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Parece que a
primeira vez que o mundo acabou,
pelo menos para milhares de
brasileiros, foi no dia 16 de julho
de 1950. A seleção brasileira, de
salto alto e meias finas, entrou em
campo com a coreografia pronta para
receber a taça Jules Rimet.
Esqueceu apenas um detalhe: de
combinar com o Uruguai. O resultado
foi um maracanaço, que ainda hoje
provoca pesadelo nos mais velhos.
Isso é fato, mas há as lendas,
muitas lendas. Consta que, após a
derrota, o zagueiro Juvenal teria
zanzado, por três dias e três
noites , como um zumbi, pelos
subúrbios do Rio de Janeiro; que o
seminarista Carlos Heitor Cony
teria perdido a fé, rompido com
Deus para dedicar-se à literatura
mundana; que o volume de sal nas
águas da Baía da Guanabara teria
aumentado sensivelmente com as
lágrimas que escorreram do
Maracanã... Lendas.
Por sorte, à época, vivendo no
sertão do Caracol, eu ainda não
tinha idade para sofrer. Sobrevivi
sem maiores traumas. A “minha”
primeira copa foi a de 58, quando,
sob o comando de Didi e Nilton
Santos, perdemos, de vez, “o
complexo de vira-lata”, de que
falava Nelson Rodrigues. Além de
ganhar dos galalaus suecos na casa
deles, apresentamos ao mundo um
rei-menino, de apenas 17 anos de
idade. É certo (que ninguém nos
ouça) que jogamos vestidos com a
camisa que tinha “a cor do manto de
Nossa Senhora Aparecida”. Em 62, no
Chile, repetimos a dose, desta
feita com as piruetas de Garrincha
e a gana de Amarildo. Pronto,
estava criado o mito: “com o
brasileiro não há quem possa”.
Torcedor atípico (não grito, não
solto foguetes, não me fantasio de
arara verdadeira, não bato
tambores), acompanhei a trajetória
da seleção brasileira ao longo
desses anos e (por que não
confessar?) tive mais alegrias que
tristezas. Infelizmente, perdi o
tesão por copas do mundo em 1982,
quando vi uma seleção que se
aproximava do ideal de perfeição
ser destroçada por um time apenas
mediano. A pior parte: o “carrasco”
do Brasil foi um jogador
desacreditado, recém-saído da
prisão.
Há quem afirme que a melhor de
todas as seleções brasileiras foi a
de 70, que consagraria
definitivamente Pelé. Peço
permissão para discordar. No
conjunto, a seleção de 82, era
melhor. Uma ressalva: num time de
craques, o centroavante era um
autêntico cabeça-de-bagre,
conhecido como “Chulapa”, mas o
time era maravilhoso. Aprendi, com
dor, a lição ministrada por
Valdevino Carrasco, técnico do
Sussuapara Futebol Clube: “Boniteza
em futebol é como habilidade em
égua: só serve para enganar as
vistas”, sentenciava.
Hoje, o futebol é um negócio
milionário, envolvendo interesses
os mais diversos, alguns escusos. A
copa em andamento está estimada em
5 bilhões de euros, dinheiro
suficiente para escorraçar, de vez,
a fome do continente africano. Cada
jogador é um outdoor ambulante; o
gol passou a ser apenas um detalhe.
Nesse clima, vale tudo: a força
física, a correria desenfreada, o
som das vuvuzelas e a vontade
suprema dos patrocinadores. Como o
espírito dos “brahmeiros” não baixa
em mim, torço para que, pelo menos,
uma das seleções africanas chegue
às semifinais. Por inexperiência e
pobreza, só os africanos continuam
acreditando que o futebol é apenas
um esporte, uma espécie de
brincadeira de meninos grandes. Que
pena!
Cineas Santos
Professor |