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Antes mesmo do aniversário de
Teresina (16 de agosto), a cidade
recebe e agradece o “presentão”,
louvado na mídia local como algo
extraordinário. Engana-se quem,
porventura, estiver pensando no tal
mirante da ponte estaiada,
na vigésima “reinauguração” da
Potycabana ou em coisa
parecida. A cidade está exultante
com a inauguração de mais um
supermercado na zona leste da
cidade. Novidadeiro como ele só, o
teresinense atendeu ao chamado do
“progresso”: lota o gigantesco
estacionamento e faz filas para
conferir mercadorias, preços e
prazos. Segundo uma cidadã
bem-nascida que ostenta, com
orgulho, um sobrenome pomposo,
“Teresina, finalmente, ganha ares
de cidade moderna, livrando-se do
rótulo provinciano de Cidade
Verde”. Acertou em cheio. Para a
construção do novo templo do
consumo na capital, derrubaram-se
dezenas de árvores centenárias. Da
noite para o dia, mangueiras,
jaqueiras, oitizeiros e cajueiros
foram reduzidos a pó. Onde, até bem
pouco tempo, havia um dos clubes
mais tradicionais de Teresina, com
piscina, campo de futebol e
espaçosa área verde, ergueram-se
galpões modernosos, com cores
berrantes, abarrotados de
quinquilharias. Este parece ser o
destino de todos os clubes da
capital (Flamengo, River, Piauí,
Tabajara, Classes Produtoras, etc).
Neste ritmo, em dois ou três anos,
não sobrará um.
É extraordinário o esforço
que os teresinenses vêm fazendo no
sentido de despir a capital do tal
rótulo “Cidade Verde”, cortesia do
escritor Coelho Neto, na década de
trinta. Até onde sei, ainda não se
fez um levantamento de quantas
árvores são derrubadas em Teresina
a cada dia. O tal “cinturão verde”
da capital, há muito, tornou-se um
amontoado de “vilas”, eufemismo
usado para designar as favelas da
capital. Quintais e chácaras dão
lugar a edifícios de nomes
sofisticados ou condomínios
fechados que usam como chamariz o
anzol da “segurança”. O que se
vende não é um produto, mas uma
ideia, uma grife, uma expectativa
que não se cumpre. “Morar bem”,
segundo o conceito dos expertos, é
enjaular-se num apartamento com ar
condicionado em cada um dos
cômodos, circuito interno de
televisão, porteiro eletrônico toda
a parafernália que engorda o
faturamento da indústria do medo.
Compreensivelmente, todas as
praças de Teresina estão às moscas,
exceto as dos shoppings onde
existem ar refrigerado e
“segurança”. O teresinense já não
consegue viver ao ar livre e, a
cada dia, vai-se tornando refém do
“clima artificial” e do medo que,
como diria o poeta, “esteriliza os
abraços”. Só assim se explica a
sofreguidão com que recebe de
braços abertos os presentes de
grego que nos chegam a cada dia.
Brava gente. Pobre gente.
Cineas Santos
Professor |