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Numa de minhas viagens a São
Raimundo Nonato estendi o percurso
até Teresina. O ônibus chega cedo à
capital piauiense, antes do
alvorecer do dia. Por sua vez, o
vôo de volta a Brasília só sai no
fim da tarde. Esse espaço de tempo
não seria suficiente para rever a
querida Teresina, porém bastaria
para uma breve visita.
Cheguei à rodoviária interestadual
desejoso de refazer o percurso que
costumava realizar quando
estudante. Depois de longos anos
sem visitar Teresina tive a
oportunidade de reencontrá-la. O
típico calor teresinense, de
início, me incomodou, mas eu estava
delirante por passear pelos lugares
de outrora. Uma chuva inesperada
caiu em meio ao dia ensolarado, e
com ela sobrevieram-me recordações
da época de estudante, de
adolescente que saiu do interior
estado com o fito de estudar na
Capital.
Logo cedo peguei um ônibus com
destino ao centro. Pelo trajeto
notei algumas diferenças. A cidade
progrediu, cresceu e ficou mais
verticalizada. Ao passar pela
Avenida Frei Serafim as recordações
aumentaram. Desci próximo à Igreja
São Benedito. Ali perto fica o
colégio onde estudei. Na igreja
parei um pouco, abriguei-me da
chuva, rezei e tirei algumas
fotos.
Apesar do tempo consegui me
localizar bem. Segui rumo à extensa
Rua Rui Barbosa, andando com vagar
e admiração. O calor era intenso, a
chuva que tinha caído não pode
aplacá-lo. As lembranças ficavam
mais fortes a cada cruzamento, a
cada esquina. Ia caminhando assim
repleto de recordações. O meu
destino se aproximava e a ansiedade
aumentava. Depois de doze anos pude
rever o local onde residi quando
estudante secundarista.
Ao longe avistei a Casa do
Estudante do Piauí (CEPI). Não foi
possível conter a emoção, pois a
velha casa com seu tom acinzentado
para mim tem significância. Foi
justamente nela que meus sonhos de
estudante do interior começaram a
se concretizar. Foi ali que
compreendi de fato a importância da
educação. Foi ali que apreendi
valores como encorajamento,
solidariedade, partilha. Foi ali
que senti saudade, temor, sofri
preconceitos.
Para meu espanto a casa do
estudante continua a mesma. Ao
chegar à sua frente parei e encarei
a estrutura depredada. Refleti
alguns minutos sobre minha vida
naquele local. Olhava com
sentimento de superação. De repente
vi vultos de jovens através das
janelas. Lembrei-me de como os
quartos são pequenos e abafados, e
de como somente as janelas
proporcionam ventilação. Contudo
elas também se abrem para um mundo
curioso. As pessoas que ali passam
olham para ver os que ali moram.
Por sua vez os que ali residem se
escondem.
No passado eu fora semelhante a um
daqueles jovens. Não relegava minha
condição de estudante do interior,
mas sabia do preconceito de ser
morador da velha casa estudantil.
Era preferível passar despercebido.
Depois de alguns instantes parado e
pasmado, recompus-me e resolvi
entrar. As recordações sobrevieram
aos milhares. A tristeza foi grande
ao ver o abandono do prédio, das
dependências e, sobretudo, dos
jovens estudantes.
Certo jovem entrecruzou meu
caminho. Disse-lhe que tinha sido
morador dali anos atrás. Daí a
conversa foi amistosa, mas breve
porque ele teve que se ausentar.
Segui sozinho. Primeiro pela casa
velha, depois passei pela sucateada
quadra de esportes, e cheguei ao
outro prédio chamado de casa nova
(o qual já é velho também). Pelo
lado de fora dei uma volta em torno
da casa. Tirei algumas fotos para
firmar as lembranças. Parti dali
com sensações confusas. Ora alívio,
ora indignação.
Ainda no aeroporto reprisei as
fotos. Nisso me veio um estalo.
Comecei a procurar entre meus
documentos algo importante. Sabia
que trazia comigo. Ah, lá estava
ela cuidadosamente guardada num
compartimento secreto. Tratava-se
de minha carteirinha de morador da
Casa do Estudante do Piauí. A
carteirinha de “cepiano”. Era assim
que nós moradores nos
intitulávamos. Regressei
nostalgicamente a outra capital, a
do Brasil.
Mestre em Ciência Política (UNB)
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