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A
economia capitalista mundial passa
por mais outra crise. Entretanto,
isso não é um defeito desse sistema
econômico. Pelo contrário, é sua
principal característica, senão
virtude. No capitalismo
financeiro-liberal as crises são
cíclicas e funcionam como uma
espécie de válvula de escape. Num
momento de alta ebulição dos
mercados, como é o que se vive
hoje, a válvula se abre. Os
créditos sem valor e as perdas
financeiras são jogados para fora
do sistema para que este se
preserve. Daí, uma vez sanada as
deficiências, o sistema se
recompõe. Mas muita sujeira fica
pelo caminho.
Os
Estados são intimados para limpar a
sujeira. Só que não é todo tipo de
sujeira que merece higienização. A
globalização, ao mesmo tempo em que
produz desenvolvimento potencializa
a miséria. O capitalismo selvagem
gera desigualdades, mas para isso
não é exigível a intervenção do
Estado. Agora para alienar trilhões
de dólares em créditos podres –
frutos de especulações e do
desatino de organizações privadas
–, o grupo dos países mais
desenvolvidos, o G7, se reúne às
pressas. Por certo, os prejuízos
não serão debitados do mercado, mas
de fontes públicas. Não é à toa que
se passa a idéia que a crise é
global e responsabilidade de todos,
inclusive dos países que estão à
margem do desenvolvimento.
A
atual crise econômica do
capitalismo não é apenas uma
anormalidade dos subprimes
norte-americanos, da falência de
organizações, do vaivém de
commodities e ações pelo mundo
afora, enfim de bancarrota dos
mercados financeiros. Ela é,
sobretudo, uma crise de idéias. A
era da Guerra Fria colocou em lados
opostos as doutrinas capitalistas e
socialistas. O socialismo por
incongruências e não saber lidar
com as crises se perdeu nos
labirintos da história. Já o
capitalismo se adaptou as crises.
Como isso foi possível? Ao
contrário do socialismo, que se
agarrou a rigidez de um marxismo
mal interpretado, o capitalismo se
utiliza de várias idéias.
Nos Estados Unidos –
propulsor da economia de livre
mercado – a
área econômica, por exemplo, tem
como mirante especialmente as
idéias de
John Maynard
Keynes e de Milton
Friedman. Ambos foram intelectuais
de grande envergadura que marcaram
as ciências econômicas e
influenciaram governos do
hemisfério norte ao sul, de ricos a
pobres, de democracia a ditaduras.
Daí as rédeas do capitalismo passam
justamente por medidas heynesianas
ou friedmanianas. Por conseqüência,
é no oscilar dessas idéias que
funciona a válvula de escape do
capitalismo global.
As idéias defendidas
pelo economista Keynes retiraram os
norte-americanos de uma forte
depressão econômica. Na crise de
1929, Keynes propôs que o Estado
fomentasse o mercado débil,
ofertasse emprego e realizasse
programas sociais. O resultado foi
um reaquecimento da economia e uma
era de progresso, a qual superou as
duas Guerras Mundiais e alçou os
Estados Unidos a potência
hegemônica. Contudo, as crises se
repetiram e a instituição Estado
entrou em solvência, sobretudo nas
décadas de 1980 e 1990. À época o
mercado já tinha fôlego próprio,
mas faltava ainda o desquite das
políticas estatais. Ressurge aí as
idéias de livre mercado, do
laissez-faire.
Inicia-se o período
do neoliberalismo, cujo guru foi o
professor Friedman. Para ele todas
as regras que se interpunham no
caminho da acumulação de lucros
deveriam ser abolidas. Muita das
deficiências do mercado são
conseqüências das interferências do
Estado. É preciso se livrar delas e
as crises são momentos adequados
para tal feito. Nas crises,
governos e sociedades, estão mais
vulneráveis e suscetíveis a
mudanças. Daí a cada abalo
econômico crescia o dogma de que
quanto mais livre for o mercado
mais ele será eficiente. Essas
idéias ganharam adeptos nos países
centrais do capitalismo, Estados
Unidos e Inglaterra, e foram
impostas a outros países via ações
do Fundo Monetário Internacional. É
nessa doutrina que se baseiam as
organizações do mercado
especulativo, e são elas é que dão
as cartas na economia mundial.
A crise
parece não ter nenhuma lógica. É
difícil encontrar justificativas
para a falência de organizações e o
brusco sobe-e-desce das bolsas de
valores, pois há pouco tempo
produziam ativos altamente
rentáveis. O mercado está fora de
controle. Para conter essa
situação, a mão invisível,
símbolo
maior do liberalismo clássico,
cedeu
lugar para o pulso firme do Leviatã.
Chegou-se ao consenso de que o
mercado precisa de alguma
regulação? O Estado é o ator e o
instrumento adequado? Não se sabe
ainda. O embate entre uma
intervenção responsável e o pleno
liberalismo dos mercados continua.
Alguns defendem a fiscalização da
economia por parte do Estado.
Outros, retirar as últimas
ferramentas de regulamentação. As
soluções para crise sairão da queda
de braço entre seguidores das
idéias de Keynes e Friedman.
Até
agora governos dos Estados Unidos,
dos países da Comunidade Européia,
entre outros acenam para
disponibilidade de cifras vultosas
dos cofres públicos para quitar
disparates do setor privado. É
idiossincrático. Políticas de
auxílio financeiro para o resgate
de organizações quase falidas –
isto é, verdadeiras estatizações –
estão sendo realizadas pelos países
de economias mais liberais. Isso
acontece porque o capitalismo é
liberal no que lhe é conveniente,
mas é muito bem socialista no que
lhe é prejudicial. Assim, hoje os
Estados bancam os calotes de
organizações endividadas.
Posteriormente as repassarão para o
mercado quando forem lucrativas.
A
presente crise econômica não é tão
diferente das outras. É assustadora
porque o epicentro dela está
justamente nos Estados Unidos. Ou
seja, na locomotiva do capitalismo.
Mas por pior que seja a crise, ela
vai passar. As idéias de Keynes
ressurgem nesses momentos de
turbulência. Contudo, na bonança
são as de Friedman que prevalecem.
Assim, enquanto existir idéias e
Estado para abonar a doutrina de
privatizar os lucros e socializar
os prejuízos, o capitalismo
financeiro seguirá seu rumo, a
despeito dos entulhos deixados pelo
caminho.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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