.:":.Portal Sanraimundense.:":. - Entretenimento e Informação.

 

.

O objetivo é escrever sobre cidadania, democracia, políticas públicas, governos e eleições, e quiçá tantos outros temas.

Sou Alexandre Rocha, sanraimundense de coração, filho de sanraimundenses e morador por vários anos do bairro Gavião. Entretanto, agora resido em Brasília, mas não me esqueço de nossa cidade. Sempre quando posso trilho o caminho para esta terra adorável. Na Capital Federal conheci, estudei e apaixonei-me pela Ciência Política. Nessa mesma área conclui o curso de Mestrado. A Ciência Política é uma formação pouco conhecida em nossa região, por isso também tenho como propósito divulgá-la, e quem sabe despertar o interesse de pessoas por essa disciplina.

Veja no site da UNB  | No Portal SRN 

j


Jogo político

alxroch@yahoo.com.br


A política pode ser definida como a arte de quem ganha o quê, quando, onde e como. Ou seja: é um jogo onde vários atores disputam os recursos públicos, que por natureza são escassos, enquanto as demandas são crescentes. Daí para assegurar vantagens é comum entre os políticos – independente da prevalência do bem público –, a prática de ações duvidosas, tais como barganhas, favoritismos e conchavos. Como fica o cidadão neste jogo?

No regime democrático a vontade do cidadão é o elemento supremo. Tanto é assim que a Constituição cidadã de 1988 prescreve: todo poder emana do povo. Portanto, no jogo político, o principal beneficiário é o povo. Mas infelizmente não é bem isso que acontece. Na verdade, muita das vezes, as demandas do povo são deixadas de lado. A política acaba servindo para o alcance de interesses nada públicos.

O período eleitoral é apropriado para ver como são dadas as cartas no jogo político. A participação de muitos financiadores está diametralmente relacionada aos ganhos que se pode obter. Financiador não é só aquele investe dinheiro, mas todo aquele que aposta e se dispõe a trabalhar nas campanhas. Aqui entram partidos políticos, correligionários, empresários, organizações, pessoas. Isso não é ruim, desde que o empenho seja voltado para o bem coletivo, não para satisfação dos próprios interesses.

Nas eleições os políticos fazem de tudo para conquistar o apoio do povo, mas passado o pleito eles se esforçam mais ainda é para acomodar os interesses dos financiadores. O apoio deles nas campanhas se converte em cargos, prebendas e participação no governo. Nisso a vontade do eleitorado fica em segundo plano. Em primeiro lugar é preciso saciar a sede dos financiadores, senão governar ou legislar se torna uma missão quase impossível. O político é capturado pelos financiadores. Daí surge relações obscuras e clientelistas, inclusive corruptas. 

A política deveria seguir a conexão eleitoral na qual o eleitor vota e o reflexo desse ato manifesta-se nos resultados do processo político. Uma relação do tipo eleitor, representante e política pública. Entretanto, ela não é linear. Ora, há diversas instâncias separando os anseios do eleitorado da efetiva ação do governo. Parece existir uma espécie de caixa preta, onde só entra ou conhece quem faz parte do mundo da política. Ao cidadão comum, que só participa do processo político quando vota, cabe ficar esperando a definição de um jogo do qual ele não atua ativamente.  

O cidadão comum e alheio aos eventos políticos não é só alijado do jogo. Pior. Ele é uma peça manejada de acordo com as conveniências dos jogadores. Na política grupos organizados, influentes e informados conseguem maiores recursos. Não é à toa que, pelo lobby, grandes empresas, movimentos, sindicatos, associações impõem seus pleitos com facilidade. Por outro lado, o povo amorfo, desprovido e sem rosto só tem suas demandas assistidas quando estas não colidem nem obstruem as dos jogadores.      

Para o político a escolha de uma política pública em sintonia com seus eleitores se dá apenas quando ele percebe que o seu voto contrário envolve risco eleitoral. É fato. Escolhas contrárias às pretensões dos eleitores, se um dia sofrerem punições, só ocorrerá nas eleições de quatro em quatro anos. Por sua vez decisões não-favoráveis aos financiadores podem ser punidas por eles a qualquer tempo. A lógica do político é apaziguar os financiadores, cujo perigo de insatisfação é imediato. Destarte, o elo entre eleitor e o representante eleito é insuficiente para definir as políticas públicas.

A depender de quem são os políticos e os seus financiadores, dificilmente o bem público será assistido. Para entender como funciona a política, ou seja, como se dão as escolhas públicas, é preciso visualizar as regras do jogo e os jogadores. Ademais, antes que qualquer demanda pública se torne uma ação governamental, ela deve se adequar as regras e passar pelas mãos dos jogadores. Por certo, a presença dessas vicissitudes é o grau que o governo se afasta da provisão de bens e serviços tão caros à sociedade.

Pelo visto o cidadão não tem vez no jogo político. Isso ocorre porque o cidadão tem sua participação limitada ao período eleitoral. É lógico. Quem pouco participa, pouco sabe jogar. Para que o placar se reverta em prol dos cidadãos, eles devem deixar de ser meros espectadores.  Na democracia o jogo político não deve ser privilégio de poucos, mas algo aberto, transparente e participativo. É preciso participar desse jogo. Porquanto só com incremento efetivo dos cidadãos a política deixará de ser um jogo de cartas marcadas.

 

Alexandre Pereira Rocha. É cientista político.

Mestre em Ciência Política (UnB)

  Página Inicial | Comente esta matéria | Imprimir | Painel de Notícias | Topo

Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Alexandre Rocha