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Dona
Purcina, que viveu 91 anos, só teve
três meses de escola. A despeito
disso, aprendeu com o mestre Manuel
Luiz o necessário para desasnar os
filhos em pleno sertão do Caracol.
Ao entrar na escola, aos sete anos
de idade, eu já era capaz de ler um
folheto de cordel e realizar, sem
maiores sacrifícios, uma operação
simples de matemática. É verdade
que, nos dias de sabatina, andei
recebendo bolos de arder na alma. A
palmatória de aroeira era o terror
da molecada. Minha velha tinha
verdadeira obsessão por educação,
que chamava de “estudo”. Sem
pestanejar e contra a vontade de
seu Liberato, abdicou da condição
de matriarca no sertão para
tornar-se operária em São Raimundo
Nonato. Ganhava a vida vendendo
doces. Dona Purcina tinha tino:
construiu nossa casinha num ponto
equidistante entre o Grupo Escolar
Pe. Domingos da Conceição e o
Ginásio Dom Inocêncio. Com olho de
águia, acompanhava o nosso
percurso, impedindo-nos de nos
tresmalhar...
O grupo era uma escola pública, mas
o ginásio era privado. Sabe Deus o
quanto lhe custava manter-nos na
escola! Aos trancos e barrancos,
cada um de nós aprendeu o
suficiente para sobreviver com
dignidade. Dona Purcina cumpriu o
seu papel de mãe e ainda ajudou
parentes e aderentes a saírem das
trevas do analfabetismo. Aos 80
anos de idade, foi sequestrada pelo
mal de Alzheimer, castigo que não
merecia. Um dia, num instante de
lucidez, viu na televisão o então
governador de Brasília, Cristóvão
Buarque, anunciando o Bolsa Escola.
Olhou pra mim e perguntou: - O
governo está pagando os pais pra
botarem os filhos na escola? Diante
da resposta afirmativa, não se
conteve: - Acho que nasci no mundo
errado! E mais não disse. Pouco
tempo depois, já era incapaz de
reconhecer-se a si mesma...
Na semana passada, me surpreendi
repetindo as palavras de dona
Purcina. Abro a Folha e lá está: SP
paga R$ 50 a aluno que for a
reforço de matemática. Segundo o
jornal, “O dinheiro será dado
diretamente ao estudante, e não a
sua família”. Deixa ver se entendi
bem: a família continuará recebendo
o Bolsa Família e o filho, por seu
turno, receberá um “vale-presente”
para aprender, no reforço, o que a
escola não lhe ensinou. É isso?
A proposta é tão estapafúrdia que
até os aliados do governo a
criticaram. O aluno tem escola,
transporte, material escolar e
merenda grátis e ainda receberá um
“vale-presente” por ser relapso?
Impossível não me lembrar de dona
Josefina, uma matriarca sertaneja
que, antes de iniciar a sabatina,
palmatória em punho, advertia: -
Quem, na hora de aplicar um bolo no
colega, tiver peninha, receberá
dois aplicados por mim, no
capricho! Prometia e cumpria. Dona
Purcina tinha razão: ela e eu
nascemos num mundo de asperezas ,
na hora errada. Na minha época, os
relapsos eram punidos com bolo;
hoje recebem bônus... Ó tempora! Ó
mores!
Cineas Santos
Professor |