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O objetivo é escrever sobre cidadania, democracia, políticas públicas, governos e eleições, e quiçá tantos outros temas.

Sou Alexandre Rocha, sanraimundense de coração, filho de sanraimundenses e morador por vários anos do bairro Gavião. Entretanto, agora resido em Brasília, mas não me esqueço de nossa cidade. Sempre quando posso trilho o caminho para esta terra adorável. Na Capital Federal conheci, estudei e apaixonei-me pela Ciência Política. Nessa mesma área conclui o curso de Mestrado. A Ciência Política é uma formação pouco conhecida em nossa região, por isso também tenho como propósito divulgá-la, e quem sabe despertar o interesse de pessoas por essa disciplina.

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O familismo na política sanraimundense

alxroch@yahoo.com.br


A política de São Raimundo Nonato é caracterizada pelo predomínio de algumas famílias. Na ciência política isso é denominado de familismo. O fato de famílias se engajarem na política não é nenhum problema. O esquisito é quando isso se transforma no familismo imoral, que é a situação na qual uma família se investe na política só para defender seus próprios interesses.

Na atual eleição municipal a população cobra renovação. Entretanto algumas pessoas que despontam como pré-candidatas provêm de velhos grupos políticos. É interessante como os sobrenomes se repetem.

O grupo que prevalece hoje é a família Ferreira. Trata-se de um grupo fechado, o qual escolhe seus representantes em estritos laços sanguíneos. O mais proeminente é o patriarca Gaspar Ferreira, que foi prefeito por três mandatos. Ele conseguiu repassar seu espólio político para os filhos. Hoje um deles é deputado estadual e o outro é prefeito.

Nessas eleições municipais a família Ferreira pretende continuar seu reinado. Todavia ela enfrenta dificuldades, pois apesar de ter ficado oito anos frente à prefeitura, não foi capaz de formar nenhum sucessor. O nome que vinha sendo cogitado, Gaspar Neto, foi substituído nos últimos momentos por Ana Teresa. Essa candidatura é uma tentativa desesperada de firmar aliança com a família Claudino, hoje a toda poderosa da política piauiense.

O pré-candidato Péricles Macário aposta no legado político de seu pai. Nos anos 70, 80 e 90 a família Macário teve alguma relevância política, mas só na pessoa de Pedro Macário. As últimas passagens formais dessa família foram com Euclides Macário, como vereador, e Luciano Macário, como vice-prefeito, numa aliança com a família Ferreira. A família Macário já não goza do prestígio de outrora. Hoje seus integrantes são conhecidos por firmar acordos de conveniência. Logo transitam de forma periférica na política sanraimundense.

O pré-candidato Beto Macêdo é de família tradicional. A família dele foi relevante na política piauiense nos anos 70 e 80. O personagem mais ilustre foi Waldemar Macêdo, deputado estadual por vários mandatos e uma vez vice-governador. Seu irmão Newton Macêdo foi prefeito da cidade por duas vezes e também deputado estadual. Essa família duelou com a família Ferreira, bem como se aliou. Hoje, embora numerosa, a família Macêdo é muito fragmentada e já não tem a mesma projeção política. Tentou retornar na última eleição estadual, com Olindo Macêdo, mas sem sucesso.

Os pré-candidatos supracitados pertencem a famílias calejadas na política sanraimundense. Mas ainda falta uma família. Trata-se da família Castro. Essa família não é um bloco coeso em prol da política, porém tem no velho cacique, José de Castro, uma figura de muita influência. Seu filho, Marcelo Castro, tem voto por todo o Piauí e está no terceiro mandato de deputado federal.

O predomínio do familismo na política sanraimundense é impressionante. Vejam como os candidatos eleitos para prefeito nas últimas três décadas pertencem às famílias apresentadas: Newton Macêdo de Castro (1972-1976), Pedro Macário de Castro (1976-1982), Gaspar Dias Ferreira (1982-1988, 1992-1996), e Avelar de Castro Ferreira (2000-2004, 2004-2008). Neste período ocorreram duas exceções. Uma com Hamilton da Silva Balduino (1988-1992), eleito graças ao apoio da família Ferreira. E outra com Padre Herculano Negreiro (1996-2000), o único eleito sem vínculo com as famílias em questão. 

É comum em cidades com características de famílias disputando a política o embate violento entre os clãs. No entanto, isso não é prática em São Raimundo Nonato. Pelo contrário, as famílias se aliam ou se repelem dentro do jogo político. Isso se deve a um fato curioso. Em algum grau de parentesco ou de interesse essas famílias se entrecruzam. O ponto de união entre elas é o sobrenome Castro. Será mera coincidência? Será por isso que o deputado Marcelo Castro interfere tanto nas eleições municipais?

De fato, não sei. Só sei que o sobrenome Castro é comum às famílias que a controlam a política sanraimundense há mais de três décadas. Daí se pode imaginar que não há famílias opostas se digladiando, mas facções de famílias próximas se alternando no poder. Tais famílias se tornaram em elites políticas e fazem de tudo para afastar outras pessoas do cenário político.

A população sanraimundense pede renovação, contudo não se dá conta que elege sempre os mesmos fidalgos. Mudam as caras, mas na essência é quase tudo uma parentela só. Para ocorrer mudanças significativas é preciso romper com esse familismo que jamais trouxe benefício para cidade. Enfim, é preciso vislumbrar alternativas além dos conchavos familiares. 

 

Alexandre Pereira Rocha. É cientista político.

Mestre em Ciência Política (UnB)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Alexandre Rocha