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A
política de São Raimundo Nonato é
caracterizada pelo predomínio de
algumas famílias. Na ciência
política isso é denominado de
familismo. O fato de famílias se
engajarem na política não é nenhum
problema. O esquisito é quando isso
se transforma no familismo imoral,
que é a situação na qual uma
família se investe na política só
para defender seus próprios
interesses.
Na
atual eleição municipal a população
cobra renovação. Entretanto algumas
pessoas que despontam como
pré-candidatas provêm de velhos
grupos políticos. É interessante
como os sobrenomes se repetem.
O
grupo que prevalece hoje é a
família Ferreira. Trata-se de um
grupo fechado, o qual escolhe seus
representantes em estritos laços
sanguíneos. O mais proeminente é o
patriarca Gaspar Ferreira, que foi
prefeito por três mandatos. Ele
conseguiu repassar seu espólio
político para os filhos. Hoje um
deles é deputado estadual e o outro
é prefeito.
Nessas eleições municipais a
família Ferreira pretende continuar
seu reinado. Todavia ela enfrenta
dificuldades, pois apesar de ter
ficado oito anos frente à
prefeitura, não foi capaz de formar
nenhum sucessor. O nome que vinha
sendo cogitado, Gaspar Neto, foi
substituído nos últimos momentos
por Ana Teresa. Essa candidatura é
uma tentativa desesperada de firmar
aliança com a família Claudino,
hoje a toda poderosa da política
piauiense.
O
pré-candidato Péricles Macário
aposta no legado político de seu
pai. Nos anos 70, 80 e 90 a família
Macário teve alguma relevância
política, mas só na pessoa de Pedro
Macário. As últimas passagens
formais dessa família foram com
Euclides Macário, como vereador, e
Luciano Macário, como
vice-prefeito, numa aliança com a
família Ferreira. A família Macário
já não goza do prestígio de
outrora. Hoje seus integrantes são
conhecidos por firmar acordos de
conveniência. Logo transitam de
forma periférica na política
sanraimundense.
O
pré-candidato Beto Macêdo é de
família tradicional. A família dele
foi relevante na política piauiense
nos anos 70 e 80. O personagem mais
ilustre foi Waldemar Macêdo,
deputado estadual por vários
mandatos e uma vez vice-governador.
Seu irmão Newton Macêdo foi
prefeito da cidade por duas vezes e
também deputado estadual. Essa
família duelou com a família
Ferreira, bem como se aliou. Hoje,
embora numerosa, a família Macêdo é
muito fragmentada e já não tem a
mesma projeção política. Tentou
retornar na última eleição
estadual, com Olindo Macêdo, mas
sem sucesso.
Os
pré-candidatos supracitados
pertencem a famílias calejadas na
política sanraimundense. Mas ainda
falta uma família. Trata-se da
família Castro. Essa família não é
um bloco coeso em prol da política,
porém tem no velho cacique, José de
Castro, uma figura de muita
influência. Seu filho, Marcelo
Castro, tem voto por todo o Piauí e
está no terceiro mandato de
deputado federal.
O
predomínio do familismo na política
sanraimundense é impressionante.
Vejam como os candidatos eleitos
para prefeito nas últimas três
décadas pertencem às famílias
apresentadas: Newton Macêdo de
Castro (1972-1976), Pedro Macário
de Castro (1976-1982), Gaspar Dias
Ferreira (1982-1988, 1992-1996), e
Avelar de Castro Ferreira
(2000-2004, 2004-2008). Neste
período ocorreram duas exceções.
Uma com Hamilton da Silva Balduino
(1988-1992), eleito graças ao apoio
da família Ferreira. E outra com
Padre Herculano Negreiro
(1996-2000), o único eleito sem
vínculo com as famílias em
questão.
É
comum em cidades com
características de famílias
disputando a política o embate
violento entre os clãs. No entanto,
isso não é prática em São Raimundo
Nonato. Pelo contrário, as famílias
se aliam ou se repelem dentro do
jogo político. Isso se deve a um
fato curioso. Em algum grau de
parentesco ou de interesse essas
famílias se entrecruzam. O ponto de
união entre elas é o sobrenome
Castro. Será mera coincidência?
Será por isso que o deputado
Marcelo Castro interfere tanto nas
eleições municipais?
De
fato, não sei. Só sei que o
sobrenome Castro é comum às
famílias que a controlam a política
sanraimundense há mais de três
décadas. Daí se pode imaginar que
não há famílias opostas se
digladiando, mas facções de
famílias próximas se alternando no
poder. Tais famílias se tornaram em
elites políticas e fazem de tudo
para afastar outras pessoas do
cenário político.
A
população sanraimundense pede
renovação, contudo não se dá conta
que elege sempre os mesmos
fidalgos. Mudam as caras, mas na
essência é quase tudo uma parentela
só. Para ocorrer mudanças
significativas é preciso romper com
esse familismo que jamais trouxe
benefício para cidade. Enfim, é
preciso vislumbrar alternativas
além dos conchavos familiares.
Alexandre Pereira Rocha.
É cientista político.
Mestre em Ciência Política (UnB)
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