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É interessante saber o porquê se
vota num candidato. O eleitor comum
nem sempre faz suas escolhas
buscando o melhor. É fato. Às vezes
a escolha do candidato decorre
muito mais dos favores que ele pode
ofertar do que sua capacidade.
O assunto do momento é a eleição
municipal. Também não poderia
deixar de ser. Poucas vezes o
cenário eleitoral sanraimundense
foi tão incerto. Fala-se de
política nas casas, nas ruas, nos
comércios, nas escolas, nas
igrejas.
Assim sendo, estava eu numa roda de
conversa na casa de parentes. Lá
pelas tantas o papo enveredou pela
política. As pessoas presentes
manifestavam suas preferências
partidárias. Tinha gosto pra tudo.
No meio do falatório certo debate
me chamou mais atenção. Um dos
interlocutores dizia o porquê não
votava no Padre Herculano e outro o
porquê votava nele.
Achei o debate interessante e quero
compartilhá-lo com vocês.
– Eu não voto no Padre porque ele
não tem representante na cidade.
Quando a gente ou um parente nosso
adoece a gente pede socorro aos
Ferreiras, aos Castros. O Padre não
ajuda.
Neste instante um outro prosador
levanta a voz e diz:
– E você só pensa na doença. Quer
ficar doente pra ir pedir ajuda aos
políticos. Eu penso é na saúde pra
não depender deles. Deus é que nos
ajuda de verdade.
A conversa ficou meio tensa. Não só
porque os eleitores tinham
preferências partidárias
diferentes. Mas porque tinha ali
duas formas distintas de se
perceber a política. Fiquei em
silencio. A contenda seguiu.
– Você fala assim porque nunca
precisou de ajuda. Deixa um parente
seu ficar doente.
– Rapaz tem muita gente que vai lá
pedir ajuda, mas não precisa. Tá é
acostumado a ficar pedindo em vez
de ele mesmo tomar atitude. Eu que
não fico me humilhando pra
político.
– Eu não voto no Padre porque sei
se um parente meu morrer nem
adianta ir falar com ele sobre
caixão. Ele não ajuda. É um
miserável.
– Vou te contar um ocorrido. Assim
que o Padre se elegeu prefeito
faleceu uma tia minha lá do Pau
Preto. O filho dela era eleitor do
Padre e foi pedir uma quantia pra
comprar o caixão. O Padre disse que
não poderia ajudá-lo, pois tinha
assumido a prefeitura há pouco
tempo. Ia achar um meio pra
ajudá-lo, mas não com dinheiro.
– Oxe. Tá vendo aí. O meu voto o
Padre não vê. Não ajuda ninguém.
– Pera aí. Me deixa terminar o
causo. Aquele meu primo que foi lá
pedir o caixão sabendo que eu
também tinha votado no Padre foi me
contar o ocorrido. Dizia ele: “Olha
só sua tia morreu. Fui lá falar com
o Padre e ele me negou o caixão”.
– Você é mesmo doente, doido,
doido. Ainda tá do lado desse
Padre. Ele nem sequer deu um caixão
pra enterrar sua tia.
– Pera aí. O meu primo que foi lá
pedir é bem de vida. É agricultor
forte. O meu tio é aposentado e tem
pra mais de trinta cabeças de gado
e não sei quantas de ovelha e bode.
A minha tia que faleceu também era
aposentada. Ela deixou foi muito
dinheiro depositado no banco. A
família tem condição. Eu passei na
cara do meu primo: você não
precisava sair por ai mendigando um
caixão.
– Ache o que você quiser. Eu não
concordo. Não voto no Padre. Ele
não me ajuda.
– Pois eu votei e voto nele porque
é o melhor pra cidade. Chega de
atraso. Esses que estão aí mandando
querem te ver sempre na pior. É pra
você sempre tá dependendo deles.
Precisando de um caixão, uma
passagem, um prato de comida.
– Tá bom. O Padre pode até
administrar melhor, mas é um
miserável. Não ajuda as pessoas nem
na hora da morte. Político bom é
aquele que ajuda quando a gente vai
lá precisando.
– Miserável é você que já é
aposentado e não tem coragem nem de
pagar vinte reais num plano Santa
Inês. Deixa de ser miserável. Vai
morrer e sua família vai ficar se
humilhando. Não acha isso errado?
– E daí...
– Pensa na cidade, nos outros.
Político tem que trabalhar é pra
comunidade, não é só pra você. A
gente precisa é de alguém que saiba
administrar a cidade. Não é alguém
pra ficar dando esmola e sumindo
com o dinheiro da prefeitura.
Nessa hora uma voz ecoou lá da
cozinha.
– Deixa a política pra lá. Vocês
não ganham nada com isso. Vêm pra
cá tomar um café. Tem beiju da
hora.
Levantei rumo à cozinha. Não
dispenso um beijuzinho feito na
hora. Os debatedores vieram atrás,
mas já falavam sobre outro assunto.
Apesar das desavenças políticas,
tudo terminou bem entre os
debatedores. Enquanto eu fiquei
pensando comigo: acabei de assistir
uma boa lição sobre a política
sanraimundense.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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