|
Acompanho de perto o debate sobre a
divisão do estado do Piauí. De um
lado, vejo os favoráveis
argumentando que o novo ente
federativo trará infinitas
oportunidades. De outro, os
contrários temendo o seqüestro do
“nascituro” pela velha oligarquia
política. No esteio disso, vejo
surgir uma opinião que diz se o
Piauí deixar de existir ninguém vai
ficar chateado. Que tudo isso tem a
ver?
Dividir ou não o Piauí, eis a
questão. Em ambas as hipóteses
visualiza-se méritos e deméritos.
Todavia, o que atiça o ânimo dos
piauienses de nada importa. Para
certas pessoas essa questão de
dividir é irrelevante, pois o
objeto da disputa é insignificante.
Aliás, poderia se dar cabo de todo
um estado e ninguém se importaria.
O Piauí é dispensável para o
Brasil, tanto faz como tanto fez
sua existência. Questionei-me se
isso não foi apenas uma colocação
infeliz ou despropositada do
executivo da Phillips. Por mais que
me esforçasse, conclui que não!
Decerto ela está ínsita de
desprezo.
O
cunho pejorativo dessa declaração
incomodou o povo piauiense. Nada
obstante, surgiram opiniões dizendo
que esse incômodo foi exagerado.
Não precisávamos ficar tão
ofendidos por meras palavras. O
patriotismo é um sentimento
perverso, é o “último refúgio de um
canalha”. Se isso for verdade,
nesta acepção, sou um canalha.
Fiquei chateado em apenas se
cogitar – mesmo que
verborragicamente – o sumiço do
Piauí. Ora, desconheço o povo que
tenha se tornado importante sem
demonstrar amor pelo seu pedaço de
chão. Os norte-americanos elevaram
seu país a uma potencia mundial
graças ao forte espírito
patriótico. E isso não faz dos
Estados Unidos uma nação de
canalhas.
No
meu ofício de canalha teço algumas
conjeturas. Se a Phillips deixar de
existir alguém se chatearia? Acho
que sim! Diversos produtos
eletrônicos ou utensílios do lar
não trariam mais a tradição e a
qualidade da Phillips. O sumiço
inesperado dessa multinacional
geraria frisson no mercado mundial,
seus acionistas ficariam em pânico
e as bolsas de valores cairiam. E o
pior: centenas de pessoas ficariam
desempregadas. Tenho que concordar:
o desaparecimento da Phillips
perturbaria muita gente.
Continuo nesse pensamento, digo
nessa canalhice. E se o Rio de
Janeiro com seu carnaval e Cristo
Redentor sumissem? E se São Paulo
com seu poderio econômico e aquela
garoa continua sumissem? E se...? E
se...? E se o Flamengo sumisse?
Tudo isso seria trágico – aliás,
muitas pessoas ficariam órfãs e sem
destino, – sobretudo a nação
rubro-negra. Agora quanto ao sumiço
do Piauí ninguém se chateia?
Procurei o motivo para tanto
desprezo com o Piauí. De fora, o
nosso estado é praticamente
desconhecido, a não ser pela
pobreza e a seca. Alguns ainda se
lembram de que é daqui um senador
engraçado, ou que são daqui as
centenas de lavradores que migram
para o trabalho nos canaviais.
Imaginam que o Piauí é desprovido
de atrativos, não é uma região para
quem pretende curtir férias ou
passear.
Apesar dos pontos turísticos
despertarem curiosidade, falta
incentivo para conhecê-los. Ora, o
Delta do Parnaíba e as praias de
Luiz Corrêa são maravilhas
inigualáveis, porém são de difícil
acesso e distantes de aeroportos. O
Parque Nacional Serra da Capivara é
com louvor patrimônio histórico da
humanidade, mas também tem acesso
complicado. Situa-se nas
adjacências do município de São
Raimundo Nonato, o qual é pobre em
infra-estrutura e em pontos de
acolhimento e entretenimento para
os turistas.
Sabemos que o Piauí é infinito em
riquezas, mas lamentavelmente
transmitimos uma imagem distorcida
do estado. Decerto, antes dividir
do que deixar de existir. No
entanto, porque dividir o Piauí?
Dividir porque a vasta extensão
territorial impede o
desenvolvimento homogêneo. Bom
argumento, mas se for apenas por
isso será preciso dividir outros
estados, como São Paulo, Bahia,
Minas Gerais. Sempre haverá nobres
motivos para justificar interesses
escusos. Será que o desejo de
dividir o Piauí não soa tão
perigoso quanto à idéia dele deixar
de existir? É como se dissessem:
vamos dividir, pois ninguém vai
ficar chateado.
Embora a declaração do executivo da
Phillips tenha sido ultrajante, ela
não altera nossa realidade. Agora a
divisão do estado terá
conseqüências concretas. Acredito
que é melhor valorizar do que
fracionar, senão qualquer um pode
dizer que nosso estado tanto faz
como tanto fez. A possível divisão
do Piauí deve ser sobrepesada,
porquanto corremos o risco de ficar
sem identidade. Digo isso não por
canalhice, mas porque ficaria
revoltado se o Piauí deixasse de
existir, se eu deixasse de ser
cidadão piauiense.
Alexandre Pereira Rocha
é cientista político.
alxroch@yahoo.com.br |