.:":.Portal Sanraimundense.:":. - Entretenimento e Informação.

 

.

O objetivo é escrever sobre cidadania, democracia, políticas públicas, governos e eleições, e quiçá tantos outros temas.

Sou Alexandre Rocha, sanraimundense de coração, filho de sanraimundenses e morador por vários anos do bairro Gavião. Entretanto, agora resido em Brasília, mas não me esqueço de nossa cidade. Sempre quando posso trilho o caminho para esta terra adorável. Na Capital Federal conheci, estudei e apaixonei-me pela Ciência Política. Nessa mesma área conclui o curso de Mestrado. A Ciência Política é uma formação pouco conhecida em nossa região, por isso também tenho como propósito divulgá-la, e quem sabe despertar o interesse de pessoas por essa disciplina.

Veja no site da UNB  | No Portal SRN 

j


Por transições sem destruição

alxroch@yahoo.com.br


Sufragado o resultado das eleições municipais de 2008, iniciou-se processo de transição, cujo objetivo é preparar os aparatos da administração pública para os novos gestores. A continuidade é requisito indispensável durante a transição, pois a finalidade das eleições não é fraturar o serviço público, mas torná-lo democrático. Todavia, em alguns municípios do Estado do Piauí a transição mais pareceu momentos de destruição.

 

Vários dos novos prefeitos piauienses empossados neste início de ano não encontraram sequer a cadeira de prefeito. Prédios depredados, documentos surrupiados, maquinários sucateados, salários funcionais atrasados, contas públicas deficitárias fazem parte do rol da destruição. O objetivo desses atos são desconstituir quaisquer provas de maracutaias e inviabilizar o trabalho do sucessor.

 

É triste. Certos prefeitos que não se reelegeram nem confirmaram seus sucessores realizaram atos de vandalismos contra o patrimônio público. Imbuídos de espírito de revolta se vingaram destruindo bens públicos como se deles fossem donos. Numa cena vergonhosa o interesse público sucumbe ao poder privado. Isso porque os donos do poder não são coisas imaginárias da obra de Raymundo Faoro. Pelo contrário. Eles existem e não aceitam deixar o poder, mesmo que seja a regra democrática. 

O porquê dessa revolta? Não adianta tapar o sol com a peneira. A verdade é que isso acontece porque ainda em muitos municípios piauienses oligarquias políticas ditam as regras com mão-de-ferro. Semelhante a dinastias, elas se julgam proprietárias incondicionais dos bens públicos. Portanto, elas não admitem que outras pessoas que não sejam de suas linhagens ou castas venham assumir o poder. A revolta é porque as oligarquias se sentem traídas pelo povo.

A democracia é um jogo arriscado e custoso para as oligarquias, pois para continuarem no poder têm que cada vez mais despender recursos. Não é à toa que as eleições brasileiras são tão caras, tanto que as de 2008 custaram pelo menos R$ 2,43 bilhões.  Assim dificilmente alguém se elege com pouco dinheiro. Em muitos rincões do Brasil afora escassos de recursos e leis, o voto tem preço. Pode ser uma cesta-básica, um emprego, um caixão. Daí as oligarquias não vencem eleições, elas compram. Por isso que se julgam donas do poder.

A consolidação da democracia vem afrouxando as rédeas do voto de cabresto. O fato de o voto ser secreto possibilita aos cidadãos escolherem livremente seus representantes, a despeito das pressões políticas. Todavia, em municípios com eleitorado reduzido não é tão difícil controlar e comprar os votos. A democracia não libertou todos os cidadãos brasileiros das amarras dos donos do poder, pois os grilhões que os prendem não são só políticos, mas, sobretudo, econômicos e sociais. As oligarquias têm dinheiro e prestígio, logo se impõem ao eleitorado.  

Desde os tempos coloniais de nossa história a política é bom negócio para as oligarquias. É através da política que elas se apossam dos recursos públicos. Em nosso Piauí, bem como alhures é com o dinheiro dos cofres municipais que muitos prefeitos bancam suas boas vidas. É assim que eles formam seus filhos, adquirem fazendas, carros luxuosos e, principalmente, compram votos. Conseguintemente o dinheiro público nunca é suficiente para melhorar as escolas, os hospitais, as vias públicas, porquanto é continuamente desviado por oligarquias sempre insaciáveis de benesses.

Decerto os prefeitos revoltos que destruíram o patrimônio público de muitos municípios piauienses são séqüitos de oligarquias. Como exemplo, cita-se o ocorrido no município de Bonfim do Piauí. Como foi noticiado pela imprensa, lá o ex-prefeito operou destruição sem igual. Além de governar irresponsavelmente, no processo de transição ele depredou dolosamente os bens municipais. A população está aterrorizada e o novo prefeito sem condições estruturais para iniciar o governo.

É preciso punir urgentemente os destruidores do patrimônio público, pois a impunidade é o elixir que nutre os corruptos. Por fim, enquanto as transições não respeitarem o princípio da continuidade, muitos cidadãos piauienses não conhecerão de fato o sentido da democracia.

 

Alexandre Pereira Rocha. É cientista político.

Mestre em Ciência Política (UnB)

  Página Inicial | Comente esta matéria | Imprimir | Painel de Notícias | Topo

Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Alexandre Rocha