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A
violência nas grandes cidades
brasileiras cada vez mata mais.
Qualquer pessoa pode ser a próxima
vítima. Não há ninguém imune
tampouco lugar seguro. A sensação
de insegurança é generalizada, toma
as ruas e os lares. Para piorar
esse cenário até a polícia já não é
mais confiável. Isso fica claro com
o assassinato do menino João
Roberto cometido por policias
militares cariocas, no último dia 8
de julho. Tal fato reacende o
debate sobre a atuação das
instituições policiais. É triste.
Em nome do estabelecimento da ordem
a polícia perdeu o rumo e fomenta o
caos. Que polícia é essa?
A
referida questão partiu do pai do
menino baleado. Num momento de
desespero ele clamou por justiça e
criticou severamente as
instituições policiais. O grito de
revolta dele se somou a de tantas
outras pessoas que perderam entes
queridos em conseqüência de balas
disparadas por bandidos ou
policiais. A morte do menino João
Roberto chocou tanto quanto a morte
de outro menino, a do João Hélio
ocorrida em fevereiro de 2007. Duas
crianças mortas, dois “Joãos”
ceifados precocemente da vida, duas
famílias destroçadas e uma só
causa: a violência. No caso do João
Hélio faltou a polícia e sobrou a
crueldade dos delinqüentes. No caso
do João Roberto o problema não foi
a falta da polícia, mas justamente
a presença dela. Isso mostra que
quando o assunto é a atividade
policial, tanto a falta quanto o
excesso podem gerar problemas
sérios.
A
morte do menino João Roberto
ratifica o quão é despreparada a
polícia brasileira. Ademais,
evidencia o quão é perigoso
propagar uma política de
tolerância-zero, ou seja, um
verdadeiro estado de guerra contra
o crime. Por certo, o alvo dos
policiais militares não era para
ser uma mãe e seus filhos. É pena.
O automóvel dessa família foi
confundido com o de assaltantes em
fuga. No entanto, a crueldade do
fato mostra que o objetivo não era
realizar uma abordagem, mas sim
matar. Os bandidos tiveram a sorte
de serem confundidos, senão eles é
que estariam mortos. Este é o
perigo de instituir um estado de
guerra. Todos somos vítimas em
potencial. Até agora essa forma de
combater o crime não trouxe
resultados positivos. Portanto, é
fundamental repensar as políticas
de segurança pública e a atuação
das forças policiais.
O
problema da criminalidade precisa
ser enfrentado com severidade,
contudo não se pode atirar para
todos os lados. A defesa da
doutrina tolerância-zero no Rio de
Janeiro bem como noutras cidades –
sem a estruturação e o alinhamento
das políticas de segurança pública
– é algo desarazoável que só
potencializa a violência. As
autoridades governamentais
brasileiras desconsideram que nas
atuais circunstâncias a polícia não
é plenamente capacitada para o
combate da criminalidade. Cobram
dela algo que ela não pode ofertar.
Ora, só colocar policiais nas ruas
não é suficiente para combater o
crime. Mesmo assim, exigem-se da
polícia atribuições além de sua
capacidade e competência. Daí a
ocorrência de operações
malsucedidas e, inclusive,
atrocidades contra pessoas civis.
Os
policiais que retiraram a vida do
menino João Roberto devem ser
responsabilizados por seus atos e
excessos. Malgrado a ação deles
tenha sido desastrosa, o fim era
capturar criminosos. Isso não pode
ser deixado de lado, pois a polícia
passa por um processo de
desvalorização e crimilinalização
perpetrado por segmentos diversos
da sociedade e da mídia. Ademais, é
comum governos manipularem a
polícia para obter vantagens
ilícitas. No Rio de Janeiro, por
exemplo, cita-se a montagem de uma
quadrilha criminosa na cúpula da
polícia civil, tendo como líder o
ex-governador Antônio Garotinho.
Decerto, essa situação se repete
noutros estados e noutras
policiais.
A
polícia brasileira de hoje é
incapaz de combater a violência não
só porque é sucateada e seus
profissionais mal-treinados. Mas
também porque é manejada por
governos irresponsáveis e comanda
por pessoas capturadas pelo crime.
A polícia é uma instituição
hierárquica, logo é difícil esperar
dos policiais de rua atitudes
adequadas se a cúpula é corrompida.
A trágica morte do menino João
Roberto decorre dessa
desestruturação. É preciso
reordenar a função policial do
Estado brasileiro. Todavia isso não
acontecerá enquanto os governantes
se limitarem a discursos
demagógicos e pedidos de desculpas.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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