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O objetivo é escrever sobre cidadania, democracia, políticas públicas, governos e eleições, e quiçá tantos outros temas.

Sou Alexandre Rocha, sanraimundense de coração, filho de sanraimundenses e morador por vários anos do bairro Gavião. Entretanto, agora resido em Brasília, mas não me esqueço de nossa cidade. Sempre quando posso trilho o caminho para esta terra adorável. Na Capital Federal conheci, estudei e apaixonei-me pela Ciência Política. Nessa mesma área conclui o curso de Mestrado. A Ciência Política é uma formação pouco conhecida em nossa região, por isso também tenho como propósito divulgá-la, e quem sabe despertar o interesse de pessoas por essa disciplina.

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Soluções para crise, de Keynes a Friedman

alxroch@yahoo.com.br


A economia capitalista mundial passa por mais outra crise. Entretanto, isso não é um defeito desse sistema econômico. Pelo contrário, é sua principal característica, senão virtude. No capitalismo financeiro-liberal as crises são cíclicas e funcionam como uma espécie de válvula de escape. Num momento de alta ebulição dos mercados, como é o que se vive hoje, a válvula se abre. Os créditos sem valor e as perdas financeiras são jogados para fora do sistema para que este se preserve. Daí, uma vez sanada as deficiências, o sistema se recompõe. Mas muita sujeira fica pelo caminho.

Os Estados são intimados para limpar a sujeira. Só que não é todo tipo de sujeira que merece higienização. A globalização, ao mesmo tempo em que produz desenvolvimento potencializa a miséria. O capitalismo selvagem gera desigualdades, mas para isso não é exigível a intervenção do Estado. Agora para alienar trilhões de dólares em créditos podres – frutos de especulações e do desatino de organizações privadas –, o grupo dos países mais desenvolvidos, o G7, se reúne às pressas. Por certo, os prejuízos não serão debitados do mercado, mas de fontes públicas. Não é à toa que se passa a idéia que a crise é global e responsabilidade de todos, inclusive dos países que estão à margem do desenvolvimento.

A atual crise econômica do capitalismo não é apenas uma anormalidade dos subprimes norte-americanos, da falência de organizações, do vaivém de commodities e ações pelo mundo afora, enfim de bancarrota dos mercados financeiros. Ela é, sobretudo, uma crise de idéias. A era da Guerra Fria colocou em lados opostos as doutrinas capitalistas e socialistas. O socialismo por incongruências e não saber lidar com as crises se perdeu nos labirintos da história. Já o capitalismo se adaptou as crises. Como isso foi possível? Ao contrário do socialismo, que se agarrou a rigidez de um marxismo mal interpretado, o capitalismo se utiliza de várias idéias.

Nos Estados Unidos – propulsor da economia de livre mercado – a área econômica, por exemplo, tem como mirante especialmente as idéias de John Maynard Keynes e de Milton Friedman. Ambos foram intelectuais de grande envergadura que marcaram as ciências econômicas e influenciaram governos do hemisfério norte ao sul, de ricos a pobres, de democracia a ditaduras. Daí as rédeas do capitalismo passam justamente por medidas heynesianas ou friedmanianas. Por conseqüência, é no oscilar dessas idéias que funciona a válvula de escape do capitalismo global.  

As idéias defendidas pelo economista Keynes retiraram os norte-americanos de uma forte depressão econômica. Na crise de 1929, Keynes propôs que o Estado fomentasse o mercado débil, ofertasse emprego e realizasse programas sociais. O resultado foi um reaquecimento da economia e uma era de progresso, a qual superou as duas Guerras Mundiais e alçou os Estados Unidos a potência hegemônica. Contudo, as crises se repetiram e a instituição Estado entrou em solvência, sobretudo nas décadas de 1980 e 1990. À época o mercado já tinha fôlego próprio, mas faltava ainda o desquite das políticas estatais. Ressurge aí as idéias de livre mercado, do laissez-faire.

Inicia-se o período do neoliberalismo, cujo guru foi o professor Friedman. Para ele todas as regras que se interpunham no caminho da acumulação de lucros deveriam ser abolidas. Muita das deficiências do mercado são conseqüências das interferências do Estado. É preciso se livrar delas e as crises são momentos adequados para tal feito. Nas crises, governos e sociedades, estão mais vulneráveis e suscetíveis a mudanças. Daí a cada abalo econômico crescia o dogma de que quanto mais livre for o mercado mais ele será eficiente. Essas idéias ganharam adeptos nos países centrais do capitalismo, Estados Unidos e Inglaterra, e foram impostas a outros países via ações do Fundo Monetário Internacional. É nessa doutrina que se baseiam as organizações do mercado especulativo, e são elas é que dão as cartas na economia mundial.     

A crise parece não ter nenhuma lógica. É difícil encontrar justificativas para a falência de organizações e o brusco sobe-e-desce das bolsas de valores, pois há pouco tempo produziam ativos altamente rentáveis. O mercado está fora de controle. Para conter essa situação, a mão invisível, símbolo maior do liberalismo clássico, cedeu lugar para o pulso firme do Leviatã. Chegou-se ao consenso de que o mercado precisa de alguma regulação? O Estado é o ator e o instrumento adequado? Não se sabe ainda. O embate entre uma intervenção responsável e o pleno liberalismo dos mercados continua. Alguns defendem a fiscalização da economia por parte do Estado. Outros, retirar as últimas ferramentas de regulamentação. As soluções para crise sairão da queda de braço entre seguidores das idéias de Keynes e Friedman.

Até agora governos dos Estados Unidos, dos países da Comunidade Européia, entre outros acenam para disponibilidade de cifras vultosas dos cofres públicos para quitar disparates do setor privado. É idiossincrático. Políticas de auxílio financeiro para o resgate de organizações quase falidas – isto é, verdadeiras estatizações – estão sendo realizadas pelos países de economias mais liberais. Isso acontece porque o capitalismo é liberal no que lhe é conveniente, mas é muito bem socialista no que lhe é prejudicial. Assim, hoje os Estados bancam os calotes de organizações endividadas. Posteriormente as repassarão para o mercado quando forem lucrativas.  

A presente crise econômica não é tão diferente das outras. É assustadora porque o epicentro dela está justamente nos Estados Unidos. Ou seja, na locomotiva do capitalismo. Mas por pior que seja a crise, ela vai passar. As idéias de Keynes ressurgem nesses momentos de turbulência. Contudo, na bonança são as de Friedman que prevalecem. Assim, enquanto existir idéias e Estado para abonar a doutrina de privatizar os lucros e socializar os prejuízos, o capitalismo financeiro seguirá seu rumo, a despeito dos entulhos deixados pelo caminho.

 

Alexandre Pereira Rocha. É cientista político.

Mestre em Ciência Política (UnB)

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