.:":.Portal Sanraimundense.:":. - Entretenimento e Informação.

 

.

 

Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Na hora errada

cineasantos@hotmail.com


Dona Purcina, que viveu 91 anos, só teve três meses de escola. A despeito disso, aprendeu com o mestre Manuel Luiz o necessário para desasnar os filhos em pleno sertão do Caracol. Ao entrar na escola, aos sete anos de idade, eu já era capaz de ler um folheto de cordel e realizar, sem maiores sacrifícios, uma operação simples de matemática. É verdade que, nos dias de sabatina, andei recebendo bolos de arder na alma. A palmatória de aroeira era o terror da molecada. Minha velha tinha verdadeira obsessão por educação, que chamava de “estudo”. Sem pestanejar e contra a vontade de seu Liberato, abdicou da condição de matriarca no sertão para tornar-se operária em São Raimundo Nonato. Ganhava a vida vendendo doces. Dona Purcina tinha tino: construiu nossa casinha num ponto equidistante entre o Grupo Escolar Pe. Domingos da Conceição e o Ginásio Dom Inocêncio. Com olho de águia, acompanhava o nosso percurso, impedindo-nos de nos tresmalhar...

O grupo era uma escola pública, mas o ginásio era privado. Sabe Deus o quanto lhe custava manter-nos na escola! Aos trancos e barrancos, cada um de nós aprendeu o suficiente para sobreviver com dignidade. Dona Purcina cumpriu o seu papel de mãe e ainda ajudou parentes e aderentes a saírem das trevas do analfabetismo. Aos 80 anos de idade, foi sequestrada pelo mal de Alzheimer, castigo que não merecia. Um dia, num instante de lucidez, viu na televisão o então governador de Brasília, Cristóvão Buarque, anunciando o Bolsa Escola. Olhou pra mim e perguntou: - O governo está pagando os pais pra botarem os filhos na escola? Diante da resposta afirmativa, não se conteve: - Acho que nasci no mundo errado! E mais não disse. Pouco tempo depois, já era incapaz de reconhecer-se a si mesma...

Na semana passada, me surpreendi repetindo as palavras de dona Purcina. Abro a Folha e lá está: SP paga R$ 50 a aluno que for a reforço de matemática. Segundo o jornal, “O dinheiro será dado diretamente ao estudante, e não a sua família”. Deixa ver se entendi bem: a família continuará recebendo o Bolsa Família e o filho, por seu turno, receberá um “vale-presente” para aprender, no reforço, o que a escola não lhe ensinou. É isso?

A proposta é tão estapafúrdia que até os aliados do governo a criticaram. O aluno tem escola, transporte, material escolar e merenda grátis e ainda receberá um “vale-presente” por ser relapso? Impossível não me lembrar de dona Josefina, uma matriarca sertaneja que, antes de iniciar a sabatina, palmatória em punho, advertia: - Quem, na hora de aplicar um bolo no colega, tiver peninha, receberá dois aplicados por mim, no capricho! Prometia e cumpria. Dona Purcina tinha razão: ela e eu nascemos num mundo de asperezas , na hora errada. Na minha época, os relapsos eram punidos com bolo; hoje recebem bônus... Ó tempora! Ó mores!

 

Cineas Santos

Professor

  Página Inicial | Comente esta matéria | Imprimir | Painel de Notícias | Topo

Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos