especulação. De
concreto quase nada. Daí ao menor
rumor de que isso poderia ruir, os
especuladores entraram em frenesi.
E lá se foram os mercados para uma
das piores crises econômicas da
história.
A
crise não é mais só econômica, pois
já é de todo o sistema capitalista.
Ora, o capitalismo passa por
questionamentos. Confronta-se não
mais diretamente com outro sistema,
como ocorreu outrora no embate com
o socialismo. Contudo, defronta-se
com ele mesmo. A crise atual é do
capitalismo contra suas próprias
doutrinas, sobretudo as de cunho
neoliberal. Ao pregar o mínimo de
Estado, o capitalismo perdeu seu
sustentáculo. É fato. A economia
precisa de Estados fortes para
garantir a plenitude dos mercados.
Diante dessas considerações, tanto
no Fórum Econômico Mundial de Davos,
quanto no Social Mundial de Belém,
discutiu-se para onde vai o sistema
capitalista. Há capitalismo
desprovido de neoliberalismo? Há
outro mundo possível? Para os
empedernidos de Davos, apesar da
crise, os elementos valiosos do
livre comércio e do livre mercado
são intocáveis. Para os idealistas
de Belém é hora de consolidar a
ideia altermundialista de um mundo
voltado para os valores humanos,
não só para os mercados.
A
despeito das vias a serem seguidas
para superar a crise econômica, são
necessárias decisões políticas que
envolvam governos de países nos
mais variados estágios de
desenvolvimento. As imposições
unilaterais das potências já não
acomodam as demandas de
participação dos países. As
decisões, portanto, devem ser
multilaterais, cooperativas e
democráticas. Ademais, decisões
sensatas que não trilhem para o
estatismo irracional nem para o
liberalismo irresponsável. Daí
fóruns e outros encontros de
líderes mundiais deveriam
sobrelevar a importância de
decisões políticas compartilhadas,
as quais respeitem as diversidades
econômicas e sociais.
É difícil encontrar meio termo
entre as ideologias políticas e
econômicas. Contudo, boa dica é
saber que: “o essencial da política
é econômico e o grosso da economia
é político”. Desse modo, para
aplacar a crise mundial – a vez
pode até ser da política –, mas as
decisões políticas serão inócuas
caso não resultem em positivas
modificações no ordenamento
econômico.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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