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É
perceptível o extraordinário
esforço que a Santa Madre Igreja
vem fazendo no sentido de
reabilitar a figura do Diabo. Por
favor, não me tomem por herege.
Explico tudo: Bento XVI, homem de
vasta sabença, já se deu conta de
que, sem a presença do mal, o bem
se esvaece. Urge, pois, reabilitar
o Tinhoso antes que se comece a
duvidar da existência de Deus. Há
quem afirme que a derrocada do Demo
se iniciou no dia em que São Paulo
(Coelho) desistiu de apostar nele.
Antes de acharem que exagerei na
dose do chá, um refresco para os
desmemoriados. Em 1982, Paulo
Coelho publicou, pela Shogum
Editora, Arquivos do Inferno,
livrinho sobre o qual se derramou
conveniente silêncio. Com um pouco
de sorte, é possível encontrar
algum exemplar perdido nos sebos do
mundo. A partir daí, o Mago
bandeou-se para o partido do
Altíssimo e, embora continue
cometendo os mesmos erros
gramaticais, tornou-se o maior
vendedor de livros do mundo. Sua
meta é provar que “Deus escreve
certo por linhas tortas”. Mas isso
já é outra história.
Como autêntico sertanejo que sou,
nunca duvidei da existência do
Troncho. Certa feita, ouvi de uma
irmã catequista uma advertência que
me marcaria profundamente: “O
Demônio é um cão raivoso preso a
uma corrente de aço. Para não ser
mordido por ele, basta manter
prudente distância”. A piedosa
freirinha só se esqueceu de um
detalhe: estipular a extensão exata
da corrente. Volta e meia, ainda me
pergunto, apavorado: Não estarei
muito próximo? Quase sempre estou.
Um exemplo: certa feita, em 1992,
fui procurado por um cidadão
falante, maneiroso, que, sem motivo
aparente, resolveu brindar-me com
uma garrafa de “Dom José”, vinho do
Porto de boa safra. Puxou conversa,
falou de poesia, de música e
revelou em mim qualidades que eu
nem suspeitava que existissem...
Finalmente, exibiu as presas: “Caro
mestre, venho lhe fazer uma
proposta irrecusável”. Tremi nos
tamancos: sempre que me apresentam
propostas irrecusáveis, fico alguns
centavos mais pobre. Intrépido,
prosseguiu: “Como o senhor já deve
saber, a governadora Roseana Sarney
desponta como o ‘fato novo’ na
corrida pela presidência da
República. Eis a proposta: sou
editor de uma revista política e
vou lançá-la, nacionalmente, com a
Roseana na capa”. Até aí, nada de
extraordinário. O desfecho: “Com
essa edição, pretendo faturar, no
mínimo, meio milhão de reais”.
Diante do meu espanto, arrematou:
“Cada inserção de uma mensagem de
apoio de um município maranhense
custará cinco mil reais. Que
prefeito se recusará a participar
dessa campanha, levando-se em conta
o fato de a governadora ainda ter
dois anos de mandato? Venho propor
ao senhor uma parceria: racharemos
despesas e receitas, meio a meio”.
Quando lhe perguntei o porquê de
ter sido eu o escolhido, tentou
fisgar-me com o anzol da vaidade:
“O senhor é um homem sério, tem o
respeito de todos”. Atordoado com a
possibilidade de enriquecer
subitamente, pedi um tempinho para
refletir. Ele aquiesceu, com a
advertência: “Duas semanas,
professor. Lembre-se de que estamos
correndo contra o tempo!”. Ao
retirar-se, senti no ar um
inexplicável cheiro de enxofre.
Antes do prazo que me fora
concedido, estourou o escândalo da
dinheirama encontrada no escritório
da governadora. O balão murchou.
Não tive dúvida: aquele moço
blandicioso era a reencarnação do
Tinhoso. Vade retro, Satanás!
Cineas Santos
Professor |