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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Pra não dizer que não falei...

cineasantos@hotmail.com


Parece que a primeira vez que o mundo acabou, pelo menos para milhares de brasileiros, foi no dia 16 de julho de 1950. A seleção brasileira, de salto alto e meias finas, entrou em campo com a coreografia pronta para receber a taça Jules Rimet. Esqueceu apenas um detalhe: de combinar com o Uruguai. O resultado foi um maracanaço, que ainda hoje provoca pesadelo nos mais velhos. Isso é fato, mas há as lendas, muitas lendas. Consta que, após a derrota, o zagueiro Juvenal teria zanzado, por três dias e três noites , como um zumbi, pelos subúrbios do Rio de Janeiro; que o seminarista Carlos Heitor Cony teria perdido a fé, rompido com Deus para dedicar-se à literatura mundana; que o volume de sal nas águas da Baía da Guanabara teria aumentado sensivelmente com as lágrimas que escorreram do Maracanã... Lendas.

Por sorte, à época, vivendo no sertão do Caracol, eu ainda não tinha idade para sofrer. Sobrevivi sem maiores traumas. A “minha” primeira copa foi a de 58, quando, sob o comando de Didi e Nilton Santos, perdemos, de vez, “o complexo de vira-lata”, de que falava Nelson Rodrigues. Além de ganhar dos galalaus suecos na casa deles, apresentamos ao mundo um rei-menino, de apenas 17 anos de idade. É certo (que ninguém nos ouça) que jogamos vestidos com a camisa que tinha “a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida”. Em 62, no Chile, repetimos a dose, desta feita com as piruetas de Garrincha e a gana de Amarildo. Pronto, estava criado o mito: “com o brasileiro não há quem possa”.

Torcedor atípico (não grito, não solto foguetes, não me fantasio de arara verdadeira, não bato tambores), acompanhei a trajetória da seleção brasileira ao longo desses anos e (por que não confessar?) tive mais alegrias que tristezas. Infelizmente, perdi o tesão por copas do mundo em 1982, quando vi uma seleção que se aproximava do ideal de perfeição ser destroçada por um time apenas mediano. A pior parte: o “carrasco” do Brasil foi um jogador desacreditado, recém-saído da prisão.

Há quem afirme que a melhor de todas as seleções brasileiras foi a de 70, que consagraria definitivamente Pelé. Peço permissão para discordar. No conjunto, a seleção de 82, era melhor. Uma ressalva: num time de craques, o centroavante era um autêntico cabeça-de-bagre, conhecido como “Chulapa”, mas o time era maravilhoso. Aprendi, com dor, a lição ministrada por Valdevino Carrasco, técnico do Sussuapara Futebol Clube: “Boniteza em futebol é como habilidade em égua: só serve para enganar as vistas”, sentenciava.

Hoje, o futebol é um negócio milionário, envolvendo interesses os mais diversos, alguns escusos. A copa em andamento está estimada em 5 bilhões de euros, dinheiro suficiente para escorraçar, de vez, a fome do continente africano. Cada jogador é um outdoor ambulante; o gol passou a ser apenas um detalhe. Nesse clima, vale tudo: a força física, a correria desenfreada, o som das vuvuzelas e a vontade suprema dos patrocinadores. Como o espírito dos “brahmeiros” não baixa em mim, torço para que, pelo menos, uma das seleções africanas chegue às semifinais. Por inexperiência e pobreza, só os africanos continuam acreditando que o futebol é apenas um esporte, uma espécie de brincadeira de meninos grandes. Que pena!
           

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos