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A seca que aflige o
semi-árido nordestino é um fenômeno
natural, a qual não pode ser
impedida, mas certamente seus
efeitos podem ser amenizados. Em
muitas localidades do município de
São Raimundo Nonato a situação já é
crítica. A despeito de toda crueza
da estiagem, não é ela o único caso
de calamidade pública.
A seca não é algo
imprevisível. Quando as chuvas são
escassas na estação do inverno se
sabe prontamente que a estiagem
dificultará a vida do sertanejo. No
entanto – a seca aqui e em tantas
outras cidades do nordeste
brasileiro – é uma indústria.
A seca que castiga o
povo sertanejo é a mesma que
enriquece muitas autoridades
públicas corruptas.
A indústria da seca
já elegeu muitos candidatos. O povo
sertanejo carente de recursos e
instrução é cooptado pelas falsas
promessas. É fácil fazer política e
conquistar o carisma do povo nas
regiões atingidas pela seca. Não se
faz quase nada, argumenta-se que
não tem como combater a seca, pois
é coisa da natureza, vontade de
Deus. Destarte, as medidas se
restringem a ajudas paliativas,
como distribuição de pipas d’água e
cestas-básicas.
Atualmente a seca é
um problema superável, porquanto a
tecnologia suplanta adversidades
naturais bem piores que a falta de
chuvas. O que falta é vontade
política, ações governamentais.
Contudo, isso não é interessante
para algumas pessoas, sobretudo
para alguns políticos. Afinal,
estes terão que trabalhar se a seca
deixar de assolar o povo – ou seja,
terão que construir hospitais,
escolas, ruas, praças – em vez de
distribuir esmolas.
O agravamento da
seca no mês de agosto coincide com
as festividades em honra a São
Raimundo Nonato. Num ato de fé,
caridade e tradição o povo lota a
Praça da Igreja Matriz durante o
Novenal. Os padres anunciam a vida
eterna, a doutrina cristã. Nada
obstante, também cuidam das coisas
mundanas ao admoestarem as
autoridades públicas,
principalmente aquelas que ocupam
as primeiras fileiras, próximo ao
Altar.
A Igreja reza: lutar
contra a pobreza e as desigualdades
sócio-econômicas é um compromisso
do poder público.
O festejo ultrapassa
o aspecto religioso. A euforia toma
todo o povo sanraimundense. O
evento mais tradicional são as
“barraquinhas”, onde as pessoas se
confraternizam e se divertem. No
entanto, neste ano, tal evento
quase ficou sem local para
realização.
Com a Avenida dos
Estudantes em obra, as barraquinhas
foram empurradas para a Praça do
Abrigo, local impróprio para tal
finalidade. O resultado foi o
amontoamento de barracas pelas ruas
e calçadas. As pessoas se
espremeram entre mesas, cadeiras,
carros e motos. A desorganização e
a sujeira deram um ar de
“favelização” ao colorido da festa.
Isso serviu para completar o
cenário de total abandono da
cidade.
Para suavizar a seca
opera-se a distribuição de esmolas.
Para ludibriar o povo realizam-se
as festas de rua. Esta é a
conhecida política de pão e circo,
cujo fito é alienação do povo.
Neste picadeiro as boas obras não
passam de encenação, pois o que de
fato ocorre é a autopromoção à
custa do dinheiro público, além de
roubalheiras. Daí a trágica
realidade de muitos nordestinos,
inclusive de sanraimundenses.
Há aproximadamente
oito anos se divulgou que a cidade
estava rumo ao futuro. É este
futuro que sonhávamos? O trabalho
continua sofrivelmente, sem
melhorias significativas. As poucas
obras realizadas (e em andamento)
foram financiadas fartamente pelo
Governo Federal. É precária a
contrapartida da administração
municipal.
Para combater a seca
é preciso políticas sistemáticas e
contínuas, as quais até ultrapassam
a capacidade do poder municipal.
Por sua vez, fomentar o progresso
da cidade e governar com
responsabilidade é competência dos
gestores do município. Entretanto,
é notório que a cidade de São
Raimundo Nonato está depredada,
parece não ter administração. Assim
como a seca, isso também é um caso
de calamidade pública. Só não vê
quem não quer.
Alexandre Pereira Rocha
é cientista político.
alxroch@yahoo.com.br |