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Já é tardizinha no campo do
cafezinho, assim denominado por se
situar em propriedade do Dr. Café,
contumaz patrocinador do futebol
sanraimundense.
O jogador posiciona a bola na marca
do pênalti. Pega distância e dá um
chute forte. Debaixo das traves o
goleiro faz de tudo para defender,
para esbarrar na bola.
Quando o goleiro consegue efetuar a
defesa sai pulando e gritando de
felicidade. Por sua vez, o jogador
apenas meneia a cabeça e ri.
O batedor do pênalti era o
Severino. O goleiro, qualquer
garoto do bairro Gavião que se
aventurasse a defender um “bicudo”.
O troféu era uma entrada franca
para os vesperais dominicais do
Clube 5 Estrelas.
Assim ganhei algumas entradas. Não
porque eu fosse bom goleiro, mas
porque fazia de tudo para ir aos
vesperais.
Os dias de domingos eram
diferentes. O carro de som
divulgava pelas ruas: “...atenção,
atenção sociedade sanraimundense,
grande vesperal dançante hoje no
Clube 5 Estrelas, com a Banda Real
Som da Bahia....”. Os
ajustes dos instrumentos, da voz e
o repasse do repertório
prenunciavam a festa que viria.
Depois das dezoito horas começava a
concentração do pessoal. Todos
atraídos pelo clima inigualável do
velho e sempre bom “5 Bala”, como
era afetuosamente conhecido por
minha geração.
Pra quem tinha ganhado a entrada
defendo o chute do Severino,
bastava procurá-lo. Pra maioria que
iria comprar o ingresso, era
preciso enfrentar o tumulto que se
formava defronte a bilheteira.
A entrada era apertada. Um estreito
corredor dava acesso à pista de
dança, às mesas e ao bar. O palco
era pequeno, quase rente ao chão.
Assim, músicos e festeiros ficavam
em perfeita sintonia.
No 5 Bala era possível ver gente de
todos os lugares, de todas as
classes de São Raimundo. Era um
clube democrático, igualitário. Não
tinha o formalismo do Jetec, nem a
turminha do Clubinho. Acho que o
Zero Grau se assemelhava um pouco.
As músicas baianas animavam grande
parte do vesperal. Um pouco de
forró e lambada. Outro pouco de
rock brasileiro (Ah, não podiam
faltar algumas músicas do Pink
Floyd, principalmente “The Wall”).
Depois disso, era a sessão de
músicas românticas (ou lenta, como
chamávamos). Geralmente rolavam
canções internacionais, como
“Steamrock Fever” e “Robot Man”, do
Scorpions. Aquelas que as rádios
costumavam colocar traduções
simultâneas.
O momento das músicas lentas era
maravilhoso. Era propício pra
dançar coladinho, bem juntinho. Aí
se iniciavam as cantadas ao pé do
ouvido, as paqueras. Caso se
dançasse mais de uma música com a
mesma pessoa dificilmente não
pintava um namorico.
É algo difícil de expressar. Quando
encontro amigos dos bons tempos do
5 Bala, relembramos com saudade e
alegria o clima dos vesperais.
Também recordamos o momento que
progredimos dos vesperais para as
festas de sábado (aqui já mais
voltada aos adultos).
Os vesperais do 5 Bala me lembram
de uma época singela. As festas se
realizavam quase todo domingo. As
bandas praticamente não mudavam,
tanto que o Real Som fazia parte do
cenário. Nem por isso, era algo
rotineiro. Cada vesperal tinha sua
particularidade, magia e animação.
O campo do Cafezinho já não mais
existe. Agora tudo está ocupado por
casas residenciais (inclusive meus
pais moram lá). O Clube 5 Estrela
continua firme, apesar das festas
não serem mais freqüentes. O
Severino, graças a Deus, também
(não sei se ainda desafiando
garotos no futebol).
O clima das festas de outrora
parece ter se perdido. O que chama
atenção hoje em dia são os grandes
shows com artistas renomados. Mas
sei que em algumas pessoas bate a
saudade dos vesperais. Decerto,
palpita no peito um sentimento
agradável de ter curtido os bons
tempos do 5 Bala.
Mestre em Ciência Política (UNB)
alxroch@yahoo.com.br
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