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O objetivo é escrever sobre cidadania, democracia, políticas públicas, governos e eleições, e quiçá tantos outros temas.

Sou Alexandre Rocha, sanraimundense de coração, filho de sanraimundenses e morador por vários anos do bairro Gavião. Entretanto, agora resido em Brasília, mas não me esqueço de nossa cidade. Sempre quando posso trilho o caminho para esta terra adorável. Na Capital Federal conheci, estudei e apaixonei-me pela Ciência Política. Nessa mesma área conclui o curso de Mestrado. A Ciência Política é uma formação pouco conhecida em nossa região, por isso também tenho como propósito divulgá-la, e quem sabe despertar o interesse de pessoas por essa disciplina.

Veja no site da UNB  | No Portal SRN 

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Não somos canalhas

alxroch@yahoo.com.br


Acompanho de perto o debate sobre a divisão do estado do Piauí. De um lado, vejo os favoráveis argumentando que o novo ente federativo trará infinitas oportunidades. De outro, os contrários temendo o seqüestro do “nascituro” pela velha oligarquia política. No esteio disso, vejo surgir uma opinião que diz se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado. Que tudo isso tem a ver?

Dividir ou não o Piauí, eis a questão. Em ambas as hipóteses visualiza-se méritos e deméritos. Todavia, o que atiça o ânimo dos piauienses de nada importa. Para certas pessoas essa questão de dividir é irrelevante, pois o objeto da disputa é insignificante. Aliás, poderia se dar cabo de todo um estado e ninguém se importaria. O Piauí é dispensável para o Brasil, tanto faz como tanto fez sua existência. Questionei-me se isso não foi apenas uma colocação infeliz ou despropositada do executivo da Phillips. Por mais que me esforçasse, conclui que não! Decerto ela está ínsita de desprezo.

O cunho pejorativo dessa declaração incomodou o povo piauiense. Nada obstante, surgiram opiniões dizendo que esse incômodo foi exagerado. Não precisávamos ficar tão ofendidos por meras palavras. O patriotismo é um sentimento perverso, é o “último refúgio de um canalha”. Se isso for verdade, nesta acepção, sou um canalha. Fiquei chateado em apenas se cogitar – mesmo que verborragicamente – o sumiço do Piauí. Ora, desconheço o povo que tenha se tornado importante sem demonstrar amor pelo seu pedaço de chão. Os norte-americanos elevaram seu país a uma potencia mundial graças ao forte espírito patriótico. E isso não faz dos Estados Unidos uma nação de canalhas.

No meu ofício de canalha teço algumas conjeturas. Se a Phillips deixar de existir alguém se chatearia? Acho que sim! Diversos produtos eletrônicos ou utensílios do lar não trariam mais a tradição e a qualidade da Phillips. O sumiço inesperado dessa multinacional geraria frisson no mercado mundial, seus acionistas ficariam em pânico e as bolsas de valores cairiam. E o pior: centenas de pessoas ficariam desempregadas. Tenho que concordar: o desaparecimento da Phillips perturbaria muita gente.   

Continuo nesse pensamento, digo nessa canalhice. E se o Rio de Janeiro com seu carnaval e Cristo Redentor sumissem? E se São Paulo com seu poderio econômico e aquela garoa continua sumissem? E se...? E se...? E se o Flamengo sumisse? Tudo isso seria trágico – aliás, muitas pessoas ficariam órfãs e sem destino, – sobretudo a nação rubro-negra. Agora quanto ao sumiço do Piauí ninguém se chateia?

Procurei o motivo para tanto desprezo com o Piauí. De fora, o nosso estado é praticamente desconhecido, a não ser pela pobreza e a seca. Alguns ainda se lembram de que é daqui um senador engraçado, ou que são daqui as centenas de lavradores que migram para o trabalho nos canaviais. Imaginam que o Piauí é desprovido de atrativos, não é uma região para quem pretende curtir férias ou passear.

Apesar dos pontos turísticos despertarem curiosidade, falta incentivo para conhecê-los. Ora, o Delta do Parnaíba e as praias de Luiz Corrêa são maravilhas inigualáveis, porém são de difícil acesso e distantes de aeroportos. O Parque Nacional Serra da Capivara é com louvor patrimônio histórico da humanidade, mas também tem acesso complicado. Situa-se nas adjacências do município de São Raimundo Nonato, o qual é pobre em infra-estrutura e em pontos de acolhimento e entretenimento para os turistas.

Sabemos que o Piauí é infinito em riquezas, mas lamentavelmente transmitimos uma imagem distorcida do estado. Decerto, antes dividir do que deixar de existir. No entanto, porque dividir o Piauí? Dividir porque a vasta extensão territorial impede o desenvolvimento homogêneo. Bom argumento, mas se for apenas por isso será preciso dividir outros estados, como São Paulo, Bahia, Minas Gerais. Sempre haverá nobres motivos para justificar interesses escusos. Será que o desejo de dividir o Piauí não soa tão perigoso quanto à idéia dele deixar de existir? É como se dissessem: vamos dividir, pois ninguém vai ficar chateado.

Embora a declaração do executivo da Phillips tenha sido ultrajante, ela não altera nossa realidade. Agora a divisão do estado terá conseqüências concretas. Acredito que é melhor valorizar do que fracionar, senão qualquer um pode dizer que nosso estado tanto faz como tanto fez. A possível divisão do Piauí deve ser sobrepesada, porquanto corremos o risco de ficar sem identidade. Digo isso não por canalhice, mas porque ficaria revoltado se o Piauí deixasse de existir, se eu deixasse de ser cidadão piauiense.

 

Alexandre Pereira Rocha é cientista político.

alxroch@yahoo.com.br

 

Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Alexandre Rocha

 

 

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