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Antes de deixar a Prefeitura o clã
Ferreira dá a uma última cartada.
Cobrar retroativos trabalhistas
referentes aos anos de labor da
Primeira-Dama, de fato é algo
absurdo. Parece até piada. Diga-se
de passagem, uma piada de muito mau
gosto. Mas não é. Trata-se de caso
verdadeiro, com defesa advocatícia,
protocolo na justiça e tudo mais.
Por convicção político-partidária,
eu pretendia não mais focar meus
debates sobre a família-poder. Há
tempos, alguns leitores, chegaram a
cogitar que meu embate era despeito
pessoal. Não é nada disso. Não
tenho nada contra as pessoas da
família-poder. Só não pactuo com a
forma personalista que eles exercem
as funções públicas. É uma visão
política. Nada mais.
Como eles perderam as eleições
municipais, acredito que um dos
meus propósitos de mudança política
foi alcançado. Pronto! Agora está
tudo esquecido e perfeito? É claro
que não. O passado vai continuar
trazendo conseqüências negativas,
bem como o presente precisa ser
construído com todo cuidado e
atenção.
Quero dizer que os arroubos
administrativos do passado
limitarão as ações presentes e
futuras da próxima gestão, ou seja,
do governo Herculano. Como tinha
dito, pretendia não mais versar
tanto sobre a família-poder. Afinal
de contas as eleições passaram e
eles perderam. Achava conveniente
virar essa página. Mas caros
leitores, confesso que me enganei.
As eleições passaram e eles
perderam. Até aí tudo bem. Só que
eles não estão “mortos”. Pelo
contrário, estão bem vivos, com
suas falas mansas, com seus olhos
abertos e com suas mãos ágeis. Daí
que a ação trabalhista da
Primeira-Dama não é um ato de
desespero de quem perdeu a
Prefeitura, mas uma estratégia
pérfida de quem quer comprometer a
gestão futura.
Olhem bem! Caso essa ação
trabalhista avance (e em nosso
Judiciário quem tem bons advogados
e amigos leva vantagem), o próximo
prefeito, Padre Herculano, terá um
enorme abacaxi nas mãos. Ora, se a
Prefeitura for executada
judicialmente de forma
irrecorrível, ele terá que pagar.
Ache ele e a população
sanraimundense justo ou não. Pois,
ordem judicial não se discute.
Cumpre.
Assim sendo, de duas, uma. Se o
Padre Herculano não pagar terá fama
de mal pagador e problemas com a
justiça. Isso é um prato cheio para
as bravatas dos opositores, para o
fã clube do antigo regime. Se pagar
ele vai comprometer o caixa do
município, além de premiar a
família-poder com mais de 200 mil
reais. Isso é uma cartada de quem
conhece o jogo político.
Embora o responsável pela má gestão
e pelos débitos passados seja o
prefeito da época, quem vai pagar a
conta é a Prefeitura, independente
de quem esteja no comando. O
dinheiro vai sair do cofre público,
ou seja, do bolso dos contribuintes
sanraimundenses. Aqui mora outro
detalhe. A badalada ação é um ás e
tanto na manga da família-poder.
A ação trabalhista da Primeira-Dama
existe. É um fato. A Prefeitura
poderá contestá-la, e, certamente,
recorrer. Vamos imaginar que o
Padre Herculano, como prefeito,
recorra dessa ação. Vamos supor que
ele conclua seu mandato sem ter que
pagá-la. Vamos supor que ele se
eleja novamente e continue sem ter
que pagar a dita ação. E assim vai.
Entra prefeito e sai prefeito e a
ação correndo.
Num cenário otimista, vamos supor
que a família-poder fique vinte
anos fora do comando da Prefeitura.
Só que um dia eles podem voltar
pelas urnas. É possível que isso
aconteça. Daí eles assumem o poder
e se deparam com velhas pendências
judiciais sendo cobradas,
inclusive, a ação trabalhista da
pretérita Primeira-Dama. Bingo! Uma
fortuna em indenização tem que ser
paga a um integrante da
família-poder e eles estão com a
chave do cofre da Prefeitura.
Essa ação trabalhista da
Primeira-Dama, portanto, serve aos
propósitos políticos e pessoais da
família-poder. De um lado, ela
busca tumultuar a futura gestão
Herculano. De outro, pode angariar
uma boa soma em reais à custa do
povo sanraimundense. Ademais, se a
Primeira-Dama pode requerer seus
direitos trabalhistas, quanto mais
os inúmeros servidores que até fome
passaram nas gestões da
família-poder.
Daqui para frente é bom imaginarmos
como será a próxima gestão. É bom
participarmos e exigirmos do
governo medidas eficazes,
eficientes, efetivas e equitativas.
No entanto, em se tratando de
política, antes de virarmos
qualquer página, é bom nos atermos
às entrelinhas. Afinal, é
justamente aqui que se subscreve
essa ação trabalhista da
Primeira-Dama, nas entrelinhas da
política.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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