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Adoniram Barbosa, cujo centenário
de nascimento se comemora este ano,
era uma figura singular: sendo um
dos maiores compositores da MPB,
comportava-se como um cidadão
comum. Meio triste, um tantinho
irônico, percorria os bairros de
sua predileção- Brás e Bexiga - com
seu indefectível chapéu de feltro,
bigodinho cafona, gravatinha
borboleta e paletó de cor
inescrutável. Gostava de fumar,
beber e prosear com gente do povo.
Foi, seguramente, o maior cronista
musical de São Paulo. O sambista
que deu voz aos “despossuídos”,
inclusive, aos vagabundos.
Conta-se que, certa vez, a
Prefeitura de São Paulo resolveu
homenageá-lo por um pretexto
qualquer. Armou-se um belo palco,
convidaram-se intérpretes famosos,
autoridades, imprensa e picaretas
em geral. Meio deslocado, Adoniram
recebia cumprimentos e empurrões.
Lá pelas tantas, o homenageado já
estava no fundo do palco. De
repente, passa por ele o secretário
de cultura do município. Sem
levantar a voz rouca, o compositor
perguntou: “Ô meu, não dá pra
transformar isso tudo em...” e
esfregou o indicador no polegar. O
secretário sorriu amarelo, deu um
tapinha nas costas do sambista e
misturou-se aos notáveis. Sem ter o
que fazer naquele palco estrelado,
o autor de Saudosa Maloca desceu,
procurou o botequim mais próximo e
foi tomar sua cerveja e pitar um
cigarrinho sossegado. Na hora de
pagar a conta, comentou, irônico:
“Tudo isso não me rendeu uma birita”.
Por que me lembrei disso? Bem, na
semana passada, fui procurado por
uma cidadã jovial, elegante,
loquaz. Depois dos elogios de
praxe, o pedido: “Professor, o
senhor poderia me indicar um bom
professor de português? Com essas
novas regras, está todo mundo
confuso. Queremos oferecer um curso
básico de português aos nossos
funcionários”. A cidadã é diretora
de uma instituição. Provoquei-a com
a pergunta: Pode ser velho? . A
moça sorriu: “Claro, professor”.
Fechei o diálogo: Estou à mão.
Contrate-me e começaremos amanhã
mesmo. A jovem senhora não escondeu
o espanto: “O senhor?! Impossível:
o senhor é famoso e não podemos
pagar-lhe”.
Sem querer comparar-me a Adoniram:
ele era um gênio; eu, um simples
come-giz, repito, com outras
palavras, o que ele afirmou: a
minha ‘fama’ não me rende um mísero
contrato temporário de trabalho.
Curiosamente, sou solicitado a cada
instante para proferir palestras,
escrever prefácios, e “abrilhantar”
festa de formatura, de batizado de
cachorro, de casamento de boneca,
de enterro de anão... De graça, é
claro!
Minhas irmãs, meu irmãos: espalhem
aos quatros ventos que sou apenas
um professor; que não quero cargo,
homenagens, louvações. Quero apenas
que me contratem para ministrar
aulas. É certo que não sei muito,
mas como já errei o bastante, posso
evitar que meus alunos cometam os
mesmos erros que cometi. Posso
ensinar-lhes, por exemplo,
distinguir fama de brilhareco.
Cineas Santos
Professor |