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O objetivo é escrever sobre cidadania, democracia, políticas públicas, governos e eleições, e quiçá tantos outros temas.

Sou Alexandre Rocha, sanraimundense de coração, filho de sanraimundenses e morador por vários anos do bairro Gavião. Entretanto, agora resido em Brasília, mas não me esqueço de nossa cidade. Sempre quando posso trilho o caminho para esta terra adorável. Na Capital Federal conheci, estudei e apaixonei-me pela Ciência Política. Nessa mesma área conclui o curso de Mestrado. A Ciência Política é uma formação pouco conhecida em nossa região, por isso também tenho como propósito divulgá-la, e quem sabe despertar o interesse de pessoas por essa disciplina.

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Lei da Ficha Limpa, a primeira derrota contra a impunidade

alxroch@yahoo.com.br


Vocês conhecem pessoalmente algum ministro de Superior Tribunal Federal? Você liga pessoalmente para ele pedindo um favor? Questiono isso porque é coisa para poucos, ainda mais quando o favor é para livrar de uma enrascada, de um crime. Mas o ministro Gilmar Mendes do STF tem bons amigos, não é à toa que ele no meio da noite concedeu medida soltando da prisão o banqueiro Daniel Dantas. Assim, como permite que o senador Heráclito Fortes seja candidato, mesmo ele tendo sido condenado por corrupção. Interessante que seus amigos são só grandes figurões, não existe nenhum cidadão comum.

Não podemos deixar isso passar em branco. O senador Heráclito Fortes foi condenado pelo pleno do TJPI por corrupção. Como é influente ele conseguiu misteriosamente que seu processo fosse para o STF, onde o ministro César Peluso pediu vistas. Ele está sentado nesse processo desde novembro de 2009, e agora o ministro Gilmar Mendes diz que não pôde aplicar a lei da Ficha Limpa por que não houve tempo hábil para apreciar o caso. Curioso. Para condenar não há tempo, mas para beneficiar sim.

Tal coisa é uma vergonha para o Supremo Tribunal Federal. Mas a vergonha maior é para nós piauienses que temos um dos estados com piores indicadores de educação do país, enquanto corruptos continuam se elegendo e se fartando dos recursos públicos de nossa gente. Não vamos deixar isso barato, vamos dar a resposta nas urnas.

Mas antes façamos um movimento de repúdio à candidatura do senhor Heráclito Fortes. A lei de Ficha Limpa deve ser respeitada, pois acredito que as assinaturas de mais 1,6 milhão de brasileiros têm mais legitimidade do que a assinatura de um único ministro do STF.

Repúdio às candidaturas de políticos corruptos.

 

Lei da Ficha Limpa, a primeira derrota contra a impunidade

Por que existe tanta corrupção no Brasil? Essa é uma questão que os brasileiros se fazem (ou deveriam se fazer), afinal vivemos num dos países mais atingidos pela corrupção no mundo. Os motivos para tanta corrupção são variados, podem decorrer da debilidade das instituições políticas, da baixa consciência política dos cidadãos, da inidoneidade dos políticos, da impunidade. Todavia, entre os motivos aqui citados, os quais não são exaustivos nem excludentes, por certo o mais nocivo é o da impunidade. É ele o principal meio de retroalimentação da corrupção.     

Para tentar coibir a corrupção são necessários alguns instrumentos legais. Com esse intuito, organizações como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), mobilizaram a sociedade civil para pleitear a aprovação da lei da Ficha Limpa. O objetivo dessa lei é modesto, mas bem acertado. Modesto, porque busca principalmente evitar que políticos condenados judicialmente se candidatem. Acertado, pois almeja cortar o mal pela raiz.

Nada obstante, a lei da Ficha Limpa sancionada em 4 de junho de 2010, já sofre sua primeira derrota. O então senador Heráclito Fortes (DEM-PI) – condenado pelo Tribunal de Justiça do Piauí por conduta lesiva ao patrimônio público – conseguiu liminar suspendendo os efeitos da referida lei junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), a qual foi concedida pelo ministro Gilmar Mendes. Isso não só possibilita que ele se candidate novamente, mas abre precedentes para futuras contestações à lei da Ficha Limpa.

A lei da Ficha Limpa é de iniciativa popular, ou seja, é uma vitória dos brasileiros contra a corrupção eleitoral. A aprovação dela só foi possível devido ao grau de exposição pública que o tema ganhou na mídia, sobretudo na internet. Dessa forma, os parlamentares pensaram no desgaste político possível, caso não aprovassem um projeto com mais de 1,6 milhão de assinaturas de apoio. Com a aprovação da lei da Ficha Limpa espera-se que corruptos contumazes não entrem na cena política.

Contudo, não é fácil afastar os corruptos da política quando ainda existem muitas estruturas políticas, jurídicas, econômicas, midiáticas coniventes com a corrupção. Ora, a citada medida concedida pelo ministro do STF mostra o quanto essa instituição ou alguns de seus membros são cúmplices de práticas de corrupção. Caso fosse o contrário, por que não houve até então nenhuma expressiva manifestação de repúdio à acintosa medida do ministro Gilmar Mendes?

É fato. Os argumentos jurídicos erigidos para garantir os direitos individuais de certas pessoas – por exemplo, o de ilustres políticos – nem de longe se assemelham à orfandade jurídica da maioria dos brasileiros. Dessa forma, o sistema judicial, em vez de se firmar como poder independente para o alcance de justiça universal, torna-se numa estrutura cooptada que favorece sobremaneira distintos grupos e pessoas. Assim, a lei da Ficha Limpa encontra obstáculos onde deveria ter maior proteção.  

Dificilmente haverá uma lei ou conjunto delas capaz de abranger os inúmeros motivos da corrupção. Mesmo assim, caso as poucas leis anticorrupção brasileiras existentes fossem aplicadas com transparência, integridade e imparcialidade, muito poderia ser feito para mitigar o problema. Todavia, o que se vê é o uso casuístico de medidas judiciais para burlar as leis, as quais deixam diversos políticos corruptos incólumes. O nome apropriado para isso é impunidade, não garantia de direitos individuais.   

A lei da Ficha Limpa não tem pretensão de revolucionar o nosso sistema político, porquanto impedir que corruptos continuem livremente se locupletando dos recursos públicos. O seu escopo não é punitivo, porém preventivo e moralizador. Ela privilegia a honestidade, isto é, o respeito às normas e às instituições públicas por parte dos candidatos a representantes públicos. Isso é requisito em qualquer atividade pública, agora por qual motivo o mesmo é desprezado para o exercício da função política só mostra o quanto vivemos numa sociedade hierárquica e repleta de privilégios.       

O ato de um ministro do STF possibilitando a candidatura de um político já condenado por corrupção, não é mera exceção à lei da Ficha Limpa, mas pleno desrespeito ao interesse de milhões de brasileiros que repudiam a corrupção. Na verdade, ele é prova de como é simples escapar das leis quando se tem poder e influência. Assim, enquanto persistir a impunidade de ilustres, a lei da Ficha Limpa pode até empurrar algumas sujeiras para debaixo do tapete, mas jamais limpará verdadeiramente o sistema político brasileiro.   

 

Alexandre Pereira Rocha. É cientista político.

Mestre em Ciência Política (UnB)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Alexandre Rocha