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O
moleque ainda se encontra no
“ventre das expectativas” e já é
observado por olhos rapaces. São os
“olheiros” profissionais, gente com
faro para descobrir o que pode
render bons dividendos. Como não
dispõem de capital, trabalham para
ex-jogadores de futebol, cartolas,
especuladores de todos os naipes.
Perambulam pelos subúrbios à caça
de garotos com alguma habilidade.
Quando descobrem algum, correm para
entregá-lo a quem o contratou. A
partir daí, o passe ( leia-se a
posse) do futuro craque é fatiada
entre os que se dispuserem a
investir nele. Inicia-se, então, a
trama para encontrar um grande
clube disposto a contratá-lo.
Assinado o primeiro contrato, cada
um recebe o que lhe cabe e o garoto
vai suar a camisa. Se, porventura,
tiver talento e sorte, pode marcar
ou defender um gol decisivo. Aí,
como num passe de mágica, passa de
“promessa” a “revelação”. Sai do
anonimato para as páginas dos
grandes jornais, com direito a
elogios e afagos. No dia seguinte,
aparecem o pai (até então,
desconhecido), os parentes, os
aderentes, os amigos de infância, e
as indefectíveis marias-chuteiras.
Esse caldo de cultura costuma ser
letal. Adiante-se que o
garoto-revelação, há bastante
tempo, vem adubando seus sonhos de
consumo: carrões, joias e louras...
Assim, antes de reformar o barraco
da mãe, passa a circular, sempre
“bem” acompanhado, por lugares
badalados.
Antes que um dos meus três leitores
esbraveje, adianto: o que acabei de
afirmar aqui é uma caricatura
grotesca, mas com gotículas de
verdade. A pergunta cabível é a
seguinte: o que os grandes clubes
de futebol estão fazendo para
melhorar o nível intelectual dessa
molecada pobre, semianalfabeta, que
só possui alguma habilidade com os
pés? As empresas da construção
civil, por exemplo, já se deram
conta de que operários instruídos
acidentam-se menos e rendem muito
mais. Estão investindo na
alfabetização dos trabalhadores.
Por que os clubes de futebol não
fazem o mesmo? Por que, durante o
tempo que passam concentrados, os
jogadores não recebem aulas de
português, de inglês, de ética, de
educação sexual, de cidadania?
Certa feita, Rachel de Queirós
afirmou: “Vida de craque não são
rosas”. Tinha razão: jogador
profissional passa 80% do tempo
concentrado, treinando,viajando ou
jogando. O tempinho livre que lhe
sobra é dedicado à esbórnia, que
ninguém é de ferro.
Alguns, antes da maioridade, são
“exportados” para os milionários
clubes europeus. No ato da
transação, um desses moleques pode
embolsar, de uma vez, o que um
professor-doutor não ganhará ao
longo de toda a vida útil. O que
fazer com tanto dinheiro e nenhuma
informação? Comprar carrões,
piercings de diamantes, correntes
de ouro e louras, um harém de
louras... Com raras exceções, o
desempenho dessas estrelas, em
campo, decresce na mesma proporção
em que se lhes aumentam os
salários. Como conciliar uma
carreira que exige disciplina
espartana com as tentações do
mundo?
Quando “pisam na bola” ( e como
pisam!), a mesma imprensa que os
diviniza, sataniza-os sem a menor
piedade. Num átimo, passam de
heróis a vilões e acabam nas
páginas policiais. Pensando bem,
até por piedade, o país deveria
importar-se um pouco mais com o
destino desses pobres meninos
ricos.
Cineas Santos
Professor |